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Elefantes podem explicar escolha da rota de Aníbal pelos Alpes

Pesquisa sugere que travessia pelo Col de la Traversette exigia menos energia do exército de Aníbal e de seus elefantes de guerra; entenda!

Representação de Aníbal montado em elefante e suas tropas / Crédito: Getty Images

Um novo estudo publicado no PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) reforça a hipótese de que Aníbal atravessou os Alpes pelo Col de la Traversette durante sua campanha contra Roma, em 218 a.C. A conclusão se diferencia de pesquisas anteriores ao analisar um aspecto pouco explorado: o custo energético da travessia para todo o exército cartaginês, incluindo soldados, cavalos e elefantes de guerra.

Há mais de dois milênios, historiadores debatem qual passagem alpina foi utilizada pelo comandante cartaginês em sua marcha rumo à Itália. Durante décadas, o Col du Clapier foi apontado como a rota mais provável.

Nos últimos anos, porém, o Col de la Traversette ganhou força entre os pesquisadores. O novo trabalho acrescenta evidências ao indicar que essa opção exigiria menos esforço físico do conjunto das tropas, destaca o Archaeology News.

Novo estudo

Para chegar ao resultado, os cientistas combinaram modelos de rotas, mapas de elevação e dados obtidos com elefantes africanos modernos.

Como já existem medições sobre o gasto energético desses animais ao caminhar em diferentes inclinações, foi possível estimar quanto esforço os elefantes de Aníbal teriam enfrentado ao subir e descer as montanhas. Os cálculos também consideraram um contingente formado por aproximadamente 40 mil soldados, 7 mil cavalos e 37 elefantes de guerra.

Segundo as estimativas, a travessia pelo Col de la Traversette consumiria cerca de 5,42 terajoules de energia para todo o exército. A segunda rota mais eficiente passaria pelo Col de Montgenèvre, via região do Gap, exigindo 6,02 terajoules. Em seguida aparecem o Col du Clapier, com 6,28 terajoules, e o Col du Mont Cenis, com 6,45 terajoules.

Os pesquisadores destacam que, em comparação com Traversette, a rota de Montgenèvre demandaria 11% mais energia, enquanto Clapier exigiria 16% a mais e Mont Cenis, 19%. Embora Aníbal não dispusesse de métodos para calcular esses valores, os autores sugerem que o comandante provavelmente identificou a alternativa menos desgastante com base em experiência prática e conhecimento das condições locais.

O estudo também estimou a quantidade de suprimentos necessária para sustentar a marcha. Caso os soldados dependessem principalmente de carboidratos, seriam necessárias aproximadamente 233 toneladas de alimentos para completar a travessia por Traversette. A escolha de outra rota elevaria essa necessidade entre 26 e 44 toneladas, aumentando ainda mais o desafio logístico, segundo comunicado.

Ilustração representando Aníbal atravessando o Ródano / Crédito: Getty Images

Os elefantes representavam um problema particular. Um animal de cerca de três toneladas consome grandes quantidades de alimento diariamente apenas para manter suas funções básicas.

Durante uma travessia alpina estimada em 15 dias, cada elefante precisaria de cinco a seis horas adicionais de alimentação por dia para compensar o gasto energético da escalada. Como isso seria inviável, os pesquisadores concluem que os animais sobreviveram utilizando suas reservas de gordura corporal.

A análise mostra diferenças significativas entre homens e animais. Enquanto os elefantes perderiam apenas cerca de 4% de suas reservas de gordura durante a travessia por Traversette, os cavalos perderiam aproximadamente 11% e os soldados cerca de 19%. Para os autores, esses números ajudam a explicar por que os relatos históricos descrevem grandes dificuldades e elevada mortalidade entre os combatentes humanos.

As reservas energéticas também podem explicar a resistência inicial dos elefantes. Fontes históricas indicam que cerca de 30 animais conseguiram alcançar a Itália e participaram posteriormente da Batalha do Trebia. A maior parte deles, porém, morreu durante o inverno seguinte, restando apenas um sobrevivente conhecido, o elefante Surus.

Além da questão logística, os pesquisadores analisaram o papel estratégico dos elefantes na campanha. Segundo eles, os animais provavelmente ofereceram vantagem militar nas primeiras batalhas ao surpreender as tropas romanas e impressionar grupos celtas do norte da Itália, cujo apoio Aníbal buscava conquistar. No entanto, manter os elefantes vivos tornou-se progressivamente mais difícil, já que o exército não dispunha de linhas seguras de abastecimento e dependia dos recursos encontrados em território inimigo.

Ao combinar dados de biologia, geografia e história, o estudo apresenta uma nova abordagem para um dos episódios militares mais conhecidos da Antiguidade. Os autores defendem que o Col de la Traversette representava a alternativa de menor custo físico para o exército cartaginês, fortalecendo sua posição como o principal candidato para a famosa travessia dos Alpes realizada por Aníbal.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.