Morre a última mulher a usar um pulmão de aço nos EUA
Martha Ann Lillard foi diagnosticada com poliomielite aos 5 anos de idade e sofreu com os efeitos da doença por mais de sete décadas

Última sobrevivente da poliomielite nos Estados Unidos, Martha Ann Lillard viveu mais de 70 anos dependendo de um pulmão de aço. A mulher de Oklahoma faleceu aos 78 anos no último dia 26 de junho — embora sua morte só tenha sido noticiada nas últimas horas.
A poliomielite foi erradicada nos Estados Unidos em 1979. No entanto, os efeitos do vírus persistiram em Martha. Antes das vacinas, os surtos da doença atingiam centenas de famílias pelo mundo.
Dezenas de milhares de pessoas morreram de poliomielite. Os sobreviventes frequentemente ficavam paralisados, desfigurados ou confinados a um pulmão de aço.
Com a erradicação da doença pelas vacinas infantis, a necessidade do pulmão de aço também desapareceu.
++ Dianne Odell: A mulher que viveu quase 60 anos com pulmão de ferro
A última sobrevivente
A última norte-americana a depender do pulmão de aço era Martha Ann Lillard. Conforme recorda o Oklahoma News, ela relatava assim o dia em que soube que tinha poliomielite, em 1953.
Eu ganhei no meu quinto aniversário. Acordei, estava ensolarado lá fora, e quando comecei a me sentar, meu pescoço estava me matando”, disse ela. “Eu não conseguia tirar a cabeça do travesseiro.”
O diagnóstico aconteceu apenas dois anos antes de a vacina estar amplamente disponível nos Estados Unidos. Naquele mesmo ano, houve o registro de 35 mil casos no país, com cerca da metade deles deixando as pessoas paralisadas.
Quatro dias depois, Martha perdeu a consciência. “Eu não conseguia respirar. Não conseguia mexer os braços nem as pernas. Estava completamente paralisada.”
No entanto, o pulmão de aço salvou sua vida. “Normalmente, eles não gostavam de colocar crianças lá dentro porque elas resistiam, mas eu não resisti”, disse ela. “Eu gostei. Era bom poder respirar”. Lillard passou seis meses no hospital aprendendo a respirar sozinha.
Inicialmente, ela vivia no pulmão de aço 23 horas por dia. Passava uma hora por dia fora do pulmão de aço, reabilitando seus membros paralisados. “Quando comecei, estava cansada. Mas entrar lá sempre era uma sensação maravilhosa”, lembra Lillard.
A COVID
Apesar das limitações, Martha consegiu viver uma vida independente, frequentemente utilizando um ventilador portátil fora do pulmão de aço.
“Ela não precisava de cuidadora até a chegada da COVID-19”, segundo a irmã dela, Cindy McVey, ao MSN. “Ela preparava as próprias refeições e cuidava de tudo sozinha.”
Martha, porém, contraiu COVID-19 duas vezes, depois teve herpes-zóster e sofreu com a COVID-19 de longa duração.Nos seus últimos oito meses de vida, ela esteve na câmara de pressão 24 horas por dia.
Assim como seu próprio corpo, o pulmão de aço começou a se deteriorar. “Algumas das peças são da década de 1940 e são difíceis de encontrar”, explicou McVey. “Temos um motor sobressalente, mas não temos ninguém para reinstalá-lo se precisarmos.”
No ano passado, um tornado na região deixou sua casa sem energia. Quando o gerador parou de funcionar, seu marido teve que lhe fazer respiração boca a boca até a chegada do socorro.
Martha ainda enfrentou dificuldades para acessar serviços de saúde e um número cada vez menor de pessoas que entendiam o funcionamento de seu respirador de baixa tecnologia.
Segundo seu obituário, Martha Lillard faleceu em 26 de junho de 2026, vítima de complicações da Covid-19. Lillard foi retirado do vácuo e, pela primeira vez em 73 anos, dormiu fora do pulmão de aço em descanso eterno.