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Ruth Ellis: última mulher enforcada na Grã-Bretanha recebe perdão

Governo britânico concede perdão póstumo a Ruth Ellis, vítima de abusos executada erroneamente em 1955

Ruth Ellis em retrato de 1954, um ano antes de ser condenada pelo assassinato de David Blakely e executada, tornando-se a última mulher a receber a pena de morte no Reino Unido. Foto: Hulton Archive/Getty Images.

A história de Ruth Ellis, a última mulher a ser executada pelo Estado na Grã-Bretanha, alcançou um marco de justiça e dignidade sete décadas após sua morte. Em julho de 2026, o governo britânico formalizou um perdão condicional póstumo, corrigindo uma omissão histórica que desconsiderou a violência doméstica extrema sofrida pela ré antes do crime ocorrido em 1955. 

O anúncio foi formalizado pelo secretário de Justiça, David Lammy, após o Rei Charles III aceitar a recomendação ministerial para revisar o caso sob a compreensão contemporânea sobre direitos humanos e saúde mental. A decisão reconhece que o sistema jurídico falhou gravemente ao não considerar o histórico de violência extrema e abusos físicos que a ré enfrentava. 

O veredito de Ruth Ellis

Em 10 de abril de 1955, Ruth Ellis disparou contra seu companheiro, o piloto de corridas David Blakely, em frente ao pub The Magdala, localizado em Hampstead, no noroeste de Londres. Naquele período, conforme os registros do veículo The Independent, o tribunal de Old Bailey conduziu o processo de forma implacável: durante o julgamento, o promotor Christmas Humphreys questionou a acusada apenas sobre sua intenção no momento do disparo. Diante da admissão direta de culpa pela jovem, o júri levou apenas 20 minutos para condená-la à morte. A sentença era obrigatória para o crime de assassinato na legislação da época, ignorando qualquer fator atenuante.

A execução ocorreu pontualmente às 9h01 do dia 13 de julho de 1955, pelas mãos do famoso carrasco Albert Pierrepoint, na prisão de Holloway. Seguindo o costume britânico para execuções, Ruth Ellis foi enterrada em uma sepultura sem identificação dentro das dependências do presídio. O evento gerou uma comoção popular e é citado por historiadores como um dos principais estopins para a abolição da pena de morte no país, consolidada em 1965.

Avisos afixados na prisão de Holloway registram a execução de Ruth Ellis, em 13 de julho de 1955. Ela foi a última mulher executada no Reino Unido após ser condenada por homicídio. Foto: Evening Standard/Hulton Archive/Getty Images.

Ciclo de violência

A defesa e os familiares de Ruth Ellis argumentaram por décadas que as evidências de abusos físicos e emocionais sistemáticos nunca foram devidamente ouvidas no processo original. Apenas dez dias antes de disparar contra o piloto, Ruth Ellis havia sofrido um aborto espontâneo causado diretamente por um soco no estômago desferido por David Blakely

Conforme as informações oficiais, a incapacidade do sistema jurídico da década de 1950 em reconhecer o impacto desses traumas resultou em uma punição que não condizia com as circunstâncias reais da vida da condenada. Especialistas tratam o caso como o reconhecimento definitivo da síndrome da mulher espancada no direito britânico.

Legado de trauma

O impacto da forca devastou a linhagem familiar ao longo dos anos, gerando cicatrizes psicológicas incuráveis. A neta da condenada, Laura Enston, que liderou a campanha pelo perdão em 2025, relatou ao portal The Guardian que a morte da avó destruiu a saúde mental de seus descendentes. A filha da executada viveu de forma atormentada e seu filho, tio de Laura, tirou a própria vida após enfrentar graves transtornos mentais decorrentes da tragédia familiar.

Ao celebrar a decisão, Laura Enston afirmou que, embora a medida não devolva os anos perdidos, ela serve como uma declaração de que Ruth Ellis foi uma vítima do Estado. Para a advogada Katy Colton, que representou os netos perante o Parlamento, se o julgamento ocorresse sob as leis atuais, o acúmulo de abusos teria levado a uma acusação de homicídio culposo, impedindo a aplicação da pena capital. Com o perdão real, a Grã-Bretanha admite que a vida de Ruth Ellis foi encerrada por um sistema cego para as sobreviventes de maus-tratos.


*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes

Meu propósito é dar voz a narrativas.