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As viagens de Marco Polo: a verdadeira história do primeiro best-seller do mundo

Da prisão em Gênova aos 17 anos de serviços prestados ao imperador mongol, conheça a odisseia real por trás dos relatos de Marco Polo

Mosaico representando Marco Polo / Crédito: Domínio Público

A base do conhecimento geográfico e comercial que conectou a Europa medieval ao Extremo Oriente esteve profundamente atrelada à trajetória da família Polo.

O relato resultante dessa jornada de 24 anos converteu-se em um dos primeiros fenômenos editoriais do mundo ocidental por volta do ano 1300: . O fascínio do público da época pelas descrições de territórios distantes e costumes exóticos transformou o manuscrito em um sucesso expressivo, inaugurando uma nova percepção cartográfica e mental sobre o continente asiático.

A concepção da obra não ocorreu por meio do registro direto do explorador veneziano Marco Polo. Pouco tempo após regressar a Veneza, em 1295, Polo foi capturado e feito prisioneiro pelos genoveses, rivais históricos dos venezianos.

No período de reclusão, ele dividiu a cela com um escritor de Pisa chamado Rusticiano. Ao compartilhar suas memórias e itinerários com o companheiro de cárcere, Polo forneceu o material que Rusticiano transcreveu e compilou em franco-italiano, um idioma medieval utilizado na época.

Embora o texto original redigido por Rusticiano tenha se perdido ao longo dos séculos, mais de 100 cópias manuscritas e iluminadas produzidas durante o período medieval sobreviveram até a atualidade.

Esses volumes apresentam acabamento estético sofisticado, contudo, exibem discrepâncias significativas de conteúdo entre si. Na península italiana, a obra popularizou-se sob o título de Il Milione, denominação associada a um conhecido apelido de Marco Polo. Já no ambiente de língua inglesa, o livro passou a ser difundido como As Viagens de Marco Polo.

Parte de mapa ilustrado representando a jornada de Marco Polo na Rota da Seda para a China / Crédito: Getty Images

Entre as versões remanescentes mais antigas está o manuscrito preservado na Biblioteca Bodleiana, em Oxford, na Inglaterra, datado de aproximadamente 1400. Dotada de ilustrações, essa cópia é considerada por diversos especialistas como um texto de referência para o estudo da odisseia.

O documento reconstitui os passos de três mercadores venezianos que, a partir de 1271, singraram rotas comerciais pouco exploradas por indivíduos de cultura cristã, culminando no ingresso na corte de Kublai Khan, o imperador mongol.

Domínio mongol

Nascido em 1254, Marco Polo cresceu em um contexto no qual as atenções europeias estavam voltadas para o Oriente. Naquele período, a expansão das forças mongóis gerava apreensão, alcançando as fronteiras da Hungria.

Quando a família Polo iniciou a viagem, 17 anos mais tarde, o Império Mongol atingia a sua máxima extensão territorial, configurando o maior império terrestre contíguo da história humana. A Horda Dourada, correspondente à porção noroeste do domínio, estendia-se até o rio Danúbio, na Europa Central, enquanto a extremidade oriental tocava a costa asiática do Oceano Pacífico.

Esse Estado unificado originou-se a partir da coalizão de tribos nômades da estepe. Em 1206, o líder militar Temüjin obteve o título de Genghis Khan, cujo significado é “Governante Universal”, após subjugar seus concorrentes políticos regionais. Sob o comando de Genghis Khan, a confederação iniciou incursões expansionistas além das fronteiras tradicionais da estepe mongol.

O vetor inicial direcionou-se para o leste, absorvendo os reinos do norte e do oeste da China, o que resultou na queda de Pequim em 1215. Posteriormente, reinos da Ásia Central e porções do sul da Rússia foram integrados à estrutura imperial.

Por ocasião do falecimento de Genghis Khan, em 1227, os contingentes militares mongóis controlavam as rotas da Rota da Seda e patrulhavam áreas que iam da Sibéria e do Tibete até as margens dos mares Cáspio e da China. A partir de 1236, as campanhas militares voltaram-se de forma incisiva contra o continente europeu.

Os exércitos conquistaram Kiev em 1240 e saquearam a cidade de Cracóvia no ano seguinte, avançando pela Hungria e realizando incursões na Áustria, ao sul de Viena, onde foram contidos. O impacto dessas vitórias rápidas consolidou a reputação de invencibilidade dos cavaleiros mongóis na Europa. Na época da partida dos Polo, a memória dessas invasões permanecia viva, gerando tanto temor quanto interesse comercial por parte de setores empreendedores europeus.

Rede comercial e diplomacia

A República de Veneza destacava-se como uma potência marítima europeia, operando redes de intercâmbio comercial no Mediterrâneo e no Oriente Médio. Os comerciantes venezianos viajavam com frequência até Trebizonda, cidade situada na atual Turquia e considerada o ponto de acesso ocidental para a Rota da Seda, por onde circulavam produtos manufaturados e matérias-primas entre a China e a Europa.

Niccolò Polo e Maffeo Polo, pai e tio de Marco, respectivamente, realizavam viagens mercantis de longo curso. Em 1261, os dois irmãos deixaram Veneza com o objetivo de estabelecer novos canais de negócios no Oriente, oportunidade em que contataram a liderança mongol pela primeira vez.

A operação comercial dos irmãos estruturava-se a partir de Constantinopla, estendendo-se ao longo do rio Volga até a cidade de Bukhara, no atual Uzbequistão. Foi nessa região que Niccolò e Maffeo integraram-se a uma comitiva oficial enviada à corte de Kublai Khan em Shangdu, localizada na atual Mongólia Interior, na China.

O encontro funcionou como um canal diplomático bilateral. Kublai Khan demonstrou interesse pelo cristianismo e pelas estruturas políticas da Europa, solicitando aos irmãos venezianos que retornassem ao Ocidente para pedir ao papa o envio de intelectuais dedicados a instruir os mongóis nas doutrinas cristãs.

Retrato de Kublai Khan / Crédito: Getty Images

A viagem de retorno dos Polo enfrentou entraves logísticos ao alcançarem a cidade de Acre, no atual Israel, onde constataram o falecimento do Papa Clemente e a vacância do trono pontifício. Os comerciantes decidiram aguardar a eleição de um novo pontífice em Veneza, período em que incorporaram o jovem Marco Polo, então com 17 anos, aos planos da nova viagem.

Rumo à corte de Kublai Khan

Em 1271, os três integrantes da família Polo embarcaram rumo a Acre, adotando a partir dali um itinerário terrestre que cortava a Anatólia Oriental, a Armênia e alcançava a cidade de Tabriz, no atual Azerbaijão. O plano original previa descer pelo planalto iraniano, contornando Bagdá, até o Estreito de Ormuz, de onde embarcariam rumo à China pelo Mar Arábico e Oceano Índico.

Todavia, as condições das embarcações locais desencorajaram o grupo. No livro, o próprio Marco Polo descreve os barcos como “embarcações miseráveis… costuradas apenas com barbante feito da casca da noz indiana”, fato que determinou a escolha pela rota terrestre através da Ásia Central.

Durante o percurso, Marco Polo registrou as potencialidades comerciais de cada entreposto. Sobre Tabriz, destacou que “tem uma localização excelente, de modo que as mercadorias trazidas para cá vêm de muitas regiões. Mercadores latinos… vão até lá para comprar as mercadorias que vêm de terras estrangeiras”, registrando também que os persas teciam “os melhores e mais belos tapetes do mundo”.

Em relação a Bagdá, mencionou que “um grande rio [o Tigre] a atravessa, por meio do qual os mercadores transportam suas mercadorias de e para o Mar da Índia”. Apesar dessas observações detalhadas, analistas históricos argumentam que Marco Polo provavelmente não visitou Bagdá de forma direta, uma vez que a localidade havia sido destruída pelas forças mongóis uma década antes, e há dúvidas semelhantes sobre sua ida a Mosul, de onde coletou dados indiretos sobre a produção têxtil.

Após três anos e meio de deslocamento, enfrentando enfermidades e ataques de assaltantes no Afeganistão, o grupo chegou a Shangdu. Marco Polo, aos 21 anos, foi integrado ao círculo de funcionários de Kublai Khan, dominando o idioma local.

A família permaneceu por quase 17 anos a serviço do governante na China e em territórios adjacentes. Marco Polo realizou missões oficiais em províncias remotas, viajando a locais como Pagan, no atual Myanmar, e Karakorum, a antiga capital mongol ao norte.

O trajeto de retorno à Europa deu-se por via marítima, cruzando o Mar da China Meridional, Vietnã, Malásia, Sumatra e Sri Lanka. Contornando o sul da península indiana, navegaram para o norte pela costa ocidental até desembarcarem no Afeganistão. A rota final cruzou a Pérsia, o Oriente Médio e Constantinopla, de onde os viajantes embarcaram de volta para Veneza, encerrando a odisseia de 24 anos em 1295.

Representação de Kublai Khan dando passaporte aos Polo / Crédito: Getty Images

O impacto de um relato ambíguo

A rápida difusão do manuscrito pelas cidades italianas ocorreu em poucos meses, precedendo em mais de um século a introdução dos tipos móveis de imprensa por Johannes Gutenberg por volta de 1439. O interesse gerado pelo texto vinculava-se ao detalhamento inédito fornecido sobre a China e as redes da Rota da Seda, contrastando com os boatos fragmentados que circulavam na Europa até então.

A narrativa misturava dados factual-comerciais com episódios fabulosos, gerando controvérsias entre os leitores. Entre as passagens incomuns constavam descrições de plantas de onde supostamente brotava massa alimentícia — o que historiadores interpretam como um equívoco de tradução ou transcrição por parte de Rusticiano —, além de relatos sobre povos com cabeças de cão na ilha de Angaman (identificada como as Ilhas Andaman) e de grandes unicórnios em Sumatra, que comentadores modernos associam a avistamentos de rinocerontes.

A exatidão de certas rotas descritas também é objeto de debate historiográfico, uma vez que o livro funde observações diretas dos Polo com histórias narradas por terceiros. Marco Polo descreveu detalhadamente um território denominado Cipangu, associado ao Japão, mencionando um palácio cujos pavimentos eram cobertos por ouro com “mais de dois dedos de espessura”.

Historiadores apontam que Polo nunca esteve em solo japonês e que as informações possuíam natureza indireta. Apesar dessas inserções, o consenso acadêmico valida a autenticidade geral das descrições sobre a China continental.

O viés voltado às práticas de mercado garantiu a utilidade duradoura do texto para a cartografia e a navegação do final da Idade Média. Marco Polo caracterizou o território chinês como um “paraíso para comerciantes“, fornecendo pormenores realistas sobre a aplicação das leis locais e o transporte de mercadorias. Essas informações balizaram a confecção de novos mapas do Leste Asiático e motivaram expedições posteriores de mercadores europeus, estimulando o espírito de exploração que culminaria na Era dos Descobrimentos no século 15.

A aproximação cultural iniciada pelos Polo estabeleceu precedentes de longo prazo nas relações entre o Ocidente e a China. Em 1557, os soberanos da dinastia Ming autorizaram Portugal a fundar um posto permanente em Macau, repercute o National Geographic.

A partir desse núcleo, o missionário jesuíta italiano Matteo Ricci deu início a um trabalho de intercâmbio religioso e cultural, dedicando-se a traduzir e explicar as tradições, a filosofia e os costumes chineses para o público europeu, consolidando a ponte comunicativa que os viajantes venezianos haviam começado a traçar dois séculos antes.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.