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O noir brasileiro e a crítica social na literatura policial contemporânea

Como o crime pode se transformar em espelho das contradições do país

Noir capa
Imagem meramente ilustrativa - Getty Images

Por: Vinícius Ferreira

O romance policial noir no Brasil é um dos herdeiros diretos do modelo da ficção realista que se desenvolveu no país a partir do final do século XIX. Com essa afirmação, quero provocar algumas reflexões a respeito do importante deslocamento que a ficção policial brasileira realizou em relação às bases do gênero, criadas desde o surgimento com Edgar Allan Poe. Tradicionalmente, o modelo previa uma investigação conduzida pela lógica, na qual o detetive de mente brilhante procura restaurar a ordem e a normalidade.

Por aqui, ao contrário, o interesse maior da ficção noir é a própria sociedade, o funcionamento das regras que fazem dela uma construção tão assimétrica e propensa à manutenção das injustiças. Numa realidade assim, o crime deixa de ser somente um enigma isolado a ser desvendado e passa a ser considerado como um sintoma. Consequentemente, a investigação precisará lidar com questões como as desigualdades históricas, a violência estrutural e a fragilidade institucional.

Portanto, ao detetive do noir nacional não basta conformar-se com o cumprimento da lei. Será demandado a ele sondar e interrogar de si mesmo se sua eficiência não serve apenas para manter um status quo adverso.

Personagens contaminados e violência estrutural

Quando falamos de ficção noir no Brasil logo associamos o gênero ao nome de Rubem Fonseca. Na obra deste que é considerado um dos precursores do noir nacional, não é difícil notar que a violência não comparece como súbita exceção ou irrompe como mera desmedida individual. Ela é parte constitutiva da vida cotidiana.

Os assassinatos, a corrupção policial, as relações promíscuas entre burguesia e agentes públicos forjam um universo no qual o detetive põe à prova seus preceitos morais, éticos e sua conduta profissional, não podendo ser enquadrado na moldura do herói, aquele ser superior, sempre capaz de restaurar a ordem.

A missão do investigador, policial ou detetive particular, configura-se tanto mais complexa, pois ele próprio costuma se encontrar imerso na mesma degradação que tenta evitar. Diante dessa premissa, o crime não pode ser explicado apenas com base na psicologia individual. Do mesmo modo, seu desvendamento passa a caminhar em paralelo com uma leitura que funciona como uma espécie de sociologia da realidade.

Nela, espaços como favelas, periferias, condomínios de luxo, delegacias e gabinetes políticos estão longe de serem apenas cenários neutros e indiferentes aos dramas humanos. Eles se tornam representações simbólicas de campos de poder, com regras próprias, que, no fundo, mostram-se bastante elucidativas do quanto de complexidade cabe nas multifacetadas desigualdades brasileiras.

A cidade como personagem e a geografia da desigualdade

Se um dos traços mais marcantes do noir costuma ser a representação urbana, já é possível notar em algumas obras contemporâneas o deslocamento das tramas das grandes para as pequenas e médias cidades do país. A percepção de que a violência não escolhe terreno deixou de lado a excepcionalidade e passou a moldar comportamentos. Antes refúgios seguros, as pequenas e médias cidades passaram a padecer da mesma sensação de insegurança que vem fazendo muitas pessoas abandonarem os grandes centros.

Quem leu uma obra como “O Matador”, de Patrícia Melo, pôde reparar que embora a trama possua uma dinâmica que a faz circular por diferentes áreas, não deixa de ser forte a ênfase dada ao caráter de Brasil profundo na exploração da banalidade da violência e do assassinato por encomenda.

Investigar o crime é investigar o país

O noir brasileiro, ao que tudo indica, transformou a pergunta clássica “quem matou?” em outra, bem mais difícil e bem mais profunda: “que tipo de sociedade é essa que é capaz de produzir esse tipo de violência?” Para que as obras possam significar bem mais do que entretenimento, a ficção noir acrescentou à narrativa policial uma janela para a crítica social. A partir dessa combinação, o gênero passou a oferecer uma poderosa ferramenta de interpretação do Brasil. Ao questionar, denunciar e provocar reflexão, o noir se mostra disposto a encarar no espelho um país marcado por desigualdades persistentes, crises de segurança pública e escândalos políticos.

Se todas essas afirmações forem aceitas como uma reflexão capaz de alcançar o crescimento do interesse pela literatura policial nacional, estaremos no caminho de aceitar como verdade que a ficção continua sendo um instrumento privilegiado para investigar não apenas crimes individuais, mas também as contradições mais profundas da sociedade brasileira.


++Nascido em Cataguases (MG), Vinícius Ferreira é professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), doutor em Estudos Literários, mestre em Letras e especialista em Ciências Humanas, com pesquisas relacionadas a ensino de literatura, colonialismo e desigualdade cultural. Como escritor, publicou os livros de contos “Uma ou outra forma de tirania”, “As mãos ásperas” e “Acerto de contas”, além das novelas “E se estivesse escuro?” e “Noturno em Vista Alegre”. Em 2021, seu conto “O Mineiro” conquistou a segunda colocação no concurso Ana Maria Martins, promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE). Agora, lança o romance noir Não existe acaso no inferno.