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O tratamento revolucionário na Guerra Civil Espanhola

Frederic Duran Jordà foi responsável por implementar o tratamento de transfusão de sangue em meio ao conflito na Espanha

Tropas de Franco no fim da Guerra Civil Espanhola / Crédito: Getty Images

As primeiras tentativas de transfusão de sangue registradas na história da medicina ocorreram ainda no século XVII. Em 1667, o médico francês Jean-Baptiste Denys realizou aquele que é considerado o primeiro tratamento documentado com sucesso ao tentar salvar a vida de um adolescente de 15 anos.

Na época, o jovem havia sido submetido repetidamente a sangrias, prática amplamente aceita pela medicina baseada na antiga teoria dos humores. Apesar do êxito do procedimento, a transfusão permaneceu, durante séculos, uma técnica cercada por riscos e resultados imprevisíveis.

Ao longo do século XIX, transfusões eram empregadas apenas como último recurso em situações extremas, como hemorragias após o parto. Algumas salvavam pacientes, enquanto outras provocavam mortes aparentemente sem explicação. A razão para essa inconsistência só foi descoberta em 1901 pelo biólogo austríaco Karl Landsteiner.

Ao misturar amostras de sangue de colegas de laboratório, ele observou que determinadas combinações provocavam reações de coagulação entre o plasma e os glóbulos vermelhos, fenômeno causado pela incompatibilidade entre anticorpos e antígenos. A descoberta permitiu identificar os diferentes grupos sanguíneos e inaugurou uma nova era para a medicina transfusional.

Evoluções do tratamento

Nos anos seguintes, avanços como os testes de tipagem sanguínea e o desenvolvimento de anticoagulantes tornaram as transfusões significativamente mais seguras. Ao final da Primeira Guerra Mundial, o procedimento já era empregado de forma rotineira para tratar soldados feridos, contribuindo para salvar dezenas de milhares de vidas. O conflito também estimulou o surgimento dos primeiros bancos de sangue em pequena escala.

Outro salto importante ocorreu na década de 1930. O médico soviético Sergei Udin desenvolveu um sistema para utilizar sangue retirado de cadáveres, preservando-o com anticoagulantes e armazenando-o sob refrigeração antes de transportá-lo para hospitais. Em 1937, Udin publicou na revista The Lancet um artigo relatando cerca de mil transfusões realizadas com esse método, demonstrando que o armazenamento prolongado do sangue poderia ampliar o acesso ao procedimento.

Entretanto, foi outro conflito que transformaria definitivamente a logística das transfusões. Em julho de 1936, o general Francisco Franco liderou uma rebelião contra o governo democraticamente eleito da República Espanhola, dando início à Guerra Civil Espanhola. Com o avanço das tropas nacionalistas, combates intensos espalharam-se pelo país, produzindo um elevado número de feridos graves e colocando enorme pressão sobre os serviços médicos.

Transfusões na Guerra Civil

Um dos episódios mais dramáticos ocorreu em julho de 1937, durante a Batalha de Brunete, nas proximidades de Madri. A ofensiva republicana buscava romper o cerco imposto pelos nacionalistas à capital, mas acabou se transformando em um confronto de três semanas marcado pelo uso intenso de tanques, bombardeios aéreos e temperaturas superiores a 40°C. Soldados sofriam com insolação, ferimentos provocados por estilhaços e hemorragias severas que, em guerras anteriores, seriam praticamente fatais.

Foi nesse cenário que surgiu uma inovação decisiva. Embora os hospitais de campanha estivessem próximos da linha de frente, o sangue utilizado nas cirurgias vinha de Barcelona, localizada a centenas de quilômetros de distância. A operação era coordenada pelo médico catalão Frederic Duran Jordà, então com 32 anos, que havia estruturado um sistema inédito de coleta, conservação e distribuição de sangue.

Desde os primeiros meses da guerra, Duran organizou campanhas de doação por meio de transmissões de rádio e reuniu milhares de voluntários. Até a Batalha de Brunete, seu serviço contava com cerca de 3 mil doadores cadastrados e operava em escala industrial. O sangue era coletado, testado, misturado ao citrato de sódio para evitar a coagulação, refrigerado e enviado ao front em recipientes especialmente desenvolvidos para suportar longas viagens.

Além da logística, Duran aperfeiçoou o próprio equipamento de transfusão. Seu dispositivo, conhecido como auto-injetável, era um kit compacto e pronto para uso que dispensava a presença de especialistas. Médicos, enfermeiros e socorristas podiam realizar transfusões diretamente nos hospitais de campanha, reduzindo drasticamente o tempo de atendimento e aumentando as chances de sobrevivência de soldados gravemente feridos.

Apesar da relevância de sua contribuição, a vitória de Franco em 1939 obrigou Duran a fugir para a Inglaterra, deixando esposa e filha em Barcelona. No exílio, compartilhou seu método com o Serviço de Transfusão de Sangue do Exército Britânico. Suas ideias inspiraram a criação de uma ampla rede de bancos de sangue no Reino Unido, utilizada durante a Segunda Guerra Mundial para atender vítimas da Blitz, das campanhas no Norte da África e do desembarque na Normandia.

Ainda assim, o reconhecimento demorou a chegar. Suspeito de simpatizar com o comunismo por ter servido à República Espanhola, Duran foi relegado a um cargo secundário em Manchester, onde morreu em 1957, aos 51 anos. Sua trajetória também foi apagada da história médica na então Tchecoslováquia sob influência soviética.

Apesar disso, o sistema de coleta, armazenamento e transporte de sangue desenvolvido durante a Guerra Civil Espanhola tornou-se a base dos modernos bancos de sangue e da medicina de emergência, deixando um legado que continua salvando milhões de vidas em todo o mundo.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.