Lakshmi Bai: a rainha guerreira da Índia que enfrentou o Império Britânico
Liderando tropas contra a Companhia das Índias Orientais, Lakshmi Bai rejeitou ordens coloniais e marcou a história do país no século 19

A rainha Lakshmi Bai tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da resistência ao domínio britânico na Índia ao liderar a defesa do reino de Jhansi durante a Rebelião Indiana de 1857. Conhecida como a “rainha de Jhansi”, ela enfrentou os planos da Companhia das Índias Orientais de anexar seu território e entrou para a história como símbolo da luta anticolonial, inspirando movimentos que culminariam na independência do país quase um século depois.
Sua trajetória reúne elementos históricos e lendários. Relatos descrevem Lakshmi Bai comandando milhares de soldados de infantaria e cavalaria em combate contra as forças britânicas, lutando com uma espada em cada mão e conduzindo o cavalo com as rédeas presas entre os dentes. Embora tenha perdido o reino e morrido em batalha, sua imagem permaneceu como um dos maiores ícones da resistência indiana.
Crise de sucessão ao trono
Nascida por volta de 1827 na atual cidade de Varanasi, no nordeste da Índia, ela recebeu o nome de Manikarnika. Filha de um brâmane que atuava como conselheiro na corte do peshwa Baji Rao II, foi criada em um ambiente pouco comum para meninas da época. Após a morte da mãe, quando tinha quatro anos, passou a viver na corte, onde recebeu educação formal e treinamento em artes marciais, esgrima e equitação ao lado dos meninos.
Em 1842, casou-se com Gangadhar Rao, marajá de Jhansi, adotando o nome Lakshmi Bai em homenagem à deusa hindu da riqueza e da boa fortuna. O casal perdeu o único filho biológico ainda na infância. Em 1853, diante da doença do rei, adotou um menino de cinco anos, Damodar Rao, declarado herdeiro do trono. O marajá determinou que Lakshmi Bai governaria como regente até que o filho atingisse a maioridade. Pouco depois, no entanto, Gangadhar Rao morreu.
A sucessão, entretanto, foi contestada pela Companhia das Índias Orientais. A corporação britânica aplicava a chamada doutrina da caducidade, política que autorizava a anexação de reinos cujos governantes não possuíssem herdeiros masculinos biológicos. Em troca da entrega de Jhansi, Lakshmi Bai recebeu a oferta de uma pensão anual de 60.000 rupias, mas recusou a proposta declarando: “Não abrirei mão de Jhansi”.

Estopim da revolta e a visão dos colonizadores
Enquanto organizava a defesa do reino, a Índia mergulhava na Revolta dos Sipaios, iniciada em 1857. O movimento foi resultado de diversas insatisfações acumuladas contra a administração britânica, incluindo medidas consideradas ofensivas às tradições religiosas e sociais locais.
O estopim foi a distribuição de cartuchos de rifle supostamente lubrificados com gordura de porco e de vaca, materiais proibidos pelas leis alimentares de muçulmanos e hindus. Ainda que não existam provas de que esses produtos tenham sido utilizados, o episódio intensificou um cenário já marcado por tensões provocadas por políticas britânicas, como o apoio à atividade missionária cristã, mudanças nas leis de herança e a proibição do sati em 1829.
Após assumir o governo de Jhansi, Lakshmi Bai passou a ocupar posição central no conflito. Sua imagem, porém, tornou-se alvo de interpretações opostas. Enquanto muitos indianos a consideravam uma heroína, autoridades britânicas a retratavam como uma vilã, chegando a chamá-la de “Jezabel da Índia“. A controvérsia surgiu especialmente após o massacre de mais de 60 residentes ingleses — em sua maioria mulheres e crianças — por sipaios rebeldes em Jhansi, em junho de 1857.
Em duas cartas enviadas a um oficial britânico após a retirada dos rebeldes, Lakshmi Bai negou qualquer envolvimento no episódio. Segundo ela, os sipaios não obedeciam às suas ordens e esperava que eles “fossem direto para o inferno por seus atos”. Apesar disso, a Companhia das Índias Orientais rejeitou sua versão e a responsabilizou pelos acontecimentos.
A queda de Jhansi
O confronto decisivo ocorreu em março de 1858, quando tropas comandadas pelo general Hugh Rose cercaram a fortaleza de Jhansi. Durante cerca de duas semanas, os defensores resistiram ao intenso bombardeio, utilizando canhões pesados e reconstruindo trechos das muralhas destruídas. A resistência, contudo, terminou quando as forças britânicas romperam as defesas da cidade.
Lakshmi Bai conseguiu escapar durante a noite acompanhada por seus guardas e, segundo os relatos, levando o filho adotivo preso às costas. Depois da queda de Jhansi, tropas britânicas ocuparam a cidade. Um soldado registrou ter recebido ordens para “não poupar ninguém com mais de 16 anos, exceto mulheres, é claro”. A ofensiva resultou na morte de aproximadamente 5.000 pessoas.

Combate final e o legado na Índia independente
A rainha uniu-se então a outros líderes rebeldes. Após ocupar Kalpi sem conseguir mantê-la, suas forças conquistaram a cidade-fortaleza de Gwalior. A vitória, entretanto, foi breve. Durante o avanço para enfrentar o contra-ataque britânico liderado por Hugh Rose, Lakshmi Bai morreu em combate.
De acordo com um relatório encontrado entre os documentos de Lord Canning, governador-geral da Índia, ela “costumava se vestir como um homem (com turbante) e cavalgar como um”. O documento relata que a rainha foi atingida pelas costas por um soldado do Oitavo Regimento de Hussardos e, ao tentar reagir, foi morta por um golpe de espada. Posteriormente, o próprio Hugh Rose reconheceria a importância da adversária ao afirmar que “a Revolta dos Sipaios produziu apenas um homem, e esse homem era uma mulher”.
O filho adotivo da rainha, Damodar Rao, conseguiu fugir com seus protetores, mas viveu anos de dificuldades até se entregar às autoridades britânicas. Recebeu apenas uma pequena pensão, viveu na pobreza e morreu sem reconhecimento oficial como herdeiro da família real de Jhansi, repercute o National Geographic.
Apesar desse desfecho, a memória de Lakshmi Bai permaneceu viva. Durante a década de 1940, o Exército Nacional Indiano criou um corpo militar exclusivamente feminino chamado Regimento Rani de Jhansi, em homenagem à rainha.
Após a independência da Índia, em 1947, sua história continuou sendo celebrada. Entre as homenagens mais conhecidas está o poema “Jhansi Ki Rani”, de Subhadra Kumari Chauhan, ainda ensinado em escolas indianas. Traduzido do hindi, o texto resume o legado da soberana com o verso: “Esta história ouvimos da boca dos bardos Bundel / Como um homem ela lutou, ela foi a Rainha de Jhansi.”