Vítor Soares / Curiosidades

Rainha Vitória: 188 anos da coroação que mudou a monarquia britânica

Há exatos 188 anos, começava um reinado marcado por reformas na monarquia britânica, expansão territorial violenta e forte apelo popular

Antiga fotografia da Rainha Vitória / Crédito: Domínio Público

Neste domingo, 28 de junho, completam-se exatamente 188 anos de um dos momentos mais marcantes da história política europeia: a coroação da Rainha Vitória, ocorrida em 1838.

Embora tenha assumido o trono em um período de forte contestação popular, no qual surgiam clamores abertos pela substituição da monarquia por um modelo republicano, a soberana não apenas preservou a Coroa como reestruturou profundamente as bases do poder britânico. Por meio de reformas ambiciosas e de uma agressiva expansão imperialista, Vitória consolidou um legado duradouro que reverbera até a contemporaneidade.

Ao longo do século 19, a monarca acumulou denominações distintas que ilustram a amplitude de seu impacto global, sendo chamada desde “A Rainha da Fome” e “A Viúva de Windsor” até “A Avó da Europa”. Durante os 64 anos de seu reinado, que se estendeu de 1837 a 1901 e ficou conhecido como a Era Vitoriana, ela esteve à frente de profundas transformações industriais, territoriais e sociais no Reino Unido.

Vitória destacou-se como uma figura de vanguarda, alterando a percepção do continente em relação à realeza e fazendo com que, ao término de seus dias, cerca de um quarto da população mundial estivesse sob o domínio do Império Britânico.

Pintura retratando a coroação da Rainha Vitória / Crédito: Domínio Público

Sucessão conturbada e isolamento em Kensington

A chegada de Vitória ao poder decorreu de uma severa crise de sucessão na linhagem real da Inglaterra. O cenário se desenhou após o falecimento da princesa Charlotte, então herdeira presuntiva do rei George, que morreu no parto junto com o filho recém-nascido.

Diante disso, os tios de Vitória — até então solteiros e criticados publicamente pelo comportamento financeiro esbanjador e por condutas pessoais polêmicas — iniciaram uma corrida para gerar um sucessor legítimo. Foi nesse contexto que Edward, um dos irmãos de Charlotte, contraiu matrimônio rapidamente com uma princesa alemã viúva, tornando-se o primeiro a ter um descendente. Nascida em 1819, Alexandrina Vitória tornou-se a herdeira imediata do trono.

O período de infância da futura rainha foi marcado por severas dificuldades decorrentes de disputas internas no palácio. Com a morte prematura de seu pai quando ela ainda era criança, sua mãe estabeleceu uma aliança com Sir John Conroy.

Buscando obter controle e autoridade por meio da jovem herdeira, Conroy estruturou o denominado “sistema de Kensington“. Este modelo consistia em um conjunto rígido de normas que confinava a princesa no Palácio de Kensington, regulando de forma estrita sua formação e convívio com o intuito de torná-la submissa e dependente. Essa realidade gerou em Vitória uma infância solitária e um persistente sentimento de indignação.

A libertação desse regime ocorreu em 1837, quando a jovem atingiu a maioridade aos 18 anos e assumiu a liderança do reino. Em suas primeiras medidas como monarca, ela afastou Conroy da corte e reduziu drasticamente a influência política de sua mãe.

Pouco depois, em 1840, uniu-se em matrimônio com seu primo, o príncipe alemão Alberto, em uma união pautada por afeto mútuo. Em seus registros pessoais, a rainha descreveu a noite de núpcias como “uma felicidade indescritível”. Dessa união nasceram nove filhos.

A Rainha Vitória e o Príncipe Alberto / Crédito: Getty Images

Início do reinado e modernização da coroa

Nos primeiros anos de sua gestão, Vitória contou com a forte orientação política do primeiro-ministro, Lord Melbourne, e de seu esposo, Alberto, que atuava como seu principal conselheiro e era considerado por analistas históricos como “rei em tudo, menos no nome”. Juntos, os três traçaram metas voltadas para a modernização institucional e a busca por estabilidade em um momento de acentuada agitação social.

A imagem da monarquia encontrava-se desgastada devido aos abusos cometidos pelos reis anteriores, impulsionando movimentos favoráveis à república. Paralelamente, na Irlanda, o período da Grande Fome da Batata, ocorrido entre 1845 e 1852, serviu de estopim para uma insurreição aberta.

Para conter a rejeição popular à realeza — motivada pela insatisfação de que a sociedade financiasse os luxos da corte —, Vitória e Alberto decidiram mudar a postura da Coroa. A soberana ampliou a atuação pública do monarca ao direcionar apoio financeiro e institucional a entidades filantrópicas, movimentos de reforma urbana e manifestações artísticas.

Como consequência, a família real converteu-se em uma referência de grande apelo popular e ditou tendências culturais na sociedade inglesa, popularizando costumes que variaram do uso de vestidos de noiva na cor branca à adoção de árvores decorativas no Natal.

Em 1861, contudo, o falecimento prematuro de Alberto, aos 42 anos, interrompeu essa dinâmica. Profundamente abalada, Vitória iniciou um período de luto rigoroso, adotando vestimentas pretas pelo resto de seus dias e mantendo-se reclusa por vários anos. Esse recolhimento prolongado reacendeu as críticas do movimento republicano, que questionava sua ausência das funções de Estado.

Expansão global e consolidação imperial

A retomada total das agendas públicas por parte da rainha ocorreu no final da década de 1860. Esta nova fase de seu governo concentrou-se nos esforços para assegurar a estabilidade política na Europa e para expandir de forma contundente os domínios do império.

No ano de 1877, Vitória foi oficializada como Imperatriz da Índia, ao mesmo tempo em que utilizava os casamentos de seus filhos e netos com integrantes de outras dinastias para moldar a política externa no continente europeu.

Antes desse período, a Grã-Bretanha destacava-se essencialmente como um polo mercantil. Sob a liderança de Vitória, a nação converteu-se na principal potência global de sua época, expandindo seu território em 10 milhões de milhas quadradas e agregando mais de 400 milhões de pessoas aos seus domínios.

Essa hegemonia, no entanto, foi alcançada por meio de conflitos armados quase ininterruptos e de um processo de colonização caracterizado por forte repressão e violência contra as populações locais, repercute o National Geographic.

Ao mesmo tempo em que a aprovação da rainha crescia entre seus súditos, a pressão por transformações políticas internas não cessou. Ao longo da segunda metade do século 19, a aprovação de reformas que garantiram o direito ao voto para cidadãos comuns e a introdução do voto secreto resultaram na redução gradativa do poder político direto exercido pelo ocupante do trono.

Fotografias da Rainha Vitória / Crédito: Domínio Público

O fim de uma era e as sementes do conflito

Por ocasião de seu falecimento, em 1901, Vitória havia se transformado em uma verdadeira instituição viva, reconhecida internacionalmente por sua determinação. Sob seu comando, o Império Britânico passou a ocupar um quinto da extensão territorial do planeta, consolidando-se como a superpotência de seu tempo.

Embora a política de casamentos dinásticos promovida pela rainha visasse manter a estabilidade europeia a curto prazo, a estratégia acabou por entrelaçar as famílias reais de maneiras que culminaram nos conflitos do século seguinte. Em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial, os próprios netos de Vitória liderariam nações em lados opostos do combate.

Ainda que as ações expansionistas e a posterior eclosão de guerras lancem questionamentos sobre o período vitoriano, a rainha manteve-se convicta de que a soberania e o avanço da Grã-Bretanha eram inquestionáveis.

Conforme registrou em suas notas no ano de 1899: “Não estamos interessados ​​nas possibilidades de derrota; elas não existem”. Para a governante, não havia espaço para hesitações quanto ao papel que desempenharia na história ou quanto à força da estrutura imperial edificada em seu nome.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.