Batatas de 500 anos revelam segredos da dieta do Império Inca
Arqueólogos descobrem vegetais liofilizados que eram transportados por centenas de quilômetros para garantir a alimentação das populações costeiras

Arqueólogos no Peru fizeram uma descoberta rara que ajuda a compreender as redes de abastecimento do Império Inca. Em um antigo depósito na árida costa sul do país, foram encontrados fragmentos de batata liofilizada (chuño) com cerca de 500 anos. O achado, detalhado pelo Live Science, indica que os incas transportavam alimentos por centenas de quilômetros, dos Andes até a costa do Pacífico, para garantir o abastecimento de suas comunidades.
Engenharia alimentar ancestral
O chuño era um pilar fundamental para garantir a sobrevivência em um território de contrastes climáticos. O processo de criação desses vegetais envolvia uma tecnologia de conservação refinada, os tubérculos eram expostos repetidamente à geada noturna das montanhas e ao sol intenso do dia até que quase toda a umidade evaporasse.
Conforme explica o estudo publicado no Journal of Field Archaeology, o resultado era um produto leve, fácil de transportar e que podia ser armazenado por décadas sem apodrecer. Essa técnica permitia que o império mantivesse reservas estratégicas contra períodos de seca ou colheitas ruins, funcionando como uma garantia nutricional permanente para o povo.
Logística entre mundos
A localização das batatas revela um sistema de transporte surpreendente. O chuño só pode ser produzido em altitudes superiores a 3.600 metros, onde o congelamento natural é constante, mas as amostras foram encontradas no litoral, ao nível do mar. Isso prova que o Império Inca gerenciava rotas de abastecimento que percorriam centenas de quilômetros através de sua extensa rede de estradas.
Segundo o professor Lidio Valdez, da Universidade de Calgary e principal investigador do estudo, o transporte era realizado por caravanas de lhamas que conectavam os picos nevados das montanhas às populações que viviam no deserto costeiro. No sítio de Tambo Viejo, o alimento foi localizado dentro de um pote de barro enterrado, junto a fragmentos de cerâmica e ferramentas de fiação, indicando uma organização cotidiana meticulosa.

Preservação pelo deserto
A sobrevivência dessas batatas ao longo de cinco séculos deve-se às condições hiperáridas do Vale de Acarí, que impedem a decomposição natural. O trabalho de campo, realizado por Lidio Valdez e pela arqueóloga independente Katrina Bettcher, destaca que o mesmo ambiente seco já permitiu a preservação de outros restos orgânicos no local, como porquinhos-da-índia mumificados.
Para os especialistas, encontrar chuño em um centro provincial reforça a ideia de que o Estado Inca controlava rigorosamente a distribuição de recursos, enviando produtos das terras altas para sustentar seus assentamentos periféricos e garantir a lealdade de seus súditos através da segurança alimentar.
Aprendizados para o futuro
Além da relevância histórica, a descoberta propõe uma reflexão sobre a gestão moderna de recursos. Em comunicado ao Live Science, Lidio Valdez ressaltou que a humanidade ainda tem muito a aprender com as sociedades do passado sobre como evitar o desperdício.
“A segurança alimentar é uma preocupação central, mesmo em nossos tempos; no entanto, desperdiçamos comida, talvez mais do que em qualquer outro momento da história humana”, afirmou o especialista. Ao olhar para o chuño de 500 anos, a ciência não apenas reconstrói o passado do Peru, mas redescobre métodos eficientes de conservação que permitiram a um dos maiores impérios do mundo prosperar em condições ambientais severas.
*Sob supervisão de Éric Moreira