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Como o Brasil inspira torcidas apaixonadas ao redor do mundo?

Futebol da Seleção Brasileira continua mobilizando milhões de torcedores em diferentes continentes, mesmo com descrença no Brasil

Brasil Copa
Seleção brasileira durante partida do Grupo C da Copa do Mundo da FIFA 2026 - Foto: Kevin C. Cox/Getty Images

A relação entre a Seleção Brasileira e torcedores espalhados pelo mundo segue sendo um dos fenômenos mais curiosos do futebol internacional. Embora a confiança dos brasileiros na equipe nacional tenha diminuído nos últimos anos, o Brasil continua despertando uma paixão intensa em países localizados a milhares de quilômetros de distância, onde milhões de pessoas acompanham cada partida, decoram ruas com as cores verde e amarela e transformam jogos da Copa do Mundo em grandes eventos populares.

De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, esse sentimento pode ser observado em nações como Bangladesh, Índia, Paquistão, Haiti, Jamaica, República Democrática do Congo e até em Vanuatu, um pequeno arquipélago localizado no Oceano Pacífico. Em muitos desses lugares, o apoio ao Brasil divide espaço apenas com a Argentina, reproduzindo em outros continentes uma rivalidade tradicional do futebol sul-americano.

Torcedores brasileiros durante a Copa do Mundo de 1994 / Crédito: Getty Images

Admiração pelo Brasil

Segundo o jornal, pesquisadores apontam que boa parte dessa admiração foi construída graças ao legado deixado por gerações de craques brasileiros. Nomes como Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e, mais recentemente, atletas como Endrick ajudaram a consolidar a imagem do Brasil como sinônimo de criatividade e talento dentro de campo.

Em entrevista ao jornal, Danilo Ramos, pesquisador do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcida (GEFuT), ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que essa percepção continua viva entre torcedores estrangeiros. Conforme declarou à Folha, “quando se fala do futebol brasileiro, ainda tem essa magia, de que temos um jogador diferenciado, que vai tentar um drible diferente, vai tentar uma jogada mágica para salvar o time no último minuto”.

Outro fator destacado pelo pesquisador é o alcance das redes sociais e das transmissões internacionais. Como muitos dos principais jogadores brasileiros atuam ou atuaram nas principais ligas europeias, especialmente na Premier League, torcedores de diferentes países acabam criando vínculos com esses atletas e, posteriormente, passam a acompanhar também a Seleção Brasileira. Conforme explicou Ramos ao jornal, “nossos principais jogadores estão nas ligas europeias” e isso facilita a identificação do público internacional com o Brasil.

Bangladesh é um dos exemplos mais expressivos desse fenômeno. A Universidade Daffodil, localizada na capital Daca, decorou seu campus com bandeiras de diferentes seleções durante a Copa do Mundo, mas Brasil e Argentina receberam o maior destaque. A instituição também instalou telões para que estudantes, professores e funcionários acompanhassem os jogos das duas equipes.

Ainda em Bangladesh, perfis dedicados exclusivamente à Seleção Brasileira ganharam força nas redes sociais. Um deles, identificado como uma representação não oficial da Confederação Brasileira de Futebol no país, reúne dezenas de milhares de seguidores e publica diariamente imagens das comemorações dos torcedores locais.

A paixão também toma conta do estado de Kerala, no sul da Índia. Ruas inteiras recebem bandeiras brasileiras, grandes painéis com imagens de jogadores como Neymar e Vinicius Júnior, além de homenagens ao técnico Carlo Ancelotti. O grupo Brazil Fans Kerala, criado há cerca de 15 anos para reunir admiradores da Seleção, chegou inclusive a financiar a produção de uma música em homenagem ao Brasil durante a Copa de 2026.

No Paquistão, a cidade de Karachi abriga o bairro de Lyari, frequentemente chamado de “miniBrasil”. Durante as partidas da Seleção, moradores ocupam ruas, exibem bandeiras brasileiras e transformam o futebol em uma celebração comunitária, embora a Argentina também possua forte presença entre os torcedores locais.

Na República Democrática do Congo, mesmo com a seleção nacional disputando a Copa do Mundo de 2026, camisas do Brasil continuam sendo facilmente encontradas nas ruas e em bancas de vendedores ambulantes, especialmente na cidade de Lubumbashi. Para Danilo Ramos, isso também pode estar relacionado ao processo histórico de formação das identidades nacionais e ao fato de muitos jogadores africanos seguirem carreira por seleções europeias após processos de naturalização.

A identificação com o Brasil também aparece em países caribenhos. No Haiti e na Jamaica, por exemplo, a Seleção costuma ser tratada como um segundo time nacional quando as equipes locais não estão presentes na Copa do Mundo.

A Folha destaca ainda o depoimento do cantor jamaicano de reggae Blvk H3ro, concedido ao podcast Favela Made. Segundo o artista, “quando o Brasil ganha, é um dia todo de comemoração, nós nos vemos lá. Jogamos futebol todos os dias na Jamaica. [O Brasil] é o mais próximo com que nos identificamos, não vai ser com a seleção da Inglaterra”.

Até mesmo em Vanuatu, um dos menores países do Pacífico, o verde e amarelo marcou presença durante desfiles organizados para celebrar o início da Copa do Mundo, ao lado de bandeiras de outras potências do futebol internacional.

Mesmo enfrentando críticas dentro de casa e vivendo um período de reconstrução esportiva, a Seleção Brasileira segue exercendo um poder de atração raro no cenário mundial. Décadas após conquistar sua reputação como referência do futebol arte, o Brasil continua reunindo milhões de admiradores que, independentemente da distância geográfica, mantêm viva a tradição de vestir a camisa amarela e transformar cada partida em uma demonstração de paixão pelo esporte.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.