Vítor Soares / Copa do Mundo

Jules Rimet: o visionário que criou a Copa do Mundo

Presidente da FIFA por mais 30 anos, Jules Rimet idealizou o torneio quando o futebol internacional ainda dependia dos Jogos Olímpicos

Jules Rimet capa
Selo com retrato de Jules Rimet e a taça homônima - Getty Images

Hoje, a Copa do Mundo mobiliza bilhões de pessoas, paralisa países inteiros e se consolidou como o evento esportivo mais assistido do planeta. No entanto, há pouco mais de um século, a ideia de reunir as melhores seleções nacionais em uma competição própria parecia distante. A realização desse projeto deve muito à persistência de um homem: Jules Rimet, dirigente francês que dedicou grande parte de sua vida a transformar o futebol em um esporte verdadeiramente global.

Jules Rimet: o criador da Copa do Mundo

A história começou oficialmente em 28 de maio de 1928, durante o 17º Congresso da FIFA, realizado em Amsterdã. Na ocasião, os dirigentes da entidade aprovaram a criação de um campeonato mundial organizado exclusivamente pela federação, rompendo com o modelo que até então concentrava as principais disputas internacionais nos Jogos Olímpicos. A decisão abriu caminho para a realização da primeira Copa do Mundo, disputada dois anos depois, em 1930.

Rimet havia assumido a presidência da FIFA em 1921, em um período delicado para a Europa, ainda marcada pelos efeitos da Primeira Guerra Mundial. Filho de um comerciante de uma pequena vila no leste da França, ele estudou Direito em Paris, mas encontrou no esporte sua grande paixão. Em 1897, ajudou a fundar o Red Star Club, uma associação esportiva que defendia a inclusão de atletas independentemente de sua origem social, princípio que acompanharia toda a sua trajetória como dirigente.

Sua influência no futebol francês cresceu rapidamente. Em 1919, tornou-se o primeiro presidente da Federação Francesa de Futebol e participou da profissionalização do esporte no país. Dois anos depois, assumiu o comando da FIFA com um objetivo ambicioso: criar uma competição internacional capaz de reunir seleções de todos os continentes sob a organização da entidade.

Naquele momento, o futebol já fazia parte do programa olímpico e atraía cada vez mais público. Os torneios de 1924, em Paris, e de 1928, em Amsterdã, organizados pela FIFA em parceria com o Comitê Olímpico Internacional, foram considerados grandes sucessos. Mesmo assim, Rimet acreditava que o esporte precisava de um campeonato próprio, independente das limitações impostas pelo movimento olímpico.

A proposta encontrou resistência, principalmente entre as seleções europeias, que temiam os custos e as dificuldades de viagens transatlânticas. Ainda assim, a candidatura do Uruguai acabou escolhida para sediar a primeira edição do torneio. Bicampeão olímpico e disposto a custear as despesas de deslocamento das delegações participantes, o país sul-americano oferecia as melhores condições para receber a competição.

Em junho de 1930, Jules Rimet embarcou rumo ao Uruguai a bordo do navio SS Conte Verde, acompanhado por integrantes da delegação da FIFA e pelas seleções de França, Bélgica e Romênia. Durante a longa viagem pelo Atlântico, coube a ele uma responsabilidade especial: transportar o troféu que seria entregue ao campeão da primeira Copa do Mundo, uma escultura criada pelo artista francês Abel Lafleur representando Nike, a deusa grega da vitória. Décadas depois, o prêmio seria rebatizado como Troféu Jules Rimet em homenagem ao dirigente francês.

O torneio começou em 13 de julho de 1930 com a participação de 13 seleções. Na decisão, o Uruguai derrotou a Argentina por 4 a 2 diante de sua torcida e conquistou o primeiro título mundial da história. O sucesso da competição confirmou que a aposta de Rimet estava correta e lançou as bases para aquele que se tornaria o maior evento do futebol internacional.

Jules Rimet permaneceu na presidência da FIFA até 1954, tornando-se o dirigente que ocupou o cargo por mais tempo. Sua principal herança, porém, não está apenas nos registros administrativos, mas na consolidação de um torneio que ultrapassou fronteiras esportivas para se transformar em um fenômeno cultural.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.