Telescópio da ESA faz a maior e mais detalhada imagem da Via Láctea
Nova imagem feita pelo telescópio espacial Euclid, da ESA, revela 60 milhões de estrelas, no registro mais detalhado já feito do núcleo da Via Láctea

A Agência Espacial Europeia (ESA) divulgou nesta quarta-feira, 24 de junho, a maior e mais detalhada imagem em close-up já registrada do núcleo denso da Via Láctea. Capturado pelo telescópio espacial Euclid, o mosaico deslumbrante revela mais de 60 milhões de estrelas aglomeradas no bojo galáctico, marcando o início de uma nova era de descobertas de planetas fora do sistema solar da Terra.
O observatório de € 1 bilhão (mais de R$ 5,8 bilhões), lançado em 2023, foi projetado originalmente para decifrar as misteriosas forças obscuras que moldam o universo e construir o mapa 3D mais preciso do cosmos. Segundo o modelo cosmológico mais popular, apenas 5% do universo é composto de matéria comum, enquanto cerca de 70% é atribuído à energia escura, que acelera a expansão cósmica, e os outros 25% correspondem à matéria escura, substância invisível concentrada ao redor das galáxias.
Mesmo focado na cosmologia de longo alcance, o desempenho do instrumento surpreendeu os cientistas na observação do centro da nossa galáxia. Em comunicado oficial, os funcionários da agência destacaram: “Projetada para observar bilhões de galáxias distantes, a câmera de luz visível do telescópio espacial é sensível o suficiente para distinguir estrelas individuais em nosso bojo galáctico superlotado, sem ficar ofuscada”.
Os dados foram obtidos a partir de observações do espaço profundo realizadas em março de 2025. Ao longo de 26 horas cumulativas, a sonda realizou nove “apontamentos” em direção ao núcleo galáctico, em que cada ponto de vista cobriu uma área do céu maior do que a Lua cheia, repercute o Live Science.
A expectativa dos pesquisadores é que o número de mundos conhecidos ultrapasse em muito os milhares já detectados ao redor de estrelas distantes. O Dr. Eamonn Kerins, astrofísico do Centro de Astrofísica Jodrell Bank da Universidade de Manchester, disse sobre o telescópio Euclid: “Ele nunca foi construído com essa ciência em mente, mas provou ser uma instalação excelente para esse trabalho.
Esses dados dão o pontapé inicial para uma nova era de descoberta de exoplanetas, em que passamos de conhecer cerca de 6.000 exoplanetas para encontrar mais de 100.000 em toda a galáxia.”
Embora a janela de observação do Euclid tenha sido muito curta para flagrar um evento completo de microlente gravitacional — processo que exige mais de 20 dias de monitoramento contínuo para registrar a órbita de um planeta —, o registro servirá como uma cápsula do tempo cósmica.
Ele funcionará como base para missões futuras, incluindo o telescópio espacial Nancy Grace Roman da NASA, batizado em homenagem à primeira chefe de astronomia da agência (falecida em 2018). O observatório norte-americano deve ser lançado a bordo de um foguete Falcon Heavy da SpaceX a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, previsto para ocorrer não antes de 30 de agosto.
Registro astronômico histórico
A técnica de microlente gravitacional baseia-se no alinhamento de duas estrelas da perspectiva da Terra. A gravidade da estrela mais próxima curva e amplia a luz do corpo celeste localizado atrás dela, gerando um aumento temporário de brilho que pode denunciar a presença de planetas invisíveis ao redor da estrela hospedeira.
Jean-Philippe Beaulieu, que iniciou o levantamento do bojo galáctico do Euclid e co-liderou o grupo de trabalho de exoplanetas do Consórcio Euclid, explicou a importância do método em um comunicado da ESA: “Nos últimos 20 anos, quase 300 exoplanetas foram descobertos usando essa técnica, todos com telescópios terrestres e todos em direção ao centro da nossa galáxia”.
Ele completou: “Esta imagem do Euclid inclui 51 sistemas planetários conhecidos — e ajudará no estudo de muitos outros que serão descobertos”.

Além de auxiliar na busca por exoplanetas por microlente, que projeta encontrar cerca de 1.500 mundos, o telescópio Roman mapeará outros 100.000 exoplanetas pelo método de trânsito, que mede o escurecimento momentâneo da luz estelar. Os dados detalhados do Euclid ajudarão a descartar falsos positivos, como os sistemas estelares binários, onde duas estrelas orbitam entre si e geram sinais semelhantes.
A capacidade de separar as estrelas individualmente antes que ocorra a sobreposição mudará o fluxo das pesquisas. Natalia Rektsini, pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de Astrofísica de Paris que liderou a divulgação dos dados do levantamento do bojo galáctico do Euclid, detalhou em comunicado: “Em 24 horas, o Euclid já capturou as estrelas envolvidas em todos os futuros eventos de microlente gravitacional que o telescópio espacial romano detectará, mas antes que as estrelas e os planetas envolvidos se alinhassem”.
A cientista acrescentou: “Qualquer pessoa que detectar um evento de microlente gravitacional na mesma região, por exemplo, com Roman, poderá, a partir de agora, usar os dados do Euclid como referência temporal no passado e ver como as estrelas eram antes de se sobreporem. Como o Euclid consegue separar claramente as estrelas individualmente, é possível medir a velocidade com que elas se movem ao longo do tempo e usar essa informação para confirmar a existência de um planeta e determinar sua massa. Isso não seria possível com dados de um único ponto no tempo.”
O Dr. Eamonn Kerins também reiterou o impacto da nova imagem sobre a precisão dessas análises futuras: “A imagem instantânea do Euclides poderá melhorar essas medições em até três vezes, o que, para uma única imagem, é algo bastante significativo”.