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Três naufrágios bizantinos são encontrados na costa da Turquia

Arqueólogos descobriram na costa da Turquia três naufrágios bizantinos que ajudam a compreender o histórico de comércio no Mediterrâneo oriental

Carga de naufrágio descoberta na costa da Turquia / Crédito: Divulgação/Ocean Exploration Trust / Türkmenoğlu, E., & Davis, D., Heritage (2026)

A descoberta de três naufrágios bizantinos em águas profundas no sudoeste da Turquia está oferecendo novas pistas sobre as rotas comerciais do Mediterrâneo oriental ao longo de séculos. Localizados nas proximidades da antiga cidade portuária de Knidos, na península de Datça, os navios — identificados como Knidos F, Knidos L e Knidos N — estão ajudando arqueólogos a reconstruir a circulação de mercadorias e as transformações do comércio marítimo no período bizantino.

Os destroços foram examinados por pesquisadores com o auxílio de veículos operados remotamente lançados a partir do navio de exploração Nautilus. Câmeras de alta resolução e sistemas de mapeamento do fundo do mar permitiram à equipe estudar os sítios sem alterar sua disposição original. Os três naufrágios repousam entre 400 e 418 metros de profundidade e têm como principal carga ânforas, grandes recipientes de cerâmica usados no transporte de produtos como vinho, azeite e alimentos.

Detalhes das descobertas

Entre os achados, o Knidos F se destaca pelo estado de preservação. O naufrágio reúne um conjunto compacto de ânforas, muitas delas ainda intactas, sem sinais visíveis de danos provocados por pesca de arrasto moderna. A distribuição dos jarros indica que a embarcação afundou e se acomodou em posição vertical no leito marinho. Parte da carga continua coberta por sedimentos, o que abre a possibilidade de que fragmentos do casco de madeira ainda estejam preservados sob a superfície.

A carga do Knidos F é composta por um único tipo de ânfora, conhecido como Günsenin Tipo I. Esses recipientes apresentam gargalos curtos, corpo arredondado e superfície canelada, e são geralmente datados entre os séculos 10 e 12. A uniformidade da carga reforça a utilidade do naufrágio para o estudo das redes de distribuição marítima no auge do comércio bizantino.

O segundo navio, Knidos L, foi encontrado cerca de três milhas náuticas ao sul da península de Datça. No local, os arqueólogos identificaram pelo menos 116 ânforas visíveis no fundo do mar. A maior parte pertence ao mesmo grupo Günsenin Tipo I, embora algumas peças sejam de uma forma mais rara, documentada em poucos sítios bizantinos. Assim como no Knidos F, a carga aparece concentrada em uma área reduzida e há poucos indícios de perturbação recente, o que sugere que o navio chegou ao fundo praticamente inteiro.

Já o Knidos N apresenta características diferentes e aponta para um momento posterior da história bizantina. Cerca de 95 ânforas foram registradas no local, distribuídas entre dois tipos distintos de recipientes. Um deles, segundo os pesquisadores, pode não ter sido documentado anteriormente no registro arqueológico. O principal tipo encontrado no naufrágio tem corpo esférico, base plana e gargalo muito curto. A comparação com outras cerâmicas bizantinas levou os especialistas a datar esse conjunto no século 13.

Ânforas descobertas no local dos naufrágios / Crédito: Divulgação/Ocean Exploration Trust / Türkmenoğlu, E., & Davis, D., Heritage (2026)

A cronologia dos três navios permite observar mudanças importantes no comércio marítimo do Mediterrâneo. Os materiais de Knidos F e Knidos L pertencem a uma fase em que o comércio bizantino passava por expansão. No século 10, o império havia recuperado o controle de rotas marítimas estratégicas após um longo período de conflitos no Mediterrâneo oriental, o que favoreceu a intensificação das trocas entre Constantinopla, o mar Egeu, o sul da Anatólia, o Levante e o Egito.

As ânforas transportadas pelos dois navios reforçam esse quadro. O tipo Günsenin I já foi registrado em uma área extensa, que vai do Egito e do Mediterrâneo oriental até o mar Negro e o norte da Europa. Arqueólogos já documentaram essa forma de recipiente em cerca de cem sítios arqueológicos.

Muitos pesquisadores associam essas ânforas ao transporte de vinho da região de Ganos, próxima ao mar de Mármara, embora os próprios estudos indiquem um cenário mais complexo. Diferenças de formato, composição da argila e técnicas de fabricação sugerem que recipientes semelhantes foram produzidos por oficinas distintas.

Essa ampla distribuição é vista como evidência da força das redes de navegação bizantinas. Os mercadores transportavam cargas entre grandes centros e portos menores, conectando áreas distantes por meio de rotas marítimas regulares. Os naufrágios de Knidos F e L se encaixam nesse contexto e ajudam a visualizar a escala dessas conexões.

O Knidos N, por sua vez, remete a uma etapa em que a posição bizantina no comércio mediterrâneo já estava enfraquecida. No século 13, cidades marítimas como Veneza, Gênova e Pisa haviam ampliado sua influência sobre o tráfego regional, enquanto a instabilidade política e o redesenho das rotas alteravam a economia do Mediterrâneo oriental.

Ainda assim, o naufrágio mostra que a costa da Cária continuava integrada a esse sistema de circulação. O corredor marítimo onde ele foi encontrado ligava o mar Egeu, o sul da Anatólia e portos situados mais a leste, ao longo do Levante, repercute o Archaeology News.

Além de ampliar o conhecimento sobre o comércio bizantino, o estudo, publicado na revista Heritage, chama atenção para um problema crescente da arqueologia subaquática: a destruição de sítios por pesca de arrasto de fundo. Pesquisas anteriores já haviam identificado vários naufrágios antigos severamente danificados por esse tipo de atividade, que arrasta equipamentos pesados sobre o leito marinho. No caso dos três navios de Knidos, a localização próxima a terrenos submarinos íngremes parece ter reduzido esse risco e contribuído para sua preservação.

Até o momento, os arqueólogos não encontraram âncoras, objetos pessoais ou partes visíveis do casco nos três sítios. Mesmo assim, as cargas preservadas a centenas de metros de profundidade já oferecem um quadro valioso sobre a circulação de mercadorias e a continuidade das rotas marítimas no Mediterrâneo ao longo de diferentes momentos da história bizantina.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.