Roselle Adriane Soglio / Machado de Assis

187 anos de Machado de Assis: O gênio que ainda interroga o Brasil

De Brás Cubas aos linchamentos virtuais, a ironia e a análise psicológica de Machado de Assis dissecam o Brasil ainda em 2026

Machado de Assis / Crédito: Domínio Público

Em 21 de junho de 2026, Machado de Assis completaria 187 anos. A data poderia render apenas homenagem escolar, com retrato em preto e branco e frases emolduradas. Seria pouco. Machado não pertence ao museu das letras mortas. Continua sentado à mesa, discreto, observando o país com olhos de quem aprendeu cedo que a alma humana mente antes mesmo de abrir a boca.

Sua genialidade está na capacidade rara de parecer leve quando é implacável. Ele escreve com luvas de pelica e lâmina escondida. Começa com uma cena doméstica, uma conversa de sala, uma lembrança banal, e de repente o leitor percebe que entrou num tribunal. Não há gritos, não há sermão. Há uma inteligência finíssima conduzindo a prova. Machado não explica o Brasil. Ele o faz confessar.

Da tipografia à Academia

Menino do Morro do Livramento, tipógrafo, revisor, jornalista, cronista, romancista e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, Joaquim Maria Machado de Assis construiu uma das obras mais sofisticadas da língua portuguesa sem pose de gênio. Enquanto muitos buscavam a cena grandiosa, ele preferia o gesto mínimo: um olhar, uma pausa, uma palavra escolhida, um adjetivo capaz de denunciar mais do que uma confissão.

Lido em 2026, Machado parece menos um autor antigo do que um perito da vida contemporânea. O Brasil dos golpes digitais, das fraudes sentimentais, dos crimes contra mulheres, dos linchamentos virtuais e da corrupção que veste terno encontra em sua obra um espelho incômodo. Mudaram as ferramentas. O impulso permanece. A mão que hoje clona uma senha, inventa um perfil ou manipula uma imagem não está tão distante da mão que, no século 19, escrevia cartas convenientes, disfarçava interesses e fabricava versões respeitáveis para atos sórdidos.

Machado compreendeu que o criminoso raramente se apresenta como criminoso. Ele prefere a linguagem da necessidade, do amor, da honra, da prudência, da oportunidade. Em Esaú e Jacó, surge a frase seca: “A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito.” A ocasião pode abrir a porta, mas não inventa sozinha quem atravessa o batente. Num tempo em que tantos delitos são explicados como deslizes, impulsos ou descuidos da vítima, Machado recoloca o caráter no centro da cena.

Antiga fotografia de Machado de Assis / Crédito: Domínio Público

Sua literatura é atual porque enxerga crimes antes do crime. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador não precisa assaltar, matar ou falsificar documento para se revelar moralmente comprometido. Brás Cubas é perigoso porque é espirituoso, culto, sedutor e socialmente protegido. Quando escreve “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”, o amor perde o perfume e aparece no livro-caixa. Há nessa frase um país acostumado a transformar afeto em negócio, prestígio em moeda e pessoa em vantagem.

Em Dom Casmurro, Machado chega a uma de suas maiores ousadias. Bentinho não mata Capitu com uma arma. Faz algo mais duradouro: aprisiona-a numa narrativa. O romance é contado por um homem ferido, ciumento, elegante e convincente, que convida o leitor a aceitar suspeitas como se fossem provas. Capitu, dona dos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” e dos célebres “olhos de ressaca”, atravessou mais de um século sob julgamento. A pergunta sobre sua culpa se tornou famosa, mas a pergunta mais machadiana é outra: por que acreditamos tão depressa em quem narra com autoridade?

Era dos prints e a violência da versão única

Esse ponto o aproxima de nosso presente. Vivemos a era dos prints, cortes de vídeo, dossiês improvisados, boatos em corrente, acusações sem processo e absolvições por torcida. A reputação se tornou um corpo vulnerável. Pode ser atacada, exposta, mutilada. Dom Casmurro ensina que a palavra também comete violência. Uma versão bem contada pode ocupar o lugar da verdade. Um narrador carismático pode converter insegurança em sentença. Uma mulher pode ser julgada por gerações sem que sua própria voz tenha o mesmo peso do homem que a acusa.

A atualidade de Machado também passa por Quincas Borba. “Ao vencedor, as batatas!” soa como piada, mas resume uma moral brutal. O mundo divide batatas, cargos, lucros, aplausos, heranças, territórios, seguidores. Vence quem chega antes, quem empurra melhor, quem aprende a chamar esperteza de mérito. Em 2026, a frase continua viva nos discursos que naturalizam desigualdades, celebram vencedores sem perguntar quem pagou o preço e tratam os vencidos como estatística.

Nos contos, essa percepção ganha contornos sombrios. Em A causa secreta, Fortunato é a perversidade com modos educados. O horror não está apenas na crueldade, mas no prazer de contemplar o sofrimento. É impossível não pensar no espetáculo contemporâneo do crime: câmeras, comentários, curiosidade mórbida, tragédias consumidas como entretenimento. Machado entendeu que existe uma distância curta entre compaixão e voyeurismo quando a dor alheia vira cena.

Humor como lanterna no abismo humano

Reduzi-lo a um escritor sombrio seria injusto. Machado é grande porque conhece a miséria humana e, mesmo assim, escreve com graça. Seu humor não suaviza o abismo. Ilumina-o. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, quando afirma “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”, Brás encerra sua vida como quem fecha uma conta. A frase é cruel, elegante e inesquecível. Só um gênio consegue transformar desencanto em música.

Outra lição decisiva aparece quando Brás adverte: “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho.” A frase serve para fanáticos de todas as épocas. Serve para a política transformada em seita, para a internet convertida em tribunal, para o ódio fantasiado de justiça, para a certeza que dispensa investigação. A ideia fixa é perigosa porque torna o mundo pequeno. Depois torna o outro descartável.

Machado nos humaniza ao contrário. Não oferece a imagem confortável do que gostaríamos de ser. Mostra o que somos quando ninguém nos vigia, quando temos poder sobre alguém, quando podemos lucrar sem sermos descobertos, quando a versão nos favorece, quando a culpa cabe melhor no outro. Sua genialidade está em perceber que a civilização não elimina a barbárie; apenas ensina a barbárie a falar baixo, vestir-se bem e pedir licença.

Obra eterna e atual

Aos 187 anos, Machado de Assis não precisa de pedestal. Precisa de leitores atentos. Sua obra continua necessária porque investiga a origem íntima dos crimes públicos e privados: a vaidade, o ressentimento, a cobiça, o ciúme, o prazer de dominar, a vontade de parecer inocente. Todo delito começa antes do boletim de ocorrência, no instante em que alguém deixa de ver o outro como pessoa e passa a vê-lo como obstáculo, presa, número, troféu ou álibi.

Abrir Machado em 2026 é perceber que o século 19 não terminou por completo. Ele trocou a carruagem pelo aplicativo, a carta pelo print, o mexerico pela viralização, o salão pelo feed. Ele continua ali, discreto e certeiro, lembrando que a literatura, quando alcança a genialidade, não envelhece. Ela acende a luz no quarto onde escondemos nossas melhores desculpas.

Roselle Adriane Soglio. Professora de Direito, Doutora em História da Ciência. Vice- Presidente da ABCCRIM