Vítor Soares / Curiosidades

Aghoris: os hindus que adoram Shiva e praticam canibalismo ritual na Índia

Conhecidos por rituais controversos, os aghoris vivem à margem da sociedade na Índia e buscam transcendência espiritual através da superação da repulsa e do medo

Fotografia de um aghori, na Índia / Crédito: Licença Creative Commons/Shamil Sayyid

Entre os muitos grupos religiosos que compõem o vasto universo do hinduísmo, poucos despertam tanta curiosidade quanto os aghoris. Conhecidos por práticas consideradas extremas até mesmo por outros hindus, esses ascetas vivem à margem da sociedade, realizam seus rituais em crematórios a céu aberto e seguem uma filosofia que busca romper completamente com as noções convencionais de pureza e impureza.

Frequentemente retratados como figuras misteriosas, os aghoris costumam emergir de seu isolamento durante os Kumbh Mela, os grandes festivais religiosos do hinduísmo realizados em quatro locais diferentes da Índia. Fora desses eventos, muitos vivem em relativa reclusão, dedicando-se a práticas espirituais que desafiam tabus profundamente enraizados na cultura indiana.

O próprio nome do grupo revela parte de sua visão de mundo. Em sânscrito, aghori significa “não aterrorizante”. Ainda assim, seus rituais e costumes frequentemente provocam reações de espanto e temor entre observadores externos.

Filosofia da transcendência

Segundo James Mallinson, especialista em Sânscrito e Estudos Indianos Clássicos da Escola de Estudos Africanos e Orientais (SOAS), em Londres, a lógica central das práticas aghoris está ligada à superação das fronteiras estabelecidas pela sociedade. “O princípio subjacente de sua prática é transcender as leis de pureza, a fim de alcançar a iluminação espiritual e ser um com Deus”, diz.

Mallinson, que também atua como guru ordenado de outra tradição ascética hindu, explica que sua própria ordem segue regras de pureza que proíbem as práticas aghoris. Ainda assim, ele manteve diversos contatos com integrantes desse grupo ao longo dos anos.

“A abordagem aghori é assumir os tabus óbvios e quebrá-los. Eles rejeitam as noções normais de bom e ruim”, diz Mallison. Para os aghoris, a evolução espiritual passa justamente pela confrontação de tudo aquilo que a maioria das pessoas evita ou considera impuro.

“Seu caminho para o progresso espiritual envolve práticas loucas e perigosas, como comer carne humana e até mesmo suas próprias fezes. Mas eles acreditam que fazendo essas coisas que os outros evitam, alcançam um estado aprimorado de consciência.”

Aghori em Varanasi, na Índia / Crédito: Getty Images

Origens históricas e herança dos kapalikas

Embora sejam frequentemente associados a tradições muito antigas, os estudiosos apontam que a denominação aghori começou a se popularizar apenas a partir do século 18. Ainda assim, o grupo incorporou elementos de práticas muito anteriores.

Uma de suas principais influências foram os kapalikas, conhecidos como “portadores de caveiras”, uma seita documentada desde o século 7. Os kapalikas ficaram famosos por seus rituais envolvendo crânios humanos e chegaram a praticar sacrifícios humanos. Apesar disso, o grupo desapareceu ao longo do tempo.

Diferentemente de outras ordens hindus mais estruturadas, os aghoris não possuem uma organização centralizada. A maior parte de seus integrantes vive isolada, sem contato regular nem mesmo com os próprios familiares. Muitos pertencem às castas mais baixas da sociedade indiana.

Mallinson destaca que existe grande diversidade entre os membros do grupo. “Pode-se encontrar uma grande variedade em termos de realização intelectual. Poucos deles são realmente espertos, mas um aghori foi até conselheiro do rei do Nepal“, diz o especialista.

Aceitação absoluta e culto a Shiva

Apesar da fama associada aos rituais extremos, alguns estudiosos e observadores defendem que os aghoris costumam ser mal compreendidos pelo público. Para Manoj Thakkar, autor do livro ‘Aghori: um romance biográfico’, a filosofia do grupo está ligada a uma visão de aceitação total da existência. “Aghoris são pessoas muito simples que vivem com a natureza. Eles não fazem exigências.”

Segundo ele, os aghoris enxergam toda a realidade como expressão de uma única força divina. “Eles veem tudo como uma manifestação de um ser supremo. Eles não rejeitam nem odeiam ninguém ou algo. É por isso que não fazem distinção entre a carne de um animal abatido e a carne humana. Eles comem o que recebem.”

O culto também inclui práticas envolvendo sacrifícios de animais, além do uso ritual de maconha. “Eles fumam maconha e ainda tentam ser autoconscientes, mesmo no estado alterado.”

Embora sejam frequentemente retratados como numerosos, tanto Mallinson quanto Thakkar afirmam que o número de aghoris genuínos é bastante reduzido. Muitos indivíduos que aparecem em festivais religiosos afirmando pertencer à tradição, segundo eles, não passaram pelos processos formais de iniciação. Alguns, inclusive, utilizariam a imagem associada aos aghoris para atrair turistas e obter dinheiro.

Visitantes costumam oferecer alimentos, doações e presentes aos homens considerados santos. No entanto, Thakkar sustenta que os aghoris autênticos demonstram pouco interesse por ganhos materiais. “Eles rezam pelo bem-estar de todos, não ligam para pessoas que queiram sua bênção para um filho ou para construir uma casa.”

A devoção religiosa dos aghoris concentra-se principalmente em Shiva, uma das divindades centrais do hinduísmo, frequentemente associada à destruição e transformação, e em sua companheira Shakthi. No norte da Índia, apenas homens são aceitos na tradição. Já na região de Bengala, existem mulheres aghoris que também vivem em áreas de cremação. A principal diferença é que elas utilizam roupas.

Fotografias de um aghori / Crédito: Getty Images

Crematório e enfrentamento da morte

Os crematórios ocupam papel central na vida espiritual do grupo. Para os aghoris, esses espaços representam uma oportunidade de confrontar diretamente aquilo que mais assusta a maioria das pessoas: a morte.

“A maioria das pessoas tem medo da morte e os crematórios simbolizam a morte. Esse é o ponto de partida para um aghori: eles querem desafiar a moral e os valores do homem comum”, explica Thakkar.

Nas últimas décadas, porém, a tradição passou a incorporar atividades que contrastam com a imagem exclusivamente associada aos rituais extremos. Um dos exemplos mais notáveis é o envolvimento de aghoris em projetos de assistência médica voltados para pessoas com hanseníase.

Ron Barrett, antropologista médico e cultural de Minnesota, nos Estados Unidos, destaca o papel desempenhado por integrantes da tradição no atendimento a pacientes frequentemente marginalizados. “Os aghoris estão trabalhando com aquelas consideradas as pessoas mais intocáveis da humanidade”, diz Barrett.

Segundo ele, o trabalho social realizado pelos aghoris representa uma espécie de continuidade de sua filosofia de enfrentamento dos tabus sociais. “De certo modo, as clínicas de tratamento da hanseníase tomaram o lugar dos crematórios, mas em vez do medo da morte, os aghori estão confrontando o medo de uma doença”, declarou em entrevista ao Emory Report, da Emory University.

Um dos principais exemplos desse trabalho encontra-se em Varanasi, cidade considerada sagrada pelos hindus. Ali, pacientes com hanseníase, muitos deles abandonados por suas famílias, recebem abrigo e tratamento em uma instituição administrada pelos aghoris. Os métodos empregados combinam diferentes abordagens terapêuticas, incluindo medicina ayurvédica, banhos rituais e tratamentos da medicina ocidental. “Os remédios e bênçãos estão misturados.”

Limites do ascetismo e rituais finais

Embora representem apenas uma pequena parcela dos mais de um bilhão de seguidores do hinduísmo, os aghoris continuam ocupando um lugar singular dentro da tradição religiosa indiana.

Sua filosofia desafia conceitos amplamente aceitos sobre pureza, morte e moralidade, enquanto suas práticas permanecem cercadas por controvérsia, fascínio e incompreensão. Ainda assim, mesmo entre aqueles que adotam comportamentos considerados extremos, certos limites permanecem, repercute a BBC.

Alguns aghoris admitiram publicamente a prática de relações sexuais com cadáveres em contextos rituais. Contudo, de acordo com Mallinson, existem tabus que continuam sendo respeitados dentro do grupo. “Eles fazem sexo ritualístico com prostitutas. Mas eles não aprovam o sexo gay”, diz Mallinson.

Quando chega o momento da morte, os aghoris também seguem procedimentos semelhantes aos do restante da população hindu. Apesar das histórias frequentemente associadas ao canibalismo ritual, seus corpos não são consumidos pelos companheiros de fé. Como acontece com a maioria das pessoas, eles são enterrados ou cremados após a morte.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.