Grandes símios pensam de formas diferentes uns dos outros, segundo estudo
Como os humanos, os grandes símios apresentam diferenças entre si quando o tema são habilidades cognitivas

Uma pesquisa descobriu que os grandes símios, assim como os seres humanos, apresentam diferenças individuais marcantes em suas habilidades cognitivas. O estudo, publicado em 15 de abril na revista Psychological Science, sugere que fatores como personalidade, experiências de vida e ambiente social influenciam a forma como esses primatas aprendem, resolvem problemas e interagem com o mundo ao seu redor.
A pesquisa teve como base um trabalho anterior, publicado em 2023 pela equipe do psicólogo do desenvolvimento Manuel Bohn, da Universidade Leuphana de Lüneburg, na Alemanha. Naquele estudo, os cientistas investigaram como as capacidades cognitivas variavam entre grandes símios ao longo do tempo. Conforme informações da revista Galileu, os resultados desafiaram uma ideia amplamente difundida de que apenas os seres humanos apresentariam padrões complexos de desenvolvimento cognitivo individual.
“Há muitas experiências que contribuem para a natureza precisa de como a cognição [de um indivíduo] é estruturada e organizada”, afirmou Bohn em comunicado. “Nós realmente temos esses tipos de perspectivas de desenvolvimento e individuais diferentes em humanos. Pensávamos que isso estava claramente ausente nos grandes símios.”
A nova pesquisa mostrou justamente o contrário. Os cientistas verificaram que características como o grupo social ao qual o animal pertence, sua experiência prévia em estudos científicos, o sexo e o modo como foi criado são fatores importantes para prever seu desempenho cognitivo.
Analisando comportamentos
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores acompanharam 48 grandes símios de quatro espécies — bonobos, chimpanzés, gorilas e orangotangos — com diferentes idades e perfis. Durante um ano e meio, os animais participaram de seis testes cognitivos que avaliavam capacidades como acompanhar a atenção de um ser humano, interpretar sinais de comunicação e lembrar a localização de alimentos. As tarefas foram elaboradas com base em métodos já utilizados para estudar cognição social, raciocínio e funções executivas nesses primatas.
O interesse científico pelos grandes símios remonta a várias décadas. Como são os parentes vivos mais próximos dos seres humanos, eles oferecem pistas importantes sobre a evolução de habilidades consideradas tipicamente humanas. Quando uma determinada capacidade, como o uso de gestos para comunicação, é encontrada apenas em espécies próximas à nossa, os pesquisadores entendem que ela provavelmente surgiu em fases mais recentes da história evolutiva.
Os resultados mostraram que as diferenças individuais observadas nos animais permaneceram relativamente estáveis ao longo do tempo na maior parte das tarefas. Segundo Bohn, esse padrão se assemelha ao que é observado em seres humanos, nos quais determinadas características cognitivas tendem a permanecer consistentes ao longo da vida.
“Essa também costuma ser a forma como pensamos sobre as diferenças individuais em humanos, se elas são características estáveis ou alguma propriedade do indivíduo. E encontramos evidências bastante sólidas de que esse também é o caso aqui nos grandes símios”, explicou o pesquisador.
Um detalhe importante
Mas um outro resultado chamou a atenção da equipe. Nas tarefas relacionadas a habilidades sociais, como seguir o olhar ou a atenção de uma pessoa, um bom desempenho em uma atividade não necessariamente significava um bom resultado em outra semelhante. Já nos testes de raciocínio e habilidades não sociais, os desempenhos apresentaram correlações mais fortes.
Esse padrão difere da estrutura cognitiva tradicionalmente observada em humanos. “Não encontramos esses agrupamentos que esperaríamos encontrar de uma perspectiva humana, o que eu acho realmente interessante e instigante”, afirmou Bohn. Para ele, os resultados reforçam a importância de pesquisas de longo prazo e do aperfeiçoamento dos métodos utilizados para medir suas capacidades cognitivas.
No fim, a comparação desses padrões com o desenvolvimento humano pode ajudar a ciência a identificar quais fatores moldam a inteligência dos grandes símios e em quais aspectos ela segue caminhos diferentes dos nossos.