Dodecaneso: o outro sonho inacabado de Mussolini
Arquipélago estratégico no Mar Egeu foi transformado por Benito Mussolini em símbolo das ambições italianas no Mediterrâneo

Entre os muitos projetos expansionistas alimentados por Benito Mussolini durante a primeira metade do século XX, poucos simbolizam tão bem suas ambições frustradas quanto o Dodecaneso. Hoje pertencente à Grécia, esse arquipélago de doze ilhas localizado no Mar Egeu desempenhou um papel estratégico durante a Segunda Guerra Mundial e foi visto pelo regime fascista italiano como uma plataforma para expandir sua influência cultural e política no Mediterrâneo oriental.
A principal ilha do arquipélago é Rodes, cuja posição geográfica, próxima à costa sudoeste da Ásia Menor e voltada para a atual Turquia, despertava grande interesse estratégico. A Itália assumiu o controle da região em 1912, quando tomou as ilhas do Império Otomano. A partir desse momento, o governo italiano passou a enxergar o Dodecaneso como muito mais do que uma conquista territorial.
Planos de Mussolini
O rei Vittorio Emanuele rebatizou o arquipélago como Isole Italiane dell’Egeo e visitou a região em diversas ocasiões. Enquanto isso, Mussolini alimentava um projeto ainda mais ambicioso: transformar aquelas ilhas em um centro irradiador da cultura italiana para o Levante oriental. Seu objetivo era “italianizar” uma população de aproximadamente 130 mil habitantes e consolidar uma presença permanente da Itália em uma área considerada estratégica para seus interesses.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o arquipélago passou a desempenhar para a Itália uma função semelhante à exercida por Malta para os britânicos. O controle da região representava uma vantagem militar importante em uma das áreas mais disputadas do Mediterrâneo.
Entretanto, o destino do Dodecaneso mudaria drasticamente em 1943. Naquele ano, Mussolini foi deposto e o governo italiano abandonou o Eixo para se alinhar aos Aliados. A mudança provocou uma rápida reação alemã. Após os combates de Leros, a tomada de Samos e a Batalha de Cos, as forças da Wehrmacht, sob o comando do general Ulrich Kleemann, derrotaram os antigos aliados italianos e assumiram o controle do arquipélago.
A decisão de Adolf Hitler foi imediata. Temendo que os Aliados transformassem as ilhas em uma nova fortaleza no Mediterrâneo, semelhante à estratégica Malta — que os alemães jamais conseguiram conquistar —, ordenou a ocupação total da região. Os cerca de 40 mil militares italianos que ainda permaneciam nas ilhas foram expulsos.
Extermínio
A ocupação alemã teve consequências devastadoras para a comunidade judaica local. Segundo registros citados pelo Rhodes Jewish Museum, aproximadamente 6 mil judeus ladinos viviam no arquipélago. Desses, cerca de 2 mil foram detidos pelas forças comandadas por Ulrich Kleemann e enviados para a Europa continental.
O resultado foi trágico. Apenas 160 sobreviveram aos campos de concentração e extermínio nazistas. Ao término da guerra, os sobreviventes somavam ainda os cerca de 1.200 judeus que conseguiram escapar para a costa da Turquia, país que permaneceu neutro durante o conflito.
Os judeus ladinos eram descendentes dos sefarditas expulsos da Espanha pelos Reis Católicos em 1492, o mesmo ano da chegada dos europeus à América. Mantinham viva a língua ladina, também conhecida como judeu-espanhol, derivada do castelhano medieval, preservando uma herança cultural que atravessou séculos e fronteiras.
Com o fim da guerra, o sonho italiano de manter uma presença permanente no Dodecaneso chegou definitivamente ao fim. A Itália perdeu não apenas essas ilhas, mas também os demais territórios conquistados e suas antigas colônias. A Alemanha, derrotada no conflito, igualmente viu desaparecer qualquer influência sobre a região.
A rendição alemã no arquipélago ocorreu em 1945, na ilha de Symi. Em seguida, o Reino Unido transformou o Dodecaneso em um protetorado temporário. Dois anos depois, o Tratado de Paz ítalo-grego, assinado em Paris, encerrou definitivamente a questão territorial. Em 1947, as ilhas retornaram à Grécia, seu antigo e legítimo proprietário.
Assim terminava mais um dos projetos grandiosos de Mussolini: um sonho imperial que jamais resistiu à realidade imposta pela guerra.
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