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O Bruxo que decifrou a alma: o legado de Machado de Assis nos seus 187 anos

Nos 187 anos de Machado de Assis, o psiquiatra Daniel Martins de Barros analisa como a obra do autor antecipou dilemas da mente e do sistema jurídico

Machado de Assis em imagem colorizada
Machado de Assis - Foto: Projeto Machado de Assis Real

Neste domingo, dia 21 de junho de 2026, se estivesse vivo, Joaquim Maria Machado de Assis completaria 187 anos. O neto de escravizados que nasceu no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, e conviveu com a epilepsia e a gagueira, não apenas se tornou o maior nome das letras brasileiras, como também consolidou-se como um observador clínico da nossa essência

Quase dois séculos depois, sua escrita impecável e irônica continua a ser um espelho em que enxergamos as fendas da natureza humana e as contradições do poder.

Para marcar este aniversário, o médico psiquiatra Daniel Martins de Barros, professor da Faculdade de Medicina da USP e bacharel em Filosofia, lança uma versão ampliada de seu livro “Machado de Assis: a loucura e as leis”, pela Matrix Editora. Na obra, Barros mergulha em 12 textos machadianos para mostrar que o autor antecipou debates que, ainda hoje, ocupam tribunais, consultórios e universidades.

O psiquiatra Daniel Martins de Barros e seu livro “Machado de Assis: a loucura e as leis” – Foto: Divulgação

O pioneirismo clínico de um olhar irônico

Um dos exemplos mais contundentes desse pioneirismo está no conto “O anjo Rafael”, publicado em 1869. Nele, Machado descreveu com precisão o que a medicina só formalizaria oito anos depois: a psicose compartilhada, ou folie à deux, em que o delírio de uma pessoa é transmitido a outra

Indagado se Machado possuía um dom de prever doenças, Daniel Martins de Barros prefere acreditar na força da arte:

Como todo bom artista, o escritor olha para a realidade e a retrata por algum ângulo específico. Isso nos ajuda a ver de uma nova forma, com novos enfoques. Machado nem sabia que tinha descrito uma doença, ele só contou uma história. Depois que os médicos nomearam aquele quadro é que, retrospectivamente, podemos dizer que ele se antecipou à ciência. Então não é uma questão de previsão de um ou arrogância de outro, mas saberes complementares”, disse em entrevista exclusiva ao Aventuras na História.

Essa sensibilidade permitiu ao autor explorar a loucura tanto como uma patologia quanto como uma ferramenta de investigação social. Em contos como “O alienista”, onde o personagem Simão Bacamarte, um médico convicto de sua ciência, decide internar quase toda uma cidade em um asilo, Machado critica o autoritarismo. 

Segundo Barros, os critérios de Bacamarte já eram absurdos na época e hoje colidiriam frontalmente com avanços como o Estatuto da Pessoa com Deficiência.Machado usa uma caricatura de poder para fazer uma crítica política, no fundo”, analisa Barros. “Claro que avançamos ainda mais no direito dos pacientes, e hoje a internação psiquiátrica ainda existe e pode ser indicada, mas apenas em momentos muito específicos e sempre pelo menor tempo possível”.

Sadismo e moralidade

A análise de Barros também perpassa o julgamento moral, tema de sua tese de doutorado na USP. Ao observar personagens como Fortunato, do conto “A causa secreta”, um homem que sente um prazer silencioso no sofrimento alheio, ou Brás Cubas, o defunto que narra sua própria vida com desprezo pelas convenções, o psiquiatra evita o rótulo fácil do diagnóstico médico.

“A psiquiatria lida com indivíduos, e não com a sociedade como um todo”, pondera o autor. “Ou seja, é possível tentarmos compreender as pessoas, uma de cada vez, mas os conjuntos, como elite ou sociedade, transcendem o saber médico. Ao falar de Fortunato, sua frieza e crueldade, penso da forma como Machado retrata aquele ser humano, no máximo sendo possível refletir sobre outras pessoas com o mesmo perfil”.

Para Barros, o risco de transformar a literatura em um prontuário médico deve ser evitado a todo custo. Em tempos de diagnósticos apressados em redes sociais, ele reforça que a ficção serve para entendermos a nós mesmos. “Como enfatizo na introdução do livro, a ideia nunca pode ser reduzir a leitura à Psiquiatria. Ao contrário, o olhar médico-legal para a obra do Machado é uma forma de ampliar o alcance de suas reflexões, abrir, não fechar. A loucura na obra é uma estratégia muito menos diagnóstica e muito mais ferramenta de investigação”.

O legado de um homem à frente do tempo

Nesta nova edição, Barros incluiu textos inéditos que revelam uma face ainda mais sutil do autor. Em uma crônica sobre uma fuga de um hospício, Machado reflete sobre a loucura silenciosa, aquela que se manifesta de formas quase imperceptíveis no cotidiano. “Ele repercute aqui o conceito de monomania, que foi muito importante na época como uma tentativa de encontrar explicações para crimes. É uma discussão importante até hoje: como diferenciar criminosos com ou sem transtornos mentais”, observa o médico.

Machado de Assis, além de um escritor de elite, foi um homem negro que ascendeu socialmente em uma sociedade escravocrata e profundamente racista. Sua maestria em usar a ironia para contar histórias, dissecar a alma brasileira e desmascarar a hipocrisia das elites burguesas do século 19 é o que mantém sua obra viva e pulsante. 

Ao celebrarmos seus 187 anos, o estudo de Daniel Martins de Barros nos lembra que a literatura clássica não é algo estático em uma prateleira, já que é um organismo vivo que nos ensina como a mente funciona e como a sociedade se organiza em torno de leis, afetos e preconceitos. Como resume Barros, “o interesse deste livro é identificar em seus escritos pontos de convergência entre esses dois saberes, literatura e medicina, descobrindo como o talento literário do autor articulou essa interface”.

Machado de Assis permanece sendo o nosso maior “milagre” literário, um bruxo que, do Cosme Velho, ainda nos ensina o que significa ser humano.


*Sob supervisão de Éric Moreira

Meu propósito é dar voz a narrativas.