DNA revela como sociedade emergiu da queda do Império Romano
Estudo analisou DNA de 314 indivíduos e mostrou como migração, laços familiares e integração moldaram comunidades pós-romanas

A queda do Império Romano não transformou a Europa Ocidental de forma imediata. Em vez de uma ruptura repentina, as mudanças ocorreram gradualmente ao longo de gerações, à medida que populações locais se adaptavam, novos grupos chegavam e diferentes estruturas políticas começavam a surgir.
Um estudo publicado na revista científica Science e repercutido pela revista Archaelogy, investigou esse processo na Pequena Planície Húngara, região localizada no noroeste da atual Hungria e que, durante a Antiguidade, ficava na fronteira do Império Romano.
Para reconstruir essa história, uma equipe internacional analisou o DNA de 314 pessoas enterradas entre os séculos III e VI d.C. Os pesquisadores estudaram restos humanos encontrados em sete cemitérios e combinaram os dados genéticos com evidências arqueológicas e análises isotópicas.
O resultado da análise de DNA foi um retrato detalhado das populações que viveram na região durante a transição entre o período romano e o pós-romano.
DNA marcado pela diversidade
Segundo os pesquisadores, a população da era romana apresentava uma composição bastante diversa.
A maioria dos indivíduos analisados possuía ancestralidade ligada ao sul da Europa, mas o estudo também identificou conexões genéticas com populações da Ásia e da África.
Os cientistas afirmam que esse cenário é compatível com o papel desempenhado pela região durante o domínio romano. Como área de fronteira, a Pequena Planície Húngara estava conectada ao restante do império por rotas comerciais, movimentações populacionais e serviço militar.
Essa circulação de pessoas ajudou a formar uma população heterogênea muito antes do fim do domínio romano na região.
Mudanças após o fim do controle romano
O estudo mostrou que a composição genética da população começou a mudar após a perda do controle romano sobre a área.
Os enterros datados do período pós-romano apresentaram um aumento significativo de ancestralidade associada ao norte da Europa. Os resultados coincidem com relatos históricos que descrevem a chegada dos lombardos durante o século 6.
No entanto, os pesquisadores destacam que não houve uma única onda migratória responsável por essa transformação.
As evidências do DNA apontam para um processo contínuo, no qual famílias e indivíduos chegaram à região ao longo do tempo, estabeleceram-se ali e passaram a conviver com populações que já habitavam o território havia gerações.
Os resultados contestam a ideia de que uma população simplesmente substituiu outra.
De acordo com os cientistas, as comunidades locais continuaram presentes e participaram ativamente da formação das novas sociedades que surgiram após a queda do Império Romano.
Os recém-chegados e os habitantes já estabelecidos passaram a formar comunidades em conjunto, criando populações com ancestralidade mista.
Essa integração também aparece na análise dos cemitérios estudados. Embora os costumes funerários e os objetos depositados nas sepulturas apresentassem características semelhantes entre diferentes locais, os arqueólogos identificaram formas variadas de organização social.
Alguns cemitérios mostravam grupos de parentes próximos enterrados lado a lado, enquanto outros apresentavam vínculos familiares menos evidentes.
O surgimento de uma nova sociedade
Os pesquisadores também encontraram indícios de uma sociedade estruturada em diferentes níveis sociais.
Certos grupos familiares parecem ter ocupado posições de influência e autoridade, mantendo conexões que ultrapassavam os limites de uma única comunidade.
Segundo o estudo, essas redes familiares podem ter desempenhado um papel importante na manutenção das estruturas políticas que surgiram na região após o fim do domínio romano.
Para os historiadores, descobertas desse tipo ajudam a preencher lacunas deixadas pela escassez de registros escritos da época.
A análise genética, combinada às evidências arqueológicas, revela uma realidade marcada por migrações, alianças familiares, relações de poder e cooperação entre pessoas de diferentes origens. A partir desses processos, novas comunidades foram formadas e uma nova sociedade pós-romana começou a se consolidar na região.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes