Descoberta revela pinturas rupestres inéditas na Amazônia
O achado em terras Baniwa e Koripako integra pesquisa intercultural que une ciência e saberes tradicionais para mapear a Amazônia

Arqueólogos e pesquisadores indígenas identificaram as primeiras pinturas rupestres documentadas pela arqueologia ocidental no noroeste da Amazônia. O achado ocorreu na Terra Indígena Alto Rio Negro, em locais sagrados para os povos Baniwa e Koripako.
O trabalho faz parte do projeto Vozes da Amazônia Indígena, coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, que concluiu seu primeiro ano de atividades com a colaboração de mais de 20 instituições e comunidades locais.
Ancestralidade em cores minerais
As pinturas, localizadas em abrigos sob rocha na bacia do rio Içana, apresentam pigmentos nas cores vermelha e amarela derivados de óxidos de ferro como a hematita. Segundo o arqueólogo Raoni Maranhão Valle, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará, os grafismos são abstrato-geométricos e seguem as saliências naturais da rocha.
Embora a datação absoluta dependa de análises, a equipe trabalha com a hipótese de que as intervenções tenham ocorrido entre 8 mil e 4 mil anos atrás. Conforme dados oficiais do Museu Goeldi, o registro é inédito para esta porção da Amazônia, onde o padrão mais comum era a presença de gravuras em rochas baixas.
Diálogo e governança indígena na Amazônia
A pesquisa destaca-se pela metodologia intercultural, na qual os pesquisadores indígenas atuam na condução dos trabalhos. Para a arqueóloga Helena Lima, pesquisadora do Museu Goeldi e coordenadora do projeto, o objetivo é construir o conhecimento de forma relevante para as comunidades.
O professor de origem Baniwa, Sidney Garcia, relatou que o contato presencial com as pinturas constitui um fato novo para os habitantes atuais, embora os locais integrem a memória oral dos antepassados. Devido ao valor espiritual e científico, os indígenas decidiram restringir o acesso aos sítios apenas à equipe autorizada.
Tecnologia e preservação territorial
O projeto utiliza ferramentas avançadas como o sistema Lidar para realizar levantamentos topográficos de alta precisão através da cobertura florestal. Além da arqueologia, o linguista Artur Garcia Gonçalves, doutor pela Universidade de Brasília, ressalta que o diálogo simétrico define quais saberes podem ser compartilhados.
A iniciativa prevê ainda a produção de materiais didáticos e dicionários temáticos em línguas originárias. Os resultados finais, que abrangem também territórios no Pará e Mato Grosso, serão assinados conjuntamente por cientistas e lideranças tradicionais para fortalecer a proteção desses espaços ancestrais.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes