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O raro tesouro que revela a grande riqueza da Roma Antiga

Tesouro que reúne mais de 60 objetos antigos feitos de prata trabalhada foi encontrado no ano de 1793, em Roma

O Tesouro de Esquiline é uma grande descoberta com mais de sessenta peças; à direita, o Caixão da Musa Roma - Crédito: British Museum

O Tesouro do Esquilino é uma das mais importantes descobertas arqueológicas da Antiguidade tardia. Encontrado em 1793 na Colina Esquilina, em Roma, o conjunto reúne mais de 60 objetos e cerca de 30 quilos de prata trabalhada. Entre as peças mais famosas estão o Caixão Projecta, o Caixão das Musas e quatro estatuetas que representam grandes cidades do mundo romano.

O chamado Caixão das Musas é uma das peças mais sofisticadas do conjunto. Esse artefato de 25,4 x 33,2 cm suspenso por três correntes presas a um grande anel guardava cinco pequenos frascos destinados a perfumes e unguentos, encaixados em uma placa horizontal de bronze. Enquanto isso, sua tampa abobadada era ligada ao corpo por uma dobradiça e fechada por um sistema de fecho e grampos. Arqueólogos que estudaram o tesouro dizem que representações semelhantes já foram encontradas em mosaicos e pinturas murais romanas presentes em antigos banhos públicos e privados.

Detalhes que impressionam

De acordo com o portal The Byzantine Legacy, o corpo e a tampa desse impressionante objeto foram divididos em dezesseis painéis alternando superfícies planas e côncavas. Os painéis planos exibem vasos, pássaros e motivos de videiras. Já os demais apresentam figuras femininas sob arcadas ornamentadas. No topo da tampa há um medalhão contendo uma mulher sentada em meio a uma paisagem.

Conforme apontam os arqueólogos, oito das figuras femininas podem ser identificadas como musas da tradição clássica. Entre elas estão Urânia, ligada à astronomia e representada com um globo; Melpômene, musa da tragédia, que leva consigo uma máscara teatral; Clio, associada à História; Polímnia, relacionada à mímica; Terpsícore, musa da dança; Euterpe, ligada à música; Tália, protetora da comédia; e, por fim, Calíope, musa da poesia épica.

O Caixão Projecta – Crédito: British Museum

A nona figura, porém, segue sob debate. Diferentemente das demais, ela aparece sentada em um ambiente campestre e não possui os atributos típicos das musas. Apesar de possuírem suas diferenças, todas as figuras compartilham características semelhantes de postura, expressão facial e tratamento das vestes, o que indica que todas foram produzidas dentro de uma mesma tradição artística.

O Caixão Projecta

Apesar da imponência da primeira peça, o artefato mais conhecido do tesouro é o Caixão Projecta, cuja estrutura tem a forma de uma pirâmide retangular truncada, com tampa articulada por três dobradiças. Com 30 x 55 x 43 cm, o objeto possuía alças laterais para transporte e era sustentado por quatro pés, dos quais três sobreviveram ao tempo.

Seu nome, destaca a fonte, deriva de uma inscrição em latim gravada na borda frontal da tampa: “Secunde et Projecta vivatis in Christo” (“Secundus e Projecta, vivam em Cristo”). A frase sugere que o objeto foi produzido para um casal chamado Secundus e Projecta, provavelmente membros da aristocracia romana cristã do século 4.

Na tampa aparecem retratos do casal cercados por uma coroa de flores sustentada por erotes, figuras aladas inspiradas na tradição clássica. Acima deles encontra-se uma representação da toilette de Vênus. Embora a cena tenha origem na mitologia pagã, os estudiosos acreditam que ela funcionava como uma comparação elogiosa entre a deusa e Projecta.

Artefatos que representam a cidade de Tychai – Crédito: British Museum

No corpo do caixão, outra cena retrata uma matrona romana realizando sua preparação pessoal, acompanhada por criadas e servas. Já a parte traseira mostra uma procissão feminina dirigindo-se a um complexo de banhos luxuoso.

Os dois caixões, é importante dizer, compartilham muitas semelhanças estilísticas. O tratamento das figuras, das vestes e dos elementos decorativos indica que provavelmente foram produzidos pela mesma oficina. As quatro estatuetas urbanas encontradas junto deles também seguem o mesmo padrão artístico.

Cidades representadas

Entre os objetos mais fascinantes do Tesouro de Esquilino estão quatro pequenas esculturas de prata e ouro que, por sua vez, representam importantes cidades do Império Romano. Elas aparecem sob a forma de mulheres, seguindo uma tradição artística que personificava cidades e regiões como divindades protetoras conhecidas como Tychai. Produzidas entre aproximadamente 330 e 370 d.C., essas figuras simbolizam os grandes centros políticos e religiosos do império durante o século 4.

Uma das mais elaboradas é Alexandria. A cidade egípcia aparece usando uma coroa mural, decorada com torres e portões que representam suas fortificações. Ela carrega frutas e feixes de trigo, símbolos da fertilidade do vale do Nilo e da prosperidade econômica proporcionada pelo comércio marítimo. Sob seus pés aparece a proa de um navio.

As demais figuras representam Roma, Antioquia e Constantinopla, cidades fundamentais para o mundo romano tardio, período em que centros urbanos também se destacaram como importantes sedes do cristianismo. 

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.