Notícias / Ciência

Milhões de anos sem sexo deixaram a evolução mais lenta

Pesquisa com fósseis de 574 milhões de anos revela que a clonagem reduziu a disputa entre os primeiros animais e freou a evolução biológica global

Um casal de libélulas em acasalamento é fotografado em um jardim suburbano - Jim Dyson/Getty Images.

A predominância da reprodução por clonagem entre os primeiros seres vivos complexos do planeta impediu o avanço da biodiversidade por um longo período. De acordo com um estudo liderado pela Universidade de Cambridge e publicado na revista Nature Ecology e Evolution, a facilidade da vida nas águas profundas eliminou a necessidade de competição, fazendo com que a evolução caminhasse a passos lentos por milhões de anos.

Vida sem competição

Os pesquisadores analisaram fósseis do período Ediacarano, que ocorreu entre 635 e 539 milhões de anos atrás, localizados na região de Mistaken Point, no Canadá. Esses seres primitivos, como o gênero Fractofusus, lembravam samambaias e chegavam a dois metros de altura, mas não possuíam bocas ou órgãos internos. 

Conforme explica a especialista em zoologia Emily Mitchell, cientista da Universidade de Cambridge que liderou a investigação, o ambiente na época era muito estável e favorável. Sem predadores ou escassez de recursos, os animais não sofriam pressão para mudar ou inovar suas estruturas corporais.

Clonagem freou inovação

A equipe utilizou inteligência artificial e escaneamento a laser para entender como esses organismos se espalhavam pelo fundo do mar. Eles descobriram que a maioria se reproduzia enviando clones através de estolões, que são corredores biológicos semelhantes aos dos morangueiros atuais. 

Segundo a professora Andrea Manica, coautora do trabalho e também vinculada à instituição britânica, esses clones permaneciam conectados e compartilhavam nutrientes. Essa cooperação genética eliminava a disputa por recursos e, sem competição, a seleção natural não tinha força para impulsionar o surgimento de novas espécies.

Estresse trouxe sexo

A situação mudou drasticamente quando a vida começou a migrar para águas mais rasas. Nesse novo habitat, os animais enfrentaram marés, tempestades e variações bruscas de temperatura. 

Esse aumento do estresse ambiental exigiu uma adaptação mais rápida, favorecendo o surgimento da reprodução sexuada. Ao misturar genes de dois indivíduos, as espécies geraram descendentes mais variados e capazes de colonizar novas áreas. 

Essa mudança foi o gatilho para a Explosão Cambriana, o período de maior diversificação da vida na história da Terra.


*Sob supervisão de Éric Moreira

Meu propósito é dar voz a narrativas.