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Arquivo digital reúne manuscritos e obras perdidas de Leonardo da Vinci

O projeto digital Leonardotheka 2.0 conecta quase 2.000 páginas de manuscritos e desenhos de Leonardo da Vinci dispersos entre instituições da Europa

Antigo desenho de Leonardo da Vinci / Crédito: Museo Galileo / Leonardotheka 2.0

Quase 2.000 páginas de manuscritos e desenhos de Leonardo da Vinci foram reunidas em um novo arquivo digital que permite, pela primeira vez desde o fim do século 16, visualizar e consultar em sequência um conjunto de obras que permaneceu fragmentado por séculos.

Batizado de Leonardotheka 2.0, o projeto foi desenvolvido por pesquisadores do Museu Galileu, em Florença, em parceria com a Royal Collection Trust, da Inglaterra, a Veneranda Biblioteca Ambrosiana, de Milão, e a Biblioteca Leonardiana, localizada em Vinci, na Toscana. A iniciativa busca reconstruir digitalmente documentos que, ao longo do tempo, foram separados e distribuídos entre diferentes instituições.

A ferramenta utiliza informações relacionadas aos materiais, dimensões, marcas d’água e outras características físicas dos documentos digitalizados para identificar conexões entre fragmentos dispersos. Com esse sistema, os pesquisadores conseguiram restaurar virtualmente 50 páginas do acervo de Leonardo que haviam sido divididas ou alteradas ao longo dos séculos.

Antigo desenho de Leonardo da Vinci / Crédito: Museo Galileo / Leonardotheka 2.0

Obras recuperadas

Entre os materiais recuperados estão desenhos considerados especialmente relevantes pelos estudiosos. Um deles reúne a imagem de um cavalo, um guerreiro e mecanismos de polias. Os especialistas acreditam que esse conjunto possa representar o esboço final elaborado por Leonardo para o monumento equestre de Francesco Sforza, projeto conhecido como “O Cavalo de Leonardo” e que jamais foi concluído.

Outra reconstrução permitiu recompor o desenho de uma máquina destinada à fabricação de agulhas. Parte da imagem havia sido removida anteriormente. No verso desse fragmento separado, foram encontrados desenhos de dois dragões entrelaçados.

“A Leonardotheka 2.0 oferece aos estudiosos do mundo todo oportunidades sem precedentes para explorar a vasta e inestimável riqueza de informações contidas nos manuscritos de Leonardo da Vinci”, afirma Paolo Galluzzi, ex-diretor do Museu Galileu e criador da Leonardotheka, em um comunicado, segundo o jornal The Independent. “Essa ferramenta inovadora marca o início de uma nova e promissora era de pesquisa sobre o legado artístico, científico e literário do gênio de Vinci.”

Durante os últimos anos de sua vida, Leonardo reuniu em um grande fólio anotações, invenções e projetos de engenharia. Entre eles estavam estudos relacionados à máquina voadora, à viola da gamba, ao parafuso de Arquimedes e à roda perpétua. Após sua morte, em 1519, esse material foi reorganizado e dividido em diferentes conjuntos temáticos.

Segundo os pesquisadores, a fragmentação ocorreu por iniciativa do escultor italiano Pompeo Leoni. Parte do acervo foi agrupada em uma coleção dedicada à ciência e à tecnologia, enquanto outra ficou associada a estudos artísticos.

Posteriormente, a coleção científica foi adquirida pelo conde Galeazzo Arconati e doada à Veneranda Biblioteca Ambrosiana em 1637, passando a ser conhecida como Codex Atlanticus. Já os manuscritos de caráter artístico chegaram à Coleção Real inglesa por volta de 1670, provavelmente como um presente ao rei Carlos II.

Antigos desenhos de Leonardo da Vinci / Crédito: Museo Galileo / Leonardotheka 2.0

Iniciado em 2017, o projeto Leonardotheka busca reverter digitalmente o que o Museu Galileu descreve como uma “intervenção desastrosa” promovida por Leoni, repercute a Smithsonian Magazine.

“O modelo da Leonardotheka estabelece um precedente convincente de como as instituições culturais podem e devem manter a propriedade intelectual de seus empreendimentos digitais, resistindo à tentação de delegar tais responsabilidades a plataformas comerciais”, afirma Roberto Ferrari, diretor executivo do Museu Galileo, em um comunicado, conforme relatado pela ArtForum. “Em uma era de inteligência artificial em rápida evolução, este projeto nos lembra que o verdadeiro valor das humanidades digitais reside na disposição das instituições acadêmicas em assumir a responsabilidade direta por moldar as ferramentas por meio das quais nosso patrimônio comum é explorado e compreendido.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.