A tecnologia que revelou a civilização humana sob a Amazônia
Projeto reúne arqueólogos, indígenas e comunidades tradicionais na Amazônia para mapear vestígios ancestrais

Por muito tempo, a floresta amazônica foi vista como uma região ocupada por pequenos grupos humanos dispersos, vivendo em relativa harmonia com um ambiente praticamente intocado. Nas últimas décadas, porém, descobertas arqueológicas vêm transformando essa visão. Agora, uma tecnologia capaz de “enxergar” através da copa das árvores está revelando uma Amazônia ainda mais complexa, marcada por milhares de anos de ocupação humana e por extensas obras construídas por povos ancestrais.
O instrumento responsável por essa nova revolução arqueológica é o Lidar, sigla para Light Detection and Ranging. A tecnologia utiliza milhares de pulsos de laser disparados a partir de aeronaves ou drones para criar mapas tridimensionais extremamente detalhados da paisagem. Ao processar os dados coletados, os pesquisadores conseguem remover virtualmente a cobertura vegetal e observar o relevo escondido sob a floresta. O resultado é uma espécie de “raio X” do terreno, capaz de revelar estradas, valas, montículos, aldeias e outras estruturas construídas há séculos ou milênios.

Os avanços mais recentes foram apresentados durante um encontro realizado no Museu da Amazônia (Musa), em Manaus, reunindo pesquisadores de diversas instituições brasileiras, representantes indígenas, quilombolas e moradores de comunidades tradicionais. O evento discutiu os resultados preliminares do projeto Amazônia Revelada, iniciativa coordenada pelo arqueólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).
Mapeando a Amazônia
O objetivo do projeto vai além da simples localização de sítios arqueológicos. A proposta é demonstrar que a Amazônia constitui um patrimônio histórico e biocultural moldado ao longo de pelo menos 13 mil anos pela ação humana. Segundo os pesquisadores, a floresta que existe atualmente não é apenas resultado de processos naturais, mas também da interação contínua entre diferentes povos e o ambiente amazônico.
Uma das regiões que mais tem produzido descobertas é o Acre. Ali, o uso do Lidar ampliou significativamente o número conhecido de geoglifos, enormes figuras geométricas escavadas no solo por populações pré-coloniais. Essas estruturas podem assumir formatos quadrados, circulares ou retangulares e frequentemente são conectadas por antigas estradas. Algumas possuem dimensões impressionantes. Em um dos casos documentados, um geoglifo quadrado é grande o suficiente para abrigar o estádio do Maracanã em seu interior.
Os geoglifos já eram conhecidos desde o início dos anos 2000 graças a imagens de satélite e ao avanço do desmatamento, que acabou expondo parte dessas construções. Entretanto, o Lidar revelou que muitos deles permanecem ocultos sob a floresta preservada, indicando que a presença humana antiga foi muito mais extensa do que se imaginava. Estudos anteriores já apontavam a existência de centenas dessas estruturas na Amazônia ocidental, mas novas análises sugerem que o número real pode ser muito maior.

As descobertas não se limitam aos geoglifos. Em Rondônia, próximo à comunidade quilombola de Príncipe da Beira, o sensoriamento por laser permitiu identificar vestígios de uma antiga vila portuguesa chamada Bragança, cuja localização havia sido perdida ao longo do tempo.
O assentamento aparecia em mapas do século XVIII, mas jamais havia sido encontrado com precisão pelos pesquisadores. As imagens revelaram o traçado de ruas e outras estruturas urbanas praticamente invisíveis a olho nu. Próximo ao local também foram identificados sinais de ocupações indígenas muito mais antigas, associados a geoglifos e áreas de terra preta, um solo fértil criado pela ação humana ao longo de séculos.
Outro foco importante das pesquisas está no Alto Xingu. Nessa região, imagens obtidas por drones equipados com sensores Lidar permitiram documentar valas, montículos, estradas e praças que conectavam diferentes assentamentos indígenas. Os dados ajudam a reforçar a ideia de que grandes populações viveram na Amazônia pré-colonial e desenvolveram sistemas sofisticados de organização territorial.
Um aspecto considerado fundamental pelos organizadores do projeto é a participação direta das comunidades locais. O Amazônia Revelada adota uma abordagem colaborativa, na qual indígenas, quilombolas, ribeirinhos e beiradeiros participam da definição dos locais estudados e ajudam a interpretar os resultados. Muitas vezes, o conhecimento tradicional permite identificar áreas historicamente importantes que dificilmente seriam reconhecidas apenas pelos métodos científicos convencionais.
Além de ampliar o conhecimento sobre o passado da região, os pesquisadores acreditam que os novos mapas podem contribuir para a proteção dos territórios amazônicos. Como os sítios arqueológicos possuem proteção legal, a identificação dessas áreas pode fortalecer processos de preservação ambiental e reconhecimento territorial.