Vítor Soares / Idade Média

Como o xadrez ganhou popularidade na Europa durante a Idade Média

Com origem na Índia, o xadrez se tornou um dos passatempos favoritos no mundo europeu durante a Idade Média

Os Jogadores de Xadrez (1475), por Liberale da Verona - Crédito: Getty Images

O xadrez é um jogo bastante popular e, durante a Idade Média, ele foi um dos passatempos favoritos entre nobres europeus, que, nas longas horas que passavam trancados em suas fortalezas, necessitavam de uma válvula de escape para preencher seus dias.

Escavações recentes em um antigo castelo localizado no sul da Alemanha confirmam isso. No local, a equipe de arqueólogos responsável encontrou diversas peças, entre elas um cavalo com um par de olhos e crina, que dataria entre os séculos 11 e 12. Naquela época, o jogo era relativamente novo no continente, mas, com o tempo, ganharia o gosto da classe média e passaria a ser visto em diversas cidades.

Mas afinal, qual é a origem do xadrez?

Ele foi criado na Índia, no século 6. Mas versão mais antiga do jogo que se tem conhecimento era um pouco diferente: chamava-se chaturanga, que quer dizer “quatro membros”, e como você deve estar imaginando, era jogado a quatro. Como explica uma matéria do portal National Geographic, o nome era uma referência às divisões do exército e contava com as seguintes categorias de peças: cavalaria, infantaria, elefantaria e carruagens. Embora envolvesse uma variável a mais, a sorte, as peças se moviam da mesma maneira que os peões, cavalos, bispos e torres de hoje.

Dois reis jogando xadrez, cerca de 1352-1362 – Crédito: Getty Images

Ao chegar à Pérsia, através da Rota da Seda, o jogo ganhou o nome shatranj e capturou o mundo árabe após a conquista da Pérsia. Posteriormente, nos séculos 9 e 10, mestres como Al Adli e Al Sudli desenvolveram uma teoria sofisticada para o jogo, estabelecendo regras e estratégias. Foi justamente a partir do contato com o mundo muçulmano que o xadrez finalmente chegou à Europa.

O jogo era altamente respeitado. Prova disso é um testamento datado do ano 1008, no qual Ermengol I, conde de Urgel na Catalunha, legava peças de xadrez de cristal para o mosteiro de Saint-Gilles, na Provença.

Isolados nos castelos

A fonte explica que, com o fortalecimento das monarquias nos séculos 11 e 12, os territórios se tornaram mais estáveis. Consequência disso foi que as obrigações feudais passaram a ser codificadas, enquanto que obrigações militares passaram a ser delegadas. E então veio o isolamento da vida nobre. Os servos forneciam a essa classe comida e mão de obra, de modo que o nobre se viu desprovido de responsabilidades, exceto por expedições de caça esporádicas ou cruzadas, em alguns casos. O xadrez veio na hora certa. Logo, foi incluído na educação formal dos jovens nobres.

Como disse Jenny Adams, professora de literatura medieval na Universidade de Massachusetts Amherst, à History, “o xadrez também era uma forma simbolica de ensaiar a ordem social da época.”

Pinturas medievais mostram nobres jogando xadrez – Crédito: Getty Images

Evolução das peças

Entre os séculos 11 e 13, as próprias peças de xadrez foram reformuladas. Com o tempo, tornou-se necessário alterá-las para que se adequassem à hierarquia feudal europeia. Logo, o vizir tornou-se rainha; o elefante passou a ser bispo, sinalizando a influência da igreja; enquanto que a torre substituiu a carruagem, simbolizando castelos fortificados. No entanto, algumas peças permaneceram inalteradas. É o caso dos cavaleiros e peões.

Com o tempo, o jogo deixou de ser uma atividade da nobreza, espalhando-se também entre funcionários do castelo. Com a chegada do capitalismo e consequente perda de força do sistema feudal, cidades medievais cresceram, assim como o status social de seus habitantes que, com tempo livre, também passaram a jogar xadrez. O jogo era jogado por homens e mulheres — e isso foi registrado em ilustrações do período.

À medida que as atividades disponíveis para todos os estratos sociais se tornaram mais variadas, os jogos acabaram por se transformar em alívio para o estresse cotidiano. No século 15, o jogo passaria por uma reforma, que fortaleceu tanto a dama quanto o bispo. Com o tempo, porém, o xadrez perderia espaço para as cartas, que, sendo menos sérios e intensos, triunfaram na sociedade europeia.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.