O mistério em torno do pênis de Rasputin, o ‘Monge Louco’ da Rússia czarista
Histórias sobre o pênis de Rasputin correm desde sua morte, e envolvem relíquias e culto à fertilidade; embora a verdade seja bem menos extraordinária

Grigori Rasputin permanece, até hoje, como uma das figuras mais envoltas em mistério da Rússia czarista. Conhecido como o “Monge Louco”, sua trajetória foi marcada por rumores, controvérsias e narrativas que misturam fatos históricos e elementos quase folclóricos.
Entre essas várias histórias, poucas ganharam tanta notoriedade quanto aquelas relacionadas ao suposto destino de seu órgão genital após sua morte, um tema que atravessou décadas e ajudou a consolidar sua reputação lendária. Entenda!
Monge devasso
A centralidade desse elemento na construção da imagem de Rasputin não é casual. Antes mesmo de sua morte, ele já era alvo de rumores que o retratavam como uma figura de comportamento sexual controverso.
Embora frequentemente descrito como monge, ele não estava associado a uma ordem que valorizasse a abstinência ou a disciplina moral estrita. Pelo contrário, circularam relatos de que teria ligação com uma seita clandestina da tradição cristã ortodoxa, conhecida como khlysts ou khlysti. Segundo essas crenças, a proximidade com o divino poderia ser alcançada por meio de estados extremos de exaustão física, incluindo práticas sexuais intensas em períodos de devassidão.

Esse contexto contribuiu para a construção de uma reputação de sedutor, especialmente entre mulheres da elite russa. A imagem de Rasputin como um homem de grande apelo sexual se difundiu amplamente, alimentando boatos que chegaram a envolver até mesmo a família imperial.
Entre as alegações mais persistentes está a de que ele teria mantido um relacionamento íntimo com a czarina Alexandra, esposa do czar Nicolau II; no entanto, tais afirmações são amplamente contestadas por historiadores. Como afirmou o historiador Douglas Smith, “Alexandra era uma mulher vitoriana bastante pudica”. Ele acrescenta: “Não há a menor possibilidade, nem qualquer prova, de que ela teria procurado Rasputin para sexo.”
Ainda assim, a circulação dessas histórias contribuiu para intensificar a aura de escândalo em torno de Rasputin e pode ter influenciado, ao menos em parte, a decisão de membros da nobreza russa de assassiná-lo. Sua morte, ocorrida em 30 de dezembro de 1916, no Palácio Yusupov, em São Petersburgo, foi envolta em relatos dramáticos sobre sua resistência aparentemente extraordinária.
O próprio Felix Yusupov, um dos responsáveis pelo assassinato, descreveu o episódio de forma quase sobrenatural em suas memórias: “Esse demônio que estava morrendo envenenado, que tinha uma bala no coração, deve ter sido ressuscitado pelos poderes do mal. Havia algo de terrível e monstruoso em sua recusa diabólica de morrer”.
O pênis de Rasputin
Apesar dessas narrativas, o fato é que Rasputin acabou morto e, segundo os relatos, seu corpo foi posteriormente encontrado no rio. A partir desse momento, começaram a surgir especulações sobre o que teria acontecido com seu corpo — e, mais especificamente, com seu órgão genital.
As primeiras histórias sobre o suposto paradeiro do pênis de Rasputin apareceram na década de 1920, quando um grupo de emigrantes russos na França alegou estar em posse da relíquia. De acordo com essas versões, o objeto teria sido preservado e tratado como um artefato quase sagrado, supostamente capaz de conceder fertilidade àqueles que o venerassem.
Segundo uma dessas narrativas, a notícia teria chegado à filha de Rasputin, Maria, que então teria recuperado o objeto e denunciado os envolvidos, conforme repercute o All That’s Interesting. No entanto, não há qualquer evidência concreta que sustente essa história, o que reforça seu caráter lendário. Ao longo das décadas, outras alegações semelhantes surgiram, cada uma oferecendo uma versão diferente para o destino do órgão.
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 1994, quando o colecionador americano Michael Augustine afirmou ter adquirido o pênis de Rasputin em um leilão de pertences de Maria Rasputin. A declaração chamou atenção, mas posteriormente foi desmentida quando se constatou que o objeto em questão era, na verdade, um pepino-do-mar ressecado, sem qualquer relação com o místico russo.
Outra versão ganhou destaque em 2004, quando um museu de erotismo em São Petersburgo exibiu um órgão que supostamente pertenceria a Rasputin. O proprietário do local alegava ter pago uma quantia significativa pelo item, que teria cerca de 30 centímetros de comprimento. Ainda assim, especialistas rejeitaram a autenticidade da peça, sugerindo que poderia se tratar do órgão de um animal, como uma vaca ou um cavalo, o que reforça a recorrência de fraudes associadas ao tema.

O que realmente aconteceu?
Diante dessas histórias, a versão mais plausível sobre o destino do corpo de Rasputin — e de seu órgão genital — parece ser bem menos extraordinária. Em 1917, após a recuperação de seu corpo, foi realizada uma autópsia conduzida pelo legista Dmitry Kosorotov. De acordo com relatos atribuídos ao exame, apesar das condições em que o corpo se encontrava após o assassinato, não havia sinais de mutilação genital. Isso indicaria que o órgão permaneceu intacto, o que contradiz diretamente as versões que falam em remoção e preservação.
Essa conclusão reforça a interpretação de que todas as histórias posteriores sobre o pênis de Rasputin não passam de construções mitológicas ou tentativas de exploração sensacionalista de sua imagem. Como afirmou o autor e especialista em Rasputin, Edvard Radzinsky: “As histórias sobre o pênis de Rasputin começaram quase imediatamente após sua morte”. Ele conclui: “Mas são todas mitos e lendas.”
A persistência dessas narrativas ao longo do tempo evidencia como a figura de Rasputin transcendeu os limites da história factual para se tornar um personagem quase mítico. Sua imagem foi moldada não apenas por acontecimentos reais, mas também por rumores, exageros e invenções que refletem o fascínio duradouro que ele exerce sobre o imaginário popular.
Nesse contexto, o episódio envolvendo seu suposto órgão genital funciona como um exemplo emblemático de como elementos sensacionalistas podem ganhar vida própria e se perpetuar, mesmo na ausência de evidências. Ao longo do século 20 e início do 21, diferentes versões da história surgiram e foram repetidas, muitas vezes sem qualquer verificação, contribuindo para a consolidação de um mito que, ao que tudo indica, tem pouca ou nenhuma base na realidade.
Assim, embora o destino do pênis de Rasputin continue a ser objeto de curiosidade e especulação, os registros históricos disponíveis apontam para uma explicação mais simples: não houve remoção, nem preservação, nem relíquia. O que permanece, de fato, é a força de uma narrativa construída ao redor de uma figura que, mais do que qualquer outro personagem de sua época, parece ter habitado simultaneamente os domínios da história e da lenda.