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Baby Esther Jones: a jovem artista negra que inspirou Betty Boop

Conhecida como "Baby Esther", Esther Lee Jones foi uma jovem artista negra dos anos 1920, que foi grande influência na criação de Betty Boop — embora nunca tenha recebido crédito

Antiga fotografia de Esther Lee Jones e imagem de Betty Boop / Crédito: Domínio Público

Um fato que nem todos sabem é que a história da personagem Betty Boop, um dos ícones mais reconhecidos da animação do século 20, está diretamente ligada a uma artista negra cuja trajetória permanece pouco conhecida. Esther Lee Jones, cantora e dançarina que se apresentou ainda criança sob o nome artístico “Baby Esther”, é apontada como a principal inspiração para a criação da personagem em 1930 — embora nunca tenha recebido crédito ou compensação financeira por isso.

Artista em ascensão

Nascida em Chicago, entre 1919 e 1920, Jones demonstrou talento artístico desde muito cedo. Subiu ao palco pela primeira vez aos 4 anos de idade, com o apoio dos pais, Gertrude e William, que atuavam como seus empresários. Em suas apresentações, combinava dança, expressões faciais marcantes e uma vocalização característica que incluía a frase “Boop, Boop-a-Doop”, elemento que se tornaria central para sua posterior associação com Betty Boop.

O sucesso da jovem artista se expandiu rapidamente, levando-a a se apresentar com frequência em Nova York. Em 1924, ainda com apenas quatro anos, passou a ser empresariada por Lou Bolton, o que impulsionou ainda mais sua visibilidade. Um artigo publicado pela revista Variety em 1928 destacou sua performance em uma casa noturna da cidade, descrevendo sua habilidade no palco e a recepção do público. “A criança é pequena para a idade e dizem que é uma dançarina de sapateado excepcional”, dizia a reportagem. “A multidão presente aplaudia a pequena dançarina sem parar.”

Nesse período, Jones também era representada pelo agente Tony Shayne, que trabalhava com outra artista em ascensão: Helen Kane. De acordo com registros judiciais posteriores, Kane assistiu a uma apresentação de “Baby Esther” em Nova York, o que teria influenciado diretamente seu estilo artístico. A partir de então, Kane passou a incorporar elementos da performance de Jones em seus próprios números, incluindo a vocalização que mais tarde se tornaria associada à personagem Betty Boop.

Imitação?

A popularidade de Helen Kane cresceu significativamente, e, quando a personagem Betty Boop foi lançada nos desenhos animados em 1930, seu estilo refletia fortemente a interpretação de Kane. No entanto, essa cadeia de influências acabaria sendo questionada poucos anos depois. Em 1932, Kane processou Max Fleischer, criador da personagem, e a Paramount Publix Corp., alegando uso indevido de sua imagem e estilo, e solicitando uma indenização de 250 mil dólares.

Segundo o New York Daily News, Kane alegava ter sido explorada pela produção. No entanto, durante o julgamento, o empresário Lou Bolton foi chamado a depor em defesa dos réus. Seu testemunho revelou que a expressão “Boop, Boop-A-Doop” já era utilizada por uma jovem artista negra antes de Kane — referência direta a Esther Jones. Um artigo do The New York Times de 1934 destacou o depoimento de Bolton, no qual ele afirmou ter ensinado “uma garotinha negra” a cantar “Boop, Boop-A-Doop”, popularizada posteriormente pela personagem.

Durante o interrogatório, foi questionado se “Baby Esther” havia recebido alguma compensação financeira, ao que Bolton respondeu negativamente. O desfecho do caso favoreceu Fleischer e a Paramount, e Kane não recebeu indenização. O historiador Charles Solomon resumiu a decisão ao afirmar: “Os Fleischers ganharam o caso provando que uma artista negra chamada Baby Esther já havia usado a expressão antes de Kane ou [Mae] Questel [a dubladora que deu voz à Betty Boop nos desenhos animados originais]”.

Primeira versão de Betty Boop e fotografia de Esther Jones / Crédito: Domínio Público

Destino de Esther Jones

Apesar de ter sido reconhecida indiretamente como a inspiração original da personagem, a trajetória de Esther Jones permanece cercada de lacunas. Pouco se sabe sobre sua vida após o julgamento, e há divergências sobre as circunstâncias de sua morte. Algumas fontes indicam que ela teria falecido em 1984, em decorrência de complicações relacionadas ao uso de drogas, enquanto outras sugerem que sua morte ocorreu pouco tempo após o processo judicial.

A escassez de registros também contribuiu para confusões sobre sua identidade, com imagens atribuídas a “Baby Esther” sendo, na realidade, de outras artistas. Além disso, Jones frequentemente é confundida com a cantora de jazz Little Esther Phillips, o que reforça a dificuldade de reconstruir sua história com precisão.

Mesmo com o sucesso duradouro de Betty Boop — cujos direitos foram mantidos por diferentes empresas ao longo das décadas e cuja imagem ainda movimenta produtos, colecionáveis e eventos —, Esther Jones e sua família nunca receberam reconhecimento oficial ou compensação financeira. Sua contribuição, no entanto, permanece como um elemento fundamental na origem de uma das personagens mais icônicas da cultura popular, repercute o All That’s Interesting.

A trajetória de “Baby Esther” evidencia não apenas a influência de artistas negros na formação da indústria do entretenimento, mas também os processos de apagamento histórico que marcaram esse período. Ainda hoje, sua história segue sendo reconstruída a partir de fragmentos, revelando uma figura central cuja importância foi, por muito tempo, negligenciada.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.