King Richard: A inspiradora história real por trás do filme
Filme vencedor do Oscar revela ambição, disciplina extrema e conflitos que moldaram Venus e Serena Williams em suas jornadas no tênis

Histórias de superação sempre movimentaram o cinema esportivo. Ainda assim, filmes de destaque sobre tênis são raros. “King Richard“, porém, rompe esse padrão. A produção retrata a trajetória real de Richard Williams, pai de Venus e Serena, e mostra como sua visão ousada transformou duas meninas de Compton em ícones do esporte mundial.
Diferentemente de outros dramas esportivos, o filme não centra sua narrativa apenas nas atletas. Ele mira o homem por trás do império. O diretor Reinaldo Marcus Green constrói um retrato direto e crítico de como a ambição molda — e muitas vezes tensiona — as relações familiares. O filme será exibido na sessão Campeões de Bilheteria, na Rede Globo, a partir das 14 horas. Conheça a história real por trás do filme.
O plano
A história começa no fim dos anos 1980. Criado em Shreveport, Richard Williams enfrentou violência policial e de gangues. Determinado a fugir desse ciclo, ele traçou um plano detalhado para transformar suas futuras filhas em campeãs. O projeto incluía um manual de 85 páginas com regras de comportamento, metas acadêmicas e desenvolvimento atlético.
Quando as meninas tinham pouco mais de quatro anos, já estavam em quadra. Williams dedicava todas as horas possíveis ao treinamento, enquanto trabalhava como segurança. A mãe, Brandy, também sustentava a rotina exaustiva ao atuar como enfermeira em um hospital da região.
Para chamar atenção de treinadores, Williams distribuiu panfletos e vídeos. A estratégia funcionou. Paul Cohen, técnico renomado, aceitou treinar Venus. No entanto, recusou-se a trabalhar com Serena, que passou a treinar com a mãe. O sucesso precoce das irmãs chamou atenção em torneios dominados por atletas brancos e de classe média.
Problemas
O filme mostra parte da hostilidade sofrida pela família, mas a realidade foi ainda mais dura. Segundo as memórias de Williams, ele e as filhas lidaram repetidamente com ataques racistas e violência de gangues. Em um desses confrontos, retratado de forma breve no longa, Williams chegou a ser espancado. Na vida real, o episódio marcou o fim de dois anos de ameaças e culminou com sua Kombi destruída e ferimentos graves que incluíam fraturas e a perda de dez dentes.
Após a contratação do treinador Rick Macchi, as irmãs ingressam em uma academia profissional na Califórnia. Williams pressiona as filhas por excelência, mas exige humildade. A rotina rígida reduz a vida social das meninas e provoca tensão familiar.
Venus, pronta para se profissionalizar, confronta o pai. Mesmo desconfiando das intenções de Richard, ela segue seu conselho ao recusar uma oferta milionária da Nike. Williams acreditava que o valor das filhas aumentaria depois de conquistas relevantes. E estava certo.
Venus vence sua primeira partida profissional, mas cai diante de Arantxa Sánchez Vicario na seguinte. Os créditos finais lembram o que viria depois: sete títulos de Grand Slam.
História incompleta
Embora central para o tênis mundial, Serena recebe menos foco narrativo. O longa ressalta sua sensação de ser ofuscada pelo sucesso de Venus, mas encerra-se antes do início de sua carreira solo. Fora das telas, Serena se tornaria uma das maiores atletas da história, acumulando 23 títulos de Grand Slam e conquistas inéditas, como o “Career Gold Slam” em simples e duplas.
A produção contou com supervisão de Isha Price, meia-irmã das tenistas, que buscou corrigir distorções divulgadas pela mídia. O filme mostra as enteadas Tunde, Isha e Lyndrea como pilares no apoio às caçulas, embora não explore suas histórias mais profundamente. Isha, que sonhou brevemente com o tênis, tornou-se advogada e ajudou a moldar o filme.
Apesar de retratar falhas do protagonista, “King Richard” suaviza algumas áreas. O longa apenas insinua o desgaste do casamento entre Richard e Brandy, que terminaria em 2002. Também omite a tragédia mais marcante da família: o assassinato de Yetunde, irmã mais velha das atletas, em 2003.
Além disso, o filme não aborda políticas rígidas impostas por Williams, como a proibição de bonecas ou de relacionamentos. Mesmo assim, Serena aprovou a obra, destacando a importância de mostrar pais negros dedicados e presentes.
“King Richard” oferece um estudo sutil sobre obstinação, disciplina e limites. Ao reunir fatos, tensões e conquistas, o filme revela que o caminho até o topo do tênis foi intenso e repleto de desafios. A história da família Williams continua a inspirar — não apenas por seus títulos, mas pela força com que enfrentou um mundo que duvidava delas.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli