Qual a verdadeira história por trás da fundação de Roma?

A origem da cidade eterna de Roma é associada à lenda dos irmãos gêmeos Rômulo e Remo, criados por uma loba; mas qual a verdade por trás dessa lenda?

Silhueta de estátua de Rômulo e Remo sendo amamentados por uma loba / Crédito: Getty Images

Conhecida como “Cidade Eterna”, Roma hoje é capital da Itália; mas a alcunha não é à toa. Os romanos de diferentes eras viveram uma monarquia, uma república, um principado, o glorioso Império Romano, seu sucessor, o Império Bizantino… Tudo isso ao longo de mais de dois milênios, desde 753 a.C.

Mesmo com uma história tão antiga, ainda há muitas incertezas sobre as origens e a fundação de Roma. Ainda assim, uma história em especial prevalece sobre as demais: a lenda dos irmãos gêmeos Rômulo e Remo, que deveriam ter morrido, mas foram criados por uma loba, antes de fundar a tal “Cidade Eterna”. Mas afinal, como surgiu essa lenda? E há alguma verdade por trás? Entenda!

Origens do mito

Segundo o National Geographic, a história de Rômulo e Remo começou a circular por volta do século 5 a.C. — ou seja, três séculos após quando teria acontecido a história —, e em círculos gregos, visivelmente impressionados com a ascensão extraordinária da cidade que, até então, era apenas mais uma às margens do rio Tibre.

O que os primeiros boatos diziam era que o fundador da cidade era um homem chamado Rhomos, que seria chamado de Rômulo pelos romanos. No século seguinte, as histórias passaram a diferenciar essas duas figuras — e Rômulo seria avô de Rhomos —, até que, finalmente, a história tomou moldes semelhantes ao que mais conhecemos hoje: Rhomos desapareceu da lenda, e surgiu então Remo, irmão gêmeo de Rômulo.

Já o fato de Rômulo e Remo serem gêmeos, bem como detalhes de sua tumultuada história, incluindo a criação pela loba, vem de testemunhos antigos definidos em torno de 296 a.C., durante as Guerras Samnitas, quando foram criadas um grupo de estátuas representando uma loba amamentando dois bebês.

Estátua representando loba amamentando Rômulo e Remo / Crédito: Getty Images

Basicamente, a criação da lenda ocorreu em um contexto cultural grego, o que ainda justifica referência aos deuses do Olimpo como parte inevitável do mito.

Sangue troiano

A lenda de Rômulo e Remo começa com outra figura bastante relevante, inclusive, para o orgulho romano: Eneias, um dos poucos sobreviventes da Guerra de Troia, que fugiu de sua cidade em chamas carregando o pai idoso, Anquises, nos ombros, e seu filho Ascânio (ou Júlio) ao seu lado, em 1184 a.C..

Ao final de sua jornada de fuga de Troia, Eneias teria desembarcado nas costas da Itália, na região do Lácio, onde lutou contra os povos nativos. Eventualmente, conseguiu fazer as pazes com eles, o que foi selado com seu casamento com Lavínia, filha do rei Latino, e pela fundação do novo assentamento Lavínio.

A história continua com Ascânio, que, após 30 anos, teria fundado ainda sua própria cidade, Alba Longa, próxima da atual Castel Gandolfo — que, vale mencionar, historiadores e arqueólogos nunca localizaram com certeza —, e fundou uma dinastia duradoura que perdurou várias gerações.

Séculos depois, Prova — 11º ou 12º descendente de Ascânio — arquitetou um sistema para que seus dois filhos, Numitor e Amúlio, pudessem compartilhar o governo do reino. Ele deixou o reino para o primeiro, mas concedeu todo o tesouro real ao segundo; como um reino sem dinheiro de nada vale, e o outro tinha dinheiro suficiente para comprar um reino, a convivência entre os dois deveria ser pacífica e equilibrada.

Porém, em vez disso, o que aconteceu foi uma guerra civil, e Amúlio conseguiu tomar o trono, relegando ao irmão um papel subordinado. E para evitar possíveis ameaças futuras, ele também decidiu assassinar seu sobrinho, Egesto, e forçar sua sobrinha, Reia Sílvia, a tornar-se uma virgem vestal — sendo assim condenada à castidade eterna, além de servir por 30 anos para cuidar da lareira sagrada de Vesta, deusa romana do lar e da família.

No entanto, os planos de Amúlio teriam tomado rumos inesperados: Reia Sílvia acabou engravidando — ela disse ter sido engravidada pelo deus da guerra, Marte —, e deu à luz a gêmeos. Enfurecido, Amúlio pretendia matar a sobrinha, mas acabou cedendo aos apelos de sua filha, e mandou prender Reia. Os gêmeos, porém, deveriam ser afogados.

Contudo, os capangas do rei falharam na tarefa: em vez de matar os bebês, eles os colocaram em uma cesta e o lançaram nas águas provenientes de uma inundação do Tibre, e a cesta acabou parando próximo a uma figueira lendária chamada Ficus ruminalis, ao pé do Monte Palatino. E foi lá que uma loba se aproximou dos bebês, os amamentou, e até os levou para uma caverna chamada Lupercal, onde as crianças também eram vigiadas por um pica-pau — justamente uma ave sagrada para Marte.

‘Rômulo e Remo’, por Peter Paul Rubens / Crédito: Domínio Público

Pastores locais — incluindo Fáustulo, um porqueiro a serviço de Amúlio — encontraram os garotos e interpretaram a cena como um presságio divino. Então, Fáustulo decidiu levar os garotos e os confiou à sua esposa, Acca Larentia. Vale mencionar que há versões da história que dizem que os gêmeos foram entregues diretamente a Fáustulo por Numitor, e os filhos de Reia teriam sido substituídos por outros bebês, para enganar o rei.

Rômulo e Remo

Rômulo e Remo conseguiram crescer fortes e audaciosos, ficando conhecidos por ataques a aldeias vizinhas, até que, em certo momento, Remo foi emboscado e capturado pelos homens de Numitor. Ele foi levado para julgamento perante Amúlio, mas foi devolvido a Numitor para punição. Mas o que o homem fez, em vez disso, foi investigar mais profundamente as origens daquele jovem.

“Não esconderei nada de você, pois me parece que você se comporta como um verdadeiro rei deve; mais até do que Amúlio. Você ouve e investiga antes de punir, enquanto ele entrega o acusado ao carrasco sem questionar”, teria dito Remo a Numitor, segundo o historiador grego Plutarco. Incerto sobre a identidade de Remo, Numitor ainda reconheceu nele um espírito determinado.

Em paralelo, Rômulo havia reunido um grupo de pastores, vaqueiros, escravizados e fugitivos e se organizava para resgatar o irmão, até que se aproximou de Numitor. Assim, o rei deposto conheceu seus dois netos, que empreenderam um ataque à fortaleza de Amúlio em seu nome. Eles conseguiram então tomar o palácio real, mataram Amúlio, reinstalaram o avô no trono e libertaram sua mãe, que ainda estava presa.

Mas os irmãos não pretendiam aguardar pela morte do avô para herdar o trono, e os habitantes de Alba Longa também não gostavam da multidão que eles reuniram para enfrentar Amúlio. Ainda assim, Rômulo e Remo já eram considerados heróis, e muitas pessoas juraram segui-los por onde fossem. Então, Numitor teria fundado uma colônia, para onde enviou os netos para governá-la, junto aos indesejáveis de Alba Longa.

Mas os gêmeos também acabaram disputando pelo governo da nova colônia. Cada um escolheu uma colina em que desejava fundar sua cidade — Rômulo escolheu o Palatino, enquanto Remo, o Aventino —, e teve início um conflito entre as facções que apoiavam cada um dos irmãos. No fim, Remo acabou morrendo na confusão que se seguiu, no dia 21 de abril de 753 a.C.

Após sepultar o irmão no Monte Aventino, Rômulo viveu um longo período de luto, mas passado isso, finalmente concluiu a fortificação do Palatino. E foi assim que se estabeleceu o núcleo primordial de Roma.

Parque arqueológico no Monte Palatino, em Roma / Crédito: Getty Images

Outras versões

Embora seja uma lenda, essa é a versão mais aceita sobre a fundação de Roma, respeitada até mesmo por historiadores do passado. No entanto, alguns como Plutarco e Dionísio de Halicarnasso sugerem ainda outras explicações, como que o nome da cidade não seria derivada de Rômulo, mas sim de uma refugiada troiana chamada Roma, que persuadiu sua comunidade para se estabelecer na costa do Lácio, casou-se com Latino e deu à lua a Rômulo e Remo, que nomearam a cidade em homenagem à mãe.

Plutarco também registra várias tradições, incluindo algumas que afirmam que os gêmeos eram filhos ou netos de Eneias. De qualquer forma, o mito de Rômulo e Remo perdurou por séculos, e as evidências históricas tanto da história quanto da fundação de Roma são bastante escassas, de forma que acreditar na lenda é visto, por muitos, como a melhor solução. De qualquer forma, existindo Rômulo e Remo ou não, as lendas acertaram ao afirmar que Roma seria a “Cidade Eterna”, sendo palco de uma longa história de mais de dois milênios repleta de glórias.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.