Matérias / Curiosidades

Violet Gibson: a idosa que quase assassinou Mussolini antes da guerra

Há 100 anos, no dia 7 de abril de 1926, aconteceu em Roma um atentado que quase reescreveu a história: Violet Gibson tentou assassinar Benito Mussolini

Benito Mussolini com um curativo no nariz após o atentado, e fotografia de Violet Gibson / Crédito: Getty Images / Domínio Público

A trajetória de Benito Mussolini está diretamente ligada à ascensão de regimes autoritários na Europa do século 20, que culminaram em algumas das maiores atrocidades já vistas pela humanidade. Nascido em 1883, na cidade de Predappio, no norte da Itália, ele se tornaria o fundador do fascismo e governaria o país entre 1922 e 1943.

Durante esse período, Mussolini consolidou um regime de caráter repressivo, alinhou-se à Alemanha nazista e ao Japão na Segunda Guerra Mundial e implementou políticas que incluíam legislação antissemita. Sua liderança também ficou marcada por decisões militares que expuseram fragilidades do país em diferentes frentes de combate.

Benito Mussolini e Adolf Hitler / Crédito: Getty Images

Em 1943, após o avanço das tropas aliadas, ele foi deposto e preso por integrantes do próprio governo. No entanto, posteriormente, foi resgatado por forças alemãs, e voltou ao poder com influência reduzida; até ser capturado novamente e executado por partisans italianos em 1945, enquanto tentava fugir.

Embora Mussolini só tenha sido executado em 1945, já passado o período mais intenso da Segunda Guerra Mundial, durante o contexto de consolidação do poder fascista ocorreu uma das mais notáveis tentativas de assassinato contra o líder italiano. Em 7 de abril de 1926, três anos após sua ascensão ao governo, Mussolini foi alvo de um atentado em Roma que quase teve consequências históricas profundas. E a responsável pelo ataque foi Violet Gibson, uma mulher de origem anglo-irlandesa que, apesar de não ser uma figura amplamente conhecida, protagonizou um dos episódios mais surpreendentes daquele período.

Violet Gibson

Violet Gibson vinha de uma família rica e influente. Seu pai era o Barão Ashbourne, que ocupou o cargo de Lorde Chanceler da Irlanda, considerado o mais alto posto jurídico do país na época. Apesar de ter tido uma “criação típica para alguém daquela idade e posição social”, ela rompeu com parte das expectativas familiares ao se converter ao catolicismo e adotar posições socialistas, segundo relatos de sua sobrinha-neta, Philippa Gibson, à BBC.

Essa mudança de trajetória não foi bem recebida pela família. Em entrevista ao programa Dros Ginio, da BBC Radio Cymru, Philippa afirmou: “A família não ficou nada satisfeita, mas adotou uma postura mais branda em relação à Violet, em parte porque… ela tinha problemas de saúde mental, mas também porque era uma mulher incrivelmente inteligente.” Ao longo da vida, Violet enfrentou episódios graves de instabilidade, incluindo um colapso nervoso após a morte de seu noivo, uma prisão por ataque com faca e uma tentativa de suicídio.

Mesmo com essas dificuldades, ela se mudou para a Itália, onde aprendeu o idioma e se dedicou a atividades assistenciais. “Fez boas obras”, segundo sua sobrinha-neta, que acrescentou: “Era aquela época em que os ricos davam esmolas aos pobres.” Foi nesse período que Violet acompanhou a ascensão do fascismo e os episódios de violência associados ao regime.

Violet Gibson / Crédito: Domínio Público

Tentativa de assassinato

De acordo com Philippa Gibson, a motivação para o atentado teve origens tanto políticas quanto religiosas. “Acho que ela viu o fascismo de Mussolini se desenvolver, e a incrível crueldade e violência.” Outro fator apontado foi o assassinato do líder socialista Giacomo Matteotti, ocorrido em 1924. “O líder socialista [Giacomo Matteotti] foi assassinado por uma multidão fascista e esse foi um dos fatores que a levaram a tomar essa decisão.” Ela acrescenta: “Então, em parte uma motivação política e em parte uma motivação de fé — sacrificando-se por uma causa importante.”

No dia do ataque, Violet conseguiu se aproximar de Mussolini em meio a uma multidão. Sua aparência não levantou suspeitas. “Ela tinha apenas 50 anos, mas parecia muito mais velha e ninguém prestou atenção em uma senhorinha sacando uma arma muito, muito perto dele.”

No entanto, ao disparar, a bala não atingiu o alvo de forma letal. “E havia vários metros entre eles, mas, aparentemente, ele virou a cabeça e [a bala] apenas roçou seu nariz”, comenta Gibson. Ela ainda tentou efetuar um segundo disparo, mas a arma falhou.

Logo após o atentado, Violet foi detida pela polícia, o que provavelmente salvou sua vida. Segundo Philippa, “porque eles [os apoiadores de Mussolini] provavelmente a teriam matado”. Ela foi presa na Itália e posteriormente deportada para a Inglaterra, onde permaneceu internada em uma instituição psiquiátrica em Northampton até sua morte, em 1956.

Fascista invulnerável

Entre as quatro tentativas documentadas de assassinato contra Mussolini, essa foi considerada a mais próxima de sucesso. Ainda assim, o episódio teve um efeito inesperado sobre a imagem pública do líder fascista. Após o ocorrido, tanto o governo britânico quanto a família de Violet entraram em contato com Mussolini para parabenizá-lo por ter sobrevivido e destacar a instabilidade mental da autora do ataque. “Mussolini também fez isso [focando na instabilidade mental dela] porque não queria que parecesse que uma adversária política tivesse chegado tão perto.”

A sobrevivência a esse e a outros atentados contribuiu para reforçar a percepção de invulnerabilidade do líder italiano. “Houve várias tentativas de assassinato contra ele, e ele sobreviveu a todas.” Esse tipo de narrativa ajudava a consolidar sua imagem. “Tudo isso contribui para a percepção de que ele é imbatível, protegido por Deus, tem uma missão e é para isso que está aqui… então acho que [a tentativa de assassinato] foi contraproducente.”

Benito Mussolini falando para uma multidão / Crédito: Getty Images

Décadas depois, a história de Violet Gibson continua a despertar interesse. Sua trajetória inspirou diversas produções culturais, incluindo livros, músicas, uma peça de teatro, um documentário radiofônico e o filme de 2021 ‘Violet Gibson: a irlandesa que atirou em Mussolini’. Em 2022, uma placa comemorativa foi inaugurada em Dublin em sua homenagem, repercute a BBC.

Apesar do reconhecimento de sua coragem por parte de familiares, a avaliação sobre suas ações permanece marcada por ressalvas. Philippa Gibson afirmou: “Eu certamente não apoiaria nenhum tipo de violência política, essa não é a solução”. Ao mesmo tempo, reconheceu a força das convicções da tia-avó: “Mas acredito que foram suas convicções profundas que a levaram a isso. Portanto, admiro sua coragem, sua disposição em se sacrificar por aquilo em que acreditava, mas não apoiaria nenhum tipo de tentativa de assassinato político.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.