Túmulo intacto na China pode confirmar lenda do Exército de Terracota
Descoberta em necrópole do Exército de Terracota reacende debate sobre história narrada há 2 mil anos sobre um mistério trágico da Dinastia Qin

Uma descoberta dentro do complexo funerário do Exército de Terracota, na China, pode ajudar a esclarecer uma das histórias mais dramáticas associadas à Dinastia Qin. Arqueólogos identificaram um túmulo praticamente intacto no interior da necrópole construída para o primeiro imperador chinês, descoberta que reacendeu o interesse em uma antiga narrativa registrada há mais de dois mil anos.
O complexo foi identificado pela primeira vez há 52 anos, quando trabalhadores que escavavam um poço nos arredores de Xi’an encontraram, de forma inesperada, uma estátua de soldado em tamanho real feita de terracota. A escavação subsequente revelou que aquela figura era apenas uma entre milhares, compondo um vasto exército funerário que guardava o mausoléu do Primeiro Imperador Qin. Desde então, o local tem sido objeto de pesquisas contínuas e, mesmo após décadas de estudo, novas descobertas continuam a surgir.
A escavação mais recente, realizada em 2024, revelou um túmulo contendo um caixão de cerca de 16 toneladas, acompanhado por um conjunto significativo de objetos funerários. Entre os itens encontrados estavam armaduras, armas, milhares de moedas de bronze, peças de jade e figuras de camelos feitas de ouro e prata. O estado de preservação chamou a atenção dos pesquisadores, já que a maioria das tumbas antigas desse período foi saqueada ao longo dos séculos.
“A maioria das tumbas antigas foi saqueada, então não tínhamos muita esperança em relação à câmara mortuária”, disse o líder da escavação, Jiang Wenxiao, ao The Daily Express. ” Mas descobrimos que ela não havia sido saqueada. Ficamos maravilhados.”
Apesar de intacto em termos de saque, o túmulo apresentava sinais de deterioração estrutural, o que levou a equipe a tomar a decisão de escavá-lo e analisá-lo mais profundamente. Segundo os pesquisadores, o local já havia sido identificado anteriormente, em 2011, mas o temor de que a degradação continuasse motivou a retomada das escavações mais de uma década depois.

Quem foi enterrado lá?
Agora, o principal objetivo dos arqueólogos é descobrir quem foi enterrado na tumba. O tamanho do caixão e a quantidade de objetos associados indicam que se tratava de uma pessoa de grande importância. “A grandiosidade do seu sepultamento sugere que ele era um guerreiro notável“, observaram os especialistas.
A tumba faz parte da necrópole construída para Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China. Segundo relatos históricos, o próprio governante ordenou a construção do complexo funerário logo após assumir o trono, ainda na adolescência. A dimensão da obra refletiria o poder e a ambição do imperador, responsável por unificar diferentes reinos e estabelecer uma série de reformas que marcaram profundamente a história chinesa.
Grande parte do conhecimento atual sobre o imperador e sobre a construção de seu mausoléu provém de um texto escrito há cerca de dois mil anos: o Shiji, também conhecido como Registros do Grande Historiador. A obra, escrita por Sima Qian, reúne informações sobre genealogias, biografias e acontecimentos políticos e culturais do período, sendo considerada uma das principais fontes históricas sobre a China antiga.
Príncipe Gao
Entre as narrativas presentes no Shiji está a história de um dos descendentes de Qin Shi Huang, conhecido como príncipe Gao. De acordo com o relato, após a morte do imperador, a sucessão foi marcada por conflitos e episódios de violência dentro da própria família. Esperava-se que o filho mais velho assumisse o trono, mas, segundo a narrativa histórica, intrigas internas levaram outro herdeiro a se tornar imperador.
Nesse contexto, o príncipe Gao teria testemunhado a morte de vários membros da família imperial e chegou a considerar fugir. “Mas o príncipe Gao percebeu que sua família seria perseguida como consequência”, resume o Express, “[…] e confrontou Hu Hai, dizendo-lhe que ele havia decepcionado seu pai por não se juntar a ele na morte.”
Segundo o relato histórico, o príncipe pediu que, após sua execução, fosse enterrado no mesmo complexo funerário de Qin Shi Huang. É justamente essa narrativa que voltou a ser discutida após a descoberta do novo túmulo. Para os pesquisadores, existe a possibilidade de que os restos mortais encontrados pertençam ao próprio príncipe Gao, conforme repercute o Popular Mechanics.

Futuros estudos
A hipótese ainda está em análise, mas a descoberta já é considerada uma oportunidade rara para confrontar os registros históricos com evidências arqueológicas. “Pela primeira vez em 2.000 anos”, disse Hui Ming Tak Ted, historiador da dinastia Qin e professor associado da Universidade de Oxford, “[…] temos a oportunidade de descobrir se o que Sima Qian escreveu está correto.”
Mesmo sem a confirmação definitiva sobre a identidade da pessoa enterrada, a descoberta reforça a importância do complexo funerário do Primeiro Imperador Qin como uma das principais fontes de informação sobre a história da China antiga. A necrópole continua a revelar elementos que ajudam a compreender tanto a estrutura política da dinastia quanto as narrativas registradas nos textos históricos da época.
Os pesquisadores agora trabalham para analisar os objetos encontrados e aprofundar o estudo da tumba recém-escavada. Caso a hipótese seja confirmada, o achado poderá esclarecer um episódio histórico que até hoje era conhecido apenas por meio de relatos escritos, conectando diretamente a arqueologia com uma das histórias mais marcantes associadas ao início do império chinês.