Que papel tem o serviço social diante das questões de sexualidade e diversidade de gênero?
A profissão completa 90 anos e contribui para o debate sobre as dissidências sexuais e de gênero mesmo com os desafios que ainda enfrenta

O serviço social brasileiro completa 90 anos no Brasil em 2026, tendo sido criada a primeira Escola de Serviço Social na PUC-SP em 1936, com forte influência católica e, portanto, cariz conservador.
Seu surgimento está atrelado à necessidade de responder às desigualdades sociais que recrudescem com o processo de urbanização e industrialização no país, mas essa resposta nem sempre foi crítica, de modo que a profissão, no seu início, se apresentava como uma intervenção técnica que aliava moral cristã (a doutrina social da Igreja Católica) e teoria positivista.
Essa história nos permite concluir que o serviço social enfrentou (e enfrenta) desafios internos importantes no que diz respeito à sua capacidade e interesse em debater questões relacionadas à diversidade sexual e de gênero.
Se outras áreas do conhecimento têm um relacionamento muito mais antigo com esses temas, até pela forma como a sociedade historicamente procurou maneiras de explicar a diversidade sexual e de gênero – ou seja, ciências como a antropologia, a psicologia e a medicina são, por excelência, creditadas a falar sobre – o serviço social só publicaria artigos da área sobre o tema entre os anos de 1990 e 2000.
Serviço Social e o tradicionalismo
Os últimos 25 anos, portanto, não foram suficientes para que o serviço social rompesse completamente com o tradicionalismo próprio de sua emergência e consolidação, sendo possível perceber que as discussões sobre gênero e sexualidade ainda não penetraram a formação profissional como deveria.
Entre outros elementos que comprovam esse fato está a ausência de disciplinas obrigatórias que debatam gênero e sexualidade em diferentes cursos pelo país e a escassez de diretrizes de atendimento da população LGBTI+ em políticas públicas com protagonismo da profissão, como a política de assistência social.
Temos, por outro lado, movimentos importantes da área, como o fato de o serviço social ter sido o segundo ofício no país a reconhecer o uso do nome social de assistentes sociais trans e travestis no documento de identidade, possibilitando a utilização do nome social em registros profissionais em detrimento do registro civil.
Também divulgou campanhas nacionais – como a mais célebre “O amor fala todas as línguas: assistente social na luta contra o preconceito” (2006) – e publicou materiais impressos como a série de cadernos “Assistente social no combate ao preconceito”.
Do ponto de vista teórico, a contribuição do serviço social para o debate sobre gênero e sexualidade também é pertinente já que a área disputa publicamente uma noção mais social dessas categorias, isto é, procura entendê-las como fundamentalmente sociais, distanciando-se de outras formas de explicar o exercício da sexualidade que a coloque como fruto de opções morais, destinos biológicos, traumas ou repressões psíquicas.
A tradição marxista que orienta hegemonicamente o trabalho no Brasil permite analisar o gênero e a sexualidade como partes de uma estrutura, não individualizando, portanto, a questão.
Falando de marxismo, a temática sobre gênero e sexualidade também se desenvolveu no seu interior. A obra “Diversidade sexual e de gênero e marxismo”, publicada pela Cortez Editora, procura construir um quadro teórico sobre essa relação, demonstrando que a discussão avançou e se aprofundou, muito embora as polêmicas ainda permaneçam e por muito tempo permanecerão já que é um tema que acompanha o processo histórico e, por isso, sempre se atualiza.

O livro, entre outros textos que foram publicados nos últimos dez anos, oferece contributos para a formação e o exercício de assistentes sociais.
Lutas de Classes
Chama a atenção o fato de que a crise do capital que estamos experienciando no Brasil e no mundo (que é também acompanhada por crises humanitárias, ambientais, sanitárias) convoca movimentos sociais e sujeitos LGBTI+ a revisitarem o marxismo e sua atualidade como pensamento teórico e político que sustenta outra possibilidade (necessária) de sociedade.
Ao mesmo tempo, o ingresso de sujeitos LGBTI+ na política e nas universidades tensiona a necessidade do debate sobre as identidades como parte da análise sobre a luta das classes, já que elas não são homogêneas, possuem diversidades internas.
Essas realidades pressionam as discussões sobre diversidade sexual no interior do serviço social, do marxismo e das esquerdas políticas. Parece contraditório que o momento histórico contemporâneo pleno de crises seja aquele que ofereça as condições históricas para que esse debate ganhe cada vez mais visibilidade.
No entanto, é exatamente porque reside essa contradição que assistentes sociais devem se unir a outros movimentos progressistas de nossa sociedade para pautar o gênero e a sexualidade desde essas perspectivas e como parte de uma agenda democrática e plural.
*Guilherme Gomes Ferreira é assistente social, Mestre e Doutor em Serviço Social pela PUCRS (RS) e, também, pelo Instituto Universitário de Lisboa. É coautor do livro “Diversidade sexual e de gênero e marxismo”, escrito em parceria com Bruna Irineu.