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“Ovo de dinossauro”: o tempero “fóssil” viral das Filipinas

Produzido por poucas famílias e moldado em blocos que lembram um ovo de dinossauro, o sal asín tibuok atravessa séculos de tradição

Ovo tempero capa
Asín tibuok, sal filipino que lembra ovo de dinossauro - National Commission for Culture and the Arts

À primeira vista, ele parece um artefato arqueológico: uma esfera rústica, escura, com aparência fossilizada, como se tivesse sido retirada diretamente de um sítio paleontológico. Não por acaso, ganhou o apelido de “ovo de dinossauro”. Mas, ao contrário do que o nome sugere, trata-se de um dos ingredientes mais raros e tradicionais da culinária filipina — o asín tibuok, um sal artesanal que esteve à beira da extinção e hoje protagoniza um retorno improvável.

Originário da ilha de Bohol, nas Filipinas, o asín tibuok não é apenas um tempero, mas o resultado de um processo ancestral complexo, transmitido por gerações. Sua produção envolve meses de preparação e uma técnica que mistura conhecimento empírico, paciência e uma relação íntima com o ambiente natural.

Ovo de dinossauro?

Tudo começa com cascas de coco, que são deixadas de molho em água do mar durante longos períodos. Depois de saturadas com sal, essas cascas são secas e queimadas até se transformarem em cinzas. A partir daí, inicia-se uma etapa fundamental: a filtração. A água do mar é despejada sobre essas cinzas, produzindo uma salmoura altamente concentrada.

Essa salmoura, então, é fervida lentamente em potes de argila por horas — às vezes dias — até que toda a água evapore. O resultado final é um bloco sólido de sal que se forma dentro do recipiente. Quando o processo termina, o pote se rompe, revelando a massa endurecida em formato arredondado, o que explica a associação visual com um ovo pré-histórico.

Tradição em risco

Apesar de sua singularidade, o asín tibuok quase desapareceu. Ao longo do século XX, a produção industrial de sal e a entrada de produtos importados mais baratos tornaram o método artesanal economicamente inviável. A situação se agravou com regulamentações que exigiam a iodização do sal, dificultando ainda mais a sobrevivência dos produtores tradicionais.

O resultado foi um declínio drástico: de uma prática comum em comunidades costeiras, o asín tibuok passou a ser produzido por apenas algumas famílias. O saber que sustentava sua produção — um conhecimento técnico e cultural acumulado ao longo de séculos — ficou ameaçado de desaparecer com seus últimos guardiões.

Mas o que parecia condenado ao esquecimento começou a ganhar nova vida. Nos últimos anos, chefs, pesquisadores e movimentos de preservação cultural voltaram seus olhos para o asín tibuok, reconhecendo nele não apenas um ingrediente, mas um patrimônio imaterial. O sal passou a ser valorizado em restaurantes de alta gastronomia e incluído em iniciativas internacionais que catalogam alimentos em risco de extinção.

Esse movimento culminou em reconhecimentos importantes. Em 2025, o asín tibuok foi registrado como patrimônio cultural imaterial em necessidade urgente de salvaguarda, reforçando sua relevância histórica e a urgência de sua preservação.

Manifestação cultural

Hoje, sua produção continua limitada — e justamente por isso, seu valor aumentou. Cada “ovo de dinossauro” carrega não apenas sal, mas uma narrativa: a resistência de uma tradição diante da modernidade, o embate entre produção artesanal e industrial, e a tentativa de reconectar o presente com práticas do passado.

Mais do que um ingrediente exótico, o asín tibuok simboliza uma tendência contemporânea mais ampla: o resgate de saberes tradicionais em um mundo globalizado. Em uma era dominada pela padronização e pela velocidade, há um crescente interesse por processos lentos, locais e carregados de identidade.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.