O Agente Secreto: “A Justiça, muitas vezes, foi flexibilizada e manipulada”, diz diretor
Kleber Mendonça Filho, diretor de ‘O Agente Secreto’, falou com o Aventuras sobre o contexto político e social do filme; leia!

Representante brasileiro no Oscar, ‘O Agente Secreto‘ é ambientado em Recife no ano de 1977 — ou, como o próprio longa apresenta, um tempo cheio de pirraça.
Dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, o filme gira em torno de Marcelo, um especialista em tecnologia que retorna de São Paulo até sua terra natal em busca de seu filho. No entanto, terá que enfrentar os perigos e segredos da cidade.
‘O Agente Secreto’ é ambientado em plena Ditadura Militar. Recheado de regionalismo, o filme traz reflexões e debates sobre a memória (não só das coisas que vivemos, mas daquelas que também foram tiradas de nossa história).
A produção também traz críticas e referências a temas da época, como o clássico ‘Tubarão’ (1975); onde o predador representa o próprio regime, que “devora” os desaparecidos e serve como artifício para ocultar as mazelas cometidas pelos fardados.
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A realidade de ‘O Agente Secreto’
Em entrevista ao Aventuras, o diretor Kleber Mendonça Filho aponta que embora não exista uma história real por trás do filme, é impossivel não existir uma identificação com uma pessoa ou uma passagem. “O filme é uma obra de ficção, o roteiro é ficcional, mas é impossível — mesmo fazendo uma ficção científica — você não lembrar de alguém”.
“Um personagem pode ser a combinação de quatro pessoas que você sempre admirou, que podem ou não ser do mesmo sexo. Um homem pode ser inspirado numa mulher ou ter uma lembrança de uma outra pessoa, de um senhor que você conheceu há muito tempo”, continua.
Kleber também comenta a ambientação da narrativa e como foi reviver os anos 1970. “Gosto muito de pensar que as histórias vêm da lógica da vida em sociedade. Isso é o que move uma boa história: você contar uma história que tem a lógica, por exemplo, dos anos 70 no país que é o Brasil. E isso eu trabalhei de maneira muito aplicada porque eu queria que o filme tivesse uma lógica de um tempo histórico”.
Acho que é um problema você fazer um filme que se passa em 1958, mas, na verdade, o filme se movimenta, fala e age, como uma pessoa vivendo em 2025. É um anacronismo narrativo que, para mim, não é bom. Então, é muito importante que você tenha uma certa aspereza na lógica — que pode ser histórica e também do próprio país”.

Um exemplo disso, comenta o diretor, pode ser visto na sequência onde uma mãe tenta fazer parte do depoimento da ex-patroa dela — que no filme terminou matando uma garotinha atropelada por incompetência, por descaso.
Mas isso não é apenas o caso que todo mundo conhece, do garoto Miguel, é muito a lógica de como a Justiça, muitas vezes — não sempre porque eu acredito na Justiça no Brasil —, foi flexibilizada e manipulada para favorecer um determinado grupo de pessoas ou uma pessoa. E isso tem muito a ver com a quantidade de poder que essa pessoa ou esse grupo de pessoas têm dentro da sociedade, é uma questão de classe também. Essa lógica, para mim, é mais forte do que um caso específico”.
“Para falar a verdade, quando eu estava escrevendo aquela sequência, eu lembrei muito de todo aquele teatro vergonhoso, daquele comportamento cretino do Sérgio Moro e do Dallagnol há uns 5 ou 6 anos, com toda uma manipulação do jogo da Justiça — com a encenação da Justiça. Aquela sequência toda, na verdade, é sobre encenação. O Euclides, que é o delegado interpretado pelo grande Robério Diógenes, dirige tudo como um dramaturgo: gesticula, manda entrar em cena, manda tirar de cena, fecha a porta. Ele está lá para proteger aquela pessoa que está dando o depoimento”.
Legado e Memória
Não só em ‘O Agente Secreto’, a memória e o resgate de histórias são temas centrais nas obras de Kleber Mendonça Filho, como ‘Bacurau‘ (2019), ‘Aquarius’ (2016)…; sempre buscando mostrar como a violência do passado pode mudar nossa construção de memórias. Mas de onde vem todo esse conceito?
“Eu acho que todo filme, música e livro é material que pode ser transformado em arquivo. O fato de você gravar alguém falando — como eu tô fazendo agora — pode ser guardado e virar um arquivo, se existir uma disciplina, uma maneira técnica e um objetivo. Talvez isso aqui seja preservado porque alguém esqueceu esse telefone depois que acabou a sua vida útil ou um de vocês pode, de fato, arquivar isso, colocar em discos rígidos ou na nuvem para o futuro”.
“Todo filme — pode ser uma comédia romântica, um filme distante de uma missão ou de um pensamento relacionado à ideia do arquivo histórico — pode se transformar num arquivo. Para mim é muito natural que filmes contenham essa ideia. Toda a arte, toda a expressão artística, passa pelo registro do tempo. Você pode encontrar os manuscritos de um livro escrito no século XIX e a própria materialidade do livro, o papel, pode já conter toda essa carga de tempo, para além do conteúdo que foi escrito. Mas eu acho que o cinema tem a capacidade de fotografar o tempo. Se você tem uma cena de 3 minutos com duas pessoas falando numa mesa e você não corta, você registrou aquele tempo no tempo em que tudo aquilo foi filmado. É natural que o tempo, sua passagem e seu efeito sobre as pessoas e a vida na sociedade façam parte das histórias”.