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Como uma enorme pegada de dinossauro foi descoberta no Reino Unido

Escavação expõe uma das maiores sequências de pegadas da Europa, oferecendo pistas sobre o comportamento dos gigantes do Jurássico

Uma impressão de Megalosaurus descoberta no Reino Unido - Oxford University Museum of Natural History

Escondida sob toneladas de rocha calcária, uma verdadeira “superestrada de dinossauros” está emergindo em Oxfordshire, no Reino Unido. Uma trilha contínua de 220 metros, composta por quase 100 pegadas monumentais, foi desenterrada na Pedreira Dewars Farm, perto de Bicester.

O achado, liderado por pesquisadores do Museu de História Natural da Universidade de Oxford e da Universidade de Birmingham, é considerado um dos mais longos conjuntos de pegadas de dinossauros já encontrados na Europa.

As marcas foram deixadas há cerca de 166 milhões de anos, no Período Jurássico, por enormes saurópodes herbívoros — possivelmente da espécie Cetiosaurus — que podiam atingir 16 metros de comprimento e até 10 toneladas.

Essas pegadas são absurdamente grandes”, comenta Emma Nicholls, do Museu de História Natural da Universidade de Oxford. “São pegadas enormes de um dinossauro saurópode; provavelmente um Cetiosaurus, um dinossauro que sabemos ter sido encontrado nesta área”.

Descoberta rara

A descoberta não foi acidental. A escavação começou após explosões controladas na pedreira removerem camadas de rocha calcária. Entre escavadeiras e caminhões, paleontólogos encontraram as marcas afundadas na lama fossilizada — um registro vivo do movimento dos gigantes do passado.

“Neste verão, escavamos quatro trilhas, a mais longa das quais tem 220 metros, com quase 100 pegadas individuais, cada uma com quase um metro de comprimento — absolutamente enorme”, afirmou o paleontólogo Duncan Murdock, de Oxford.

Essas pegadas permitem estimar não apenas o tamanho, mas também a velocidade dos animais. De acordo com os cálculos, os saurópodes caminhavam a cerca de 6 a 8 quilômetros por hora, ritmo semelhante ao de uma pessoa em passo acelerado. “É fascinante imaginar que criaturas de quatro metros de altura no quadril se moviam com tanta naturalidade”, acrescenta Murdock.

Além das enormes pegadas dos saurópodes, também foram encontradas marcas menores, com três dedos, atribuídas a um Megalossauro, um dinossauro carnívoro bípede de até nove metros de comprimento. As diferentes trilhas sugerem que o local foi um ponto de travessia de múltiplas espécies.

A paleontóloga Kirsty Edgar, da Universidade de Birmingham, ressalta a raridade da descoberta: “É muito raro ver algo assim no Reino Unido, já que a maioria dos nossos sítios de pegadas de dinossauros são pequenas exposições costeiras. À medida que a pedreira continua a se expandir, o mesmo acontece com as pegadas, revelando cada vez mais sobre a vida desses animais incríveis”.

Os cientistas acreditam que o local era, na época, uma planície pantanosa ou um banco de lama exposto, onde os dinossauros cruzavam entre ilhas em um ambiente semelhante ao das Bahamas ou Florida Keys de hoje. “Devem ter existido bancos de lama que ocasionalmente ficavam expostos ao ar, e é um desses bancos que estamos vendo agora”, explica Murdock.

Preservação

Manter pegadas intactas por milhões de anos exige condições excepcionais — o que os pesquisadores chamam de “efeito Cachinhos Dourados”. O sedimento precisava estar na consistência certa: nem muito mole, nem muito duro. Após serem formadas, as marcas endureceram ao sol e foram rapidamente cobertas por novas camadas de lama ou sedimentos trazidos por tempestades, o que permitiu sua preservação quase perfeita.

É bastante singular encontrar esse tipo de confluência de eventos em que as pegadas são feitas e rapidamente preservadas, especialmente nessa quantidade”, observa Edgar.

Ao estudar as pegadas em laboratório, o professor Peter Falkingham, da Universidade John Moores de Liverpool, criou modelos 3D para reconstruir os movimentos dos dinossauros. “As pegadas são a única maneira de observar como esses animais realmente se moviam. Elas mostram o comportamento natural, não apenas a anatomia dos fósseis”, afirma.

Além de revelar o tamanho e a velocidade, as trilhas podem indicar como os dinossauros interagiam — se caminhavam em grupo, se estavam migrando ou simplesmente explorando o ambiente.

Por enquanto, as pegadas estão sendo cuidadosamente registradas e enterradas novamente para preservação. Ainda não há planos imediatos para torná-las acessíveis ao público, mas a equipe discute com autoridades e a operadora da pedreira, Smiths Bletchington, a possibilidade de futuras escavações controladas.

Mesmo assim, a emoção dos cientistas é palpável. “Mesmo depois de ser paleontóloga por mais de 20 anos, ainda dá aquela sensação de formigamento ver essas pegadas”, diz Emma Nicholls. “É uma experiência de humildade — estamos literalmente seguindo os passos dos maiores animais que já caminharam sobre a Terra”.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli