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A história real que inspirou ‘O Testamento de Ann Lee’

Musical dirigido por Mona Fastvold transforma a trajetória da líder religiosa Ann Lee em um épico histórico sobre fé, repressão e utopia social

O Testamento de Ann Lee capa
Cena de O Testamento de Ann Lee - Divulgação/Disney

A história do cinema está repleta de figuras religiosas controversas, mas poucas personagens parecem tão enigmáticas quanto Ann Lee, protagonista de O Testamento de Ann Lee, novo filme estrelado por Amanda Seyfried, que j[a est[a disponível no Disney+. A produção, dirigida por Mona Fastvold, mergulha na vida da fundadora do movimento Shaker, grupo cristão do século XVIII conhecido por seus rituais intensos de dança e pela crença de que Deus poderia se manifestar em forma feminina.

Aclamado no Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde recebeu uma ovação de 15 minutos, o longa mistura musical, drama histórico e cinebiografia para reconstruir a trajetória de uma mulher que desafiou frontalmente os padrões religiosos e sociais de sua época.

Embora o filme tome algumas liberdades criativas, a base da narrativa é real. Ann Lee existiu e se tornou uma das líderes religiosas mais controversas do século XVIII, sendo vista por seus seguidores como a encarnação feminina de Cristo.

A História de Ann Lee

Nascida em 1736, na cidade de Manchester, Ann cresceu em uma família humilde e teve contato desde cedo com a Igreja Anglicana. Ainda jovem, porém, passou a rejeitar os dogmas tradicionais do cristianismo inglês. Em 1758, aproximou-se de James e Jane Wardley, líderes de um grupo religioso dissidente que defendia práticas consideradas radicais para a época, como danças extáticas durante os cultos e a ideia de que a segunda vinda de Cristo ocorreria por meio de uma mulher.

Divulgação/Disney

A vida pessoal de Ann Lee foi marcada por tragédias. Ela se casou com Abraham Standarin, mas o relacionamento era conturbado. Segundo registros históricos, Ann demonstrava profunda aversão à intimidade física. Seus quatro filhos morreram ainda na infância, experiência que transformou completamente sua visão sobre sexualidade e espiritualidade. Após a morte do último filho, Lee afirmou ter recebido uma revelação divina: para alcançar a verdadeira pureza espiritual, os seres humanos deveriam abandonar completamente o sexo e o casamento.

Um movimento perseguido

Essa crença se tornaria um dos pilares do movimento Shaker. O grupo defendia o celibato absoluto, a igualdade entre homens e mulheres e uma vida comunitária baseada no trabalho coletivo e no pacifismo. Em pleno século XVIII, Ann Lee também pregava a rejeição de hierarquias tradicionais de gênero e defendia relações sociais mais igualitárias — ideias consideradas perigosas pela sociedade inglesa da época.

As perseguições logo começaram. A líder religiosa foi presa diversas vezes e chegou a ser internada em um hospício. Relatos da época afirmam que, durante julgamentos, Lee teria entrado em estados de transe religioso e falado em múltiplas línguas diferentes. A fronteira entre experiência espiritual e histeria coletiva tornou-se parte central da imagem pública construída em torno dela.

Em 1774, Ann Lee e um pequeno grupo de seguidores deixaram Liverpool rumo aos Estados Unidos. O grupo se estabeleceu na região de Niskayuna, próxima de Albany, onde os Shakers fundaram uma comunidade religiosa própria. Ali, desenvolveram um modelo de sociedade comunitária centrado em trabalho compartilhado, simplicidade e disciplina espiritual rigorosa.

Os Shakers ficaram conhecidos não apenas pela religião, mas também pelo design minimalista de seus móveis e objetos domésticos. A estética funcional e simples criada pelas comunidades influenciou profundamente o design norte-americano nos séculos seguintes. Até hoje, móveis inspirados no estilo Shaker são valorizados por arquitetos e designers.

O auge do movimento aconteceu por volta de 1840, quando os Shakers chegaram a reunir cerca de 6 mil seguidores espalhados pelos Estados Unidos. No entanto, o celibato obrigatório acabou dificultando a sobrevivência da comunidade ao longo do tempo. Sem filhos biológicos, os membros dependiam de conversões religiosas e da adoção de órfãos para manter o grupo vivo.

Divulgação/Disney

Os Shakers na atualidade

Atualmente, resta apenas uma comunidade Shaker ativa no mundo: a Sabbathday Lake Shaker Village. Durante décadas, o local contou com apenas dois integrantes oficiais, tornando-se símbolo da lenta extinção do movimento iniciado por Ann Lee quase 250 anos atrás.

No cinema, porém, a figura da líder religiosa ganha nova vida. Mona Fastvold definiu o longa como uma “recriação especulativa” da trajetória de Lee, combinando fatos históricos com linguagem musical experimental. As canções do filme foram inspiradas em hinos Shakers reais do século XVIII, adaptados pelo compositor Daniel Blumberg.

A escolha pelo formato musical não foi aleatória. Os próprios Shakers utilizavam música, dança e movimentos corporais intensos como forma de oração, o que dá ao longa uma atmosfera quase hipnótica. Amanda Seyfried, inclusive, afirmou que muitas das performances vocais foram construídas a partir de sons “menos melódicos e mais animalescos”, tentando reproduzir a intensidade emocional dos rituais religiosos do grupo.

Mais do que uma cinebiografia tradicional, O Testamento de Ann Lee parece interessado em explorar os limites entre fé, loucura, trauma e libertação espiritual.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.