Zangões possuem um senso de ritmo surpreendente, apesar do cérebro minúsculo, diz novo estudo
Capacidade de perceber ritmo foi, por muito tempo, considerada exclusiva de humanos, aves e alguns mamíferos, mas novo estudo apresentou descoberta surpreendente

Durante muito tempo, a capacidade de perceber ritmo foi considerada exclusiva de humanos, aves e alguns mamíferos, como chimpanzés. No entanto, um novo estudo apresentou uma descoberta inesperada para a comunidade científica: zangões também demonstram senso rítmico, mesmo com um cérebro tão pequeno.
A pesquisa foi conduzida por Andrew Barron, neurocientista comparativo da Universidade Macquarie, na Austrália, que buscava entender se animais com cérebros minúsculos seriam capazes de reconhecer padrões rítmicos. Os resultados foram publicados em 2 de abril na revista Science, de acordo com o portal Smithsonian.
No primeiro experimento, os cientistas treinaram as abelhas a buscar alimento em flores artificiais equipadas com luzes de LED que piscavam em dois padrões distintos. Um dos sinais indicava a presença de uma recompensa — água com açúcar — enquanto o outro não oferecia nada. Com o tempo, os insetos aprenderam a diferenciar os padrões, como sequências repetidas de “traço” e “ponto”. Mesmo após a retirada da recompensa, a maioria continuou preferindo o padrão anteriormente associado ao alimento.
Em seguida, os pesquisadores aumentaram a velocidade dos sinais. Ainda assim, as abelhas conseguiram distinguir entre os padrões, o que indica que elas não estavam apenas memorizando estímulos específicos, mas reconhecendo o ritmo de forma flexível. Como explicou Barron, é semelhante a reconhecer uma música mesmo quando ela é tocada mais rápida ou mais lenta.
O neuroetólogo cognitivo Cwyn Solvi, coautor do estudo, destacou que essa habilidade sugere compreensão da estrutura do padrão, e não apenas de detalhes isolados.
Um novo desafio
Para aprofundar os testes, os cientistas criaram um desafio mais complexo: um labirinto com um piso vibratório em um ponto de decisão. “Se era vibrar ponto traço ponto traço, significava virar à direita para pegar açúcar”, disse Barron a James Woodford, da New Scientist. “Então, um ritmo indicava para virar à esquerda, outro indicava virar à direita, e nós os treinávamos assim. Mostramos que eles poderiam aprender isso.”
Embora ainda não se saiba exatamente como cérebros tão pequenos realizam esse tipo de processamento, os resultados sugerem que a percepção de ritmo pode ter raízes evolutivas mais profundas do que se imaginava. Barron, inclusive, levanta a hipótese de que a vida social das abelhas tenha contribuído para o desenvolvimento dessa capacidade, já que padrões repetitivos fazem parte constante do ambiente desses insetos.
Pesquisas anteriores já haviam demonstrado habilidades surpreendentes em abelhas. Mesmo com cérebros do tamanho de uma semente de gergelim, elas são capazes de realizar cálculos simples, compreender o conceito de zero e até mesmo jogar futebol.
Compreender como esses insetos processam informações pode ter aplicações importantes. Segundo os pesquisadores, esses mecanismos podem inspirar o desenvolvimento de tecnologias baseadas em sensores ultracompactos capazes de identificar padrões rítmicos, com possíveis usos que vão desde reconhecimento de fala e música até a detecção de anomalias cardíacas ou sinais cerebrais associados a crises epilépticas.