Notícias / Curiosidades

SS Great Britain: navio histórico ganha museu com novas exposições na Inglaterra

SS Great Britain, pioneiro da navegação moderna e outrora maior navio de passageiros do mundo, ganha exposição que destaca sua história e as vidas de quem viajou a bordo

Fotografia do SS Great Britain / Crédito: Divulgação/Estaleiros de Bristol

Um dos navios mais emblemáticos da história da navegação, o SS Great Britain, ganha um novo espaço dedicado à sua trajetória em Bristol, na Inglaterra. O museu, instalado ao lado da embarcação, reúne documentos de arquivo e relatos históricos para apresentar os diferentes papéis desempenhados pelo antigo transatlântico, desde suas viagens de passageiros até seu uso militar e como navio de imigração.

Construído em meados do século 19, o SS Great Britain foi lançado em 1843 e rapidamente entrou para a história como o maior navio de passageiros do mundo e um dos mais velozes de sua época. Com quase 100 metros de comprimento e cerca de 2.000 toneladas, a embarcação se destacava por características inovadoras para o período: era construída em metal, em vez de madeira, e utilizava uma hélice para propulsão, substituindo as tradicionais velas.

Projetado pelo engenheiro Isambard Kingdom Brunel, o navio foi concebido inicialmente para transportar passageiros de alto poder aquisitivo entre a Inglaterra e a América do Norte. Sua construção levou quatro anos e consumiu mais de 60 mil rebites. Poucos anos depois, porém, a função da embarcação mudou, passando a transportar milhares de imigrantes rumo à Austrália.

Representação do lançamento do SS Great Britain / Crédito: Domínio Público

Nova exposição

Segundo Tim Bryan, gerente de projetos do museu, a nova exposição busca apresentar uma visão ampla sobre a história da embarcação. “É o navio que mudou o mundo, mas sempre há um lado bom e um lado ruim”, afirmou ao The Guardian. De acordo com ele, a proposta é mostrar o SS Great Britain “com todos os seus defeitos”. “É a vida humana. Tentamos oferecer um retrato completo da história, que acreditamos ser o que as pessoas desejam.”

O novo espaço também destaca as histórias de quem viveu a bordo. “Esta exposição também é sobre as pessoas por trás do navio — as pessoas que o construíram, trabalharam nele e viajaram nele”, explicou Bryan ao The Guardian. “Os visitantes estão muito interessados no lado ‘humano’ do navio — quem eram, para onde iam, como era a vida a bordo.”

As viagens de imigração para a Austrália, que podiam durar aproximadamente quatro meses, apresentavam condições peculiares. Além dos passageiros, o navio transportava centenas de animais vivos, responsáveis pelo abastecimento de alimentos durante a travessia. Em uma viagem realizada em 1859, diários de passageiros registraram a presença de 133 carneiros, 38 porcos, três vacas, 300 patos, 400 gansos e 30 perus, o que fazia a embarcação lembrar um curral.

Apesar das dificuldades, atividades culturais também aconteciam durante as longas jornadas. Em 1860, um grupo de passageiros organizou uma encenação da peça ‘O Mercador de Veneza’, de William Shakespeare.

Entre as histórias apresentadas na exposição está a de James W. Jones, natural de Barbados. Condenado em 1837 por roubo de um cavalo, ele foi enviado à Austrália como punição. Vinte e cinco anos depois, embarcou no SS Great Britain rumo à Inglaterra, onde trabalhou como barbeiro, participou de recitais de poesia e integrou um julgamento simulado promovido pelos passageiros, que discutia a escravidão.

“Tantas pessoas de diferentes origens, de todo o mundo, viajaram no navio, e é muito emocionante que suas histórias agora serão contadas”, afirmou Shani Whyte, pesquisadora e autora do livro ‘Tying the Tides: The Colour within the SS Great Britain’, em entrevista à BBC News. Segundo ela, a pesquisa realizada para reconstruir essas trajetórias foi “uma das partes mais inspiradoras da minha vida até agora”.

A exposição também aborda os diferentes usos da embarcação ao longo do tempo. Durante parte da década de 1850, o governo britânico utilizou o SS Great Britain para transportar soldados destinados à Guerra da Crimeia e, posteriormente, à Índia, onde atuaram na repressão à Revolta dos Sipaios de 1857. Em outro momento, o navio foi responsável por levar a seleção britânica de críquete para partidas na Austrália.

Já no fim da década de 1870, a embarcação passou por uma transformação significativa. Seus motores foram removidos e ela foi convertida em um veleiro de três mastros. Nessa nova configuração, realizou viagens transportando carvão entre o País de Gales e São Francisco. Após sofrer danos durante uma terceira travessia, acabou atracada nas Ilhas Malvinas, onde permaneceu abandonada até o início da década de 1970.

Foi somente em 1970 que uma operação conseguiu reflutuar o navio e rebocá-lo de volta a Bristol, cidade onde havia sido construído mais de um século antes. Atualmente preservado em dique seco, o SS Great Britain recebe cerca de 150 mil visitantes por ano, repercute a Smithsonian Magazine.

“Muitos moradores mais antigos de Bristol me contam o orgulho que sentiram ao estarem às margens do rio Avon em 1970 e verem o SS Great Britain […] finalmente retornar ao local onde foi construído”, afirmou Andrew Edwards, diretor executivo do SS Great Britain Trust, ao The Times. “É esse espírito que quero resgatar: esse senso de pertencimento — da cidade abraçando novamente esse grande navio, que é uma parte tão famosa de sua paisagem.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.