Pela primeira vez, cientistas revertem rejeição humana a órgão suíno transplantado
Estudo publicado no último dia 13 na revista Nature traz novas perspectivas sobre o transplante de órgãos suínos em humanos

Pesquisas envolvendo órgãos suínos geneticamente modificados transplantados em seres humanos despertam esperanças. Contudo, a rejeição por parte do organismo humano tem sido um grande obstáculo.
Um estudo recente, publicado em 13 de novembro na revista Nature, traz novas perspectivas sobre essa questão. Uma equipe internacional de médicos revelou como conseguiu impedir a rejeição de um órgão suíno em um corpo humano – um feito inédito que ocorreu não uma, mas duas vezes.
Os cientistas realizaram o transplante de um rim em um paciente com morte cerebral que teve seu corpo doado para fins científicos. Durante os 61 dias do experimento, o corpo do paciente rejeitou o transplante em duas ocasiões distintas. Em ambas as situações, os médicos conseguiram reverter a rejeição utilizando medicamentos já existentes, permitindo que o rim funcionasse adequadamente novamente.
“É um enorme avanço”, afirmou Robert Montgomery, autor principal do estudo e diretor do NYU Langone Transplant Institute, onde a pesquisa foi realizada, em entrevista à ABC News. “À medida que avançamos, eu acredito que estaremos em uma posição nos próximos anos em que órgãos de porcos editados geneticamente serão uma alternativa aos órgãos humanos”, disse ele.
Já Muhammad Mohiuddin, cirurgião da Universidade de Maryland e pioneiro no primeiro transplante entre porcos e humanos em 2022, mas que não participou deste estudo, descreve a pesquisa como a primeira evidência de métodos para reverter rejeições.
De acordo com a revista Smithsonian, a equipe conseguiu monitorar e reverter as rejeições com sucesso devido à extensa pesquisa realizada diariamente no paciente, analisando a atividade do órgão em nível celular. Essa vigilância permitiu que os pesquisadores identificassem ambas as rejeições cinco dias antes do que teriam conseguido sem tal monitoramento.
“Nós conseguimos obter um conjunto muito denso de pontos de dados realizando biópsias, coletando amostras de sangue, amostras de fluidos corporais e criando um atlas de como essa resposta imunológica se parece”, ressaltou Montgomery, que acredita que esta seja a investigação mais aprofundada sobre um ser humano já realizada.
Genes estranhos
A partir da análise do sangue do paciente, os pesquisadores identificaram células específicas e anticorpos responsáveis pelas rejeições. Descobriu-se que o órgão suino apresentava níveis elevados de genes considerados estranhos pelo sistema imunológico humano, desencadeando uma resposta imune. Os linfócitos T, células brancas que reagem a patógenos e invasores desconhecidos, também desempenham um papel mais significativo na rejeição do que se pensava anteriormente.
O estudo foi concluído após 61 dias, o período mais longo em que um órgão suino sobreviveu em um paciente com morte cerebral. “Sessenta e um dias de função renal estável é uma prova de conceito inovadora”, declarou à CNN Minnie Sarwal, cirurgiã da Universidade da Califórnia em São Francisco e co-diretora do programa de transplantes de rim e pâncreas da instituição. Essas inovações podem reduzir significativamente o tempo de espera para pacientes necessitados de transplantes.
A equipe de Montgomery agora se prepara para testar técnicas de supressão imunológica para transplantes suínos em mais 20 pacientes, buscando replicar esses resultados além do caso isolado estudado.