Nova pesquisa explica a de onde vem a ‘lerdeza’ dos bichos-preguiça
Análise genética dos bichos-preguiça pode apresentar caminhos mais saudáveis ao envelhecimento humano e doenças metabólicas; entenda!

Recentemente, um estudo publicado na revista BMC Biology revelou que a lentidão dos bichos-preguiça não vêm só de uma falta de vontade. Na verdade, inscrito no DNA desses animais estão estratégias genéticas para um metabolismo mais lento e duradouro que de outros mamíferos.
A equipe internacional, que contou inclusive com participação brasileira, analisou o genoma do bicho-preguiça-de-dois-dedos (Choloepus didactylus). Assim, genes com mais de 30 milhões de anos foram reconhecidos e mostraram os mistérios de se viver com pouca energia.
Os bichos-preguiça
Durante grande parte de suas vidas, esses animais passam imóveis nas copas das árvores de florestas tropicais. Inclusive, um momento perigoso para esses animais é o momento da evacuação, já que eles tendem a descer das árvores para evacuar, e ficam vulneráveis a predadores pela lentidão.
De qualquer maneira, esses preguiçosos da natureza se deslocam muito lentamente para coletar folhas e frutos para se alimentar. Em contrapartida, eles são bastante longevos comparado à mamíferos do mesmo tamanho. Por isso, os pesquisadores estimam que o gasto metabólico pode ser inferior à metade do de outros animais de mesmo porte.
Outra forma de economizar energia é a estratégia de variar parcialmente a temperatura corporal de acordo com o ambiente, evitando assim o gasto energético de manter a mesma temperatura uniformemente, tal qual os humanos nos 36° C. Parte da análise do genoma partiu da comparação com os mamíferos mais próximos evolutivamente, como os tamanduás e os tatus.
As descobertas genéticas
Surpreendentemente, a principal descoberta do estudo foi a quantidade massiva de transposons, popularmente conhecidos como “genes saltadores”, ativos. Conforme a revista Galileu, essas sequências genéticas possuem a capacidade de se copiar e inserir em partes diversas do genoma.
No entanto, vale destacar que esses elementos também existem em outros mamíferos, mas em menor taxa de ativação ao longo da evolução. Acontece que boa parte dessas alterações dos transposons afetou um ancestral comum de todas as preguiças atuais há 30 milhões de anos. Dessa forma, esse patrimônio genético foi copiado e transpassado até hoje.
Porém, o que mais chamou a atenção foi alguns trechos dos genes relacionados às mitocôndrias. Popularmente conhecidas como as “usinas das células”, esses organismos têm como função fornecer energia para todas as células do corpo.
Mas nas preguiças isso ocorreu diferente, explica a bioinformata Marcela Uliano-Silva, pesquisadora sênior do Instituto Wellcome Sanger, na Inglaterra, e uma das coordenadoras do trabalho, em comunicado:
A evolução já realizou bilhões de experimentos. Ao estudar animais incomuns como as preguiças, às vezes descobrimos soluções biológicas que os humanos nunca desenvolveram”.
Em suma, parte desses genes saltadores transformaram a forma como as mitocôndrias dos bichos-preguiça produzem energia, as tronandomais lentas. Além disso, outros mecanismos de gerenciamento da energia celular foram encontrados em abundância nesses animais.
Pedro Galante, pesquisador do Hospital Sírio-Libanês, no Brasil, e coautor principal do estudo, destaca:
Muitas doenças humanas envolvem problemas com a produção de energia e a função mitocondrial […] A longo prazo, isso poderá contribuir para pesquisas sobre preservação de tecidos, medicina intensiva, envelhecimento, doenças metabólicas e até mesmo viagens espaciais de longa duração”.
Ou seja, possivelmente os avanços nos estudos sobre o metabolismo das preguiças poderão fornecer um comparativo mais saudável às células humanas. Atualmente, os pesquisadores estão cultivando culturas de células das preguiças e testando técnicas diversas para compreender o sequenciamento genético.
De todo modo, o estudo ainda faz parte de um pequeno grupo de pesquisa sobre a genética e metabolismo das preguiças. Assim, nos resta esperar para mais respostas das preguiças a como viver uma vida mais lenta e longeva.
*Sob supervisão de Éric Moreira