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Na Idade Média, as Ilhas Canárias contaram com uma economia especializada em frutos do mar

Indícios de uma economia especializada em frutos do mar foram encontradas em um sítio arqueológico localizado próximo a Sardina, na costa noroeste de Gran Canaria

Playa Chica, Zona 1. (a) camada superior estéril de tufo vulcânico desagregado e selamento de areia preta de praia Fase 5; (b) superfície da SU 2, com uma matriz dominada por areia preta e apresentando lareiras planas, restos de frutos do mar, artefatos líticos e escamas de peixe; (c) chifres de cabra usados como descalcificadores de peixes no SU 2. (d) anzol de presa de porco recuperado em contexto primário dentro do SU 2. - Crédito: Divulgação/Santana et al., PloS One (2026)

Entre os séculos 11 e 13 d.C., existiu nas Ilhas Canárias uma economia especializada em frutos do mar, conforme evidências arqueológicas encontradas em Gran Canaria. Segundo pesquisadores responsáveis pela descoberta, os achados sugerem que a pesca, o processamento e a conservação de alimentos marinhos eram importantes para as comunidades indígenas que habitavam a região e ajudavam a sustentar redes de intercâmbio entre assentamentos costeiros e do interior.

O estudo concentrou-se em Playa Chica, um sítio arqueológico localizado próximo a Sardina, na costa noroeste de Gran Canaria. As camadas do local registram ocupações que se estendem do século 6 ao 13 d.C. Nas fases mais antigas, o espaço era utilizado para atividades domésticas realizadas em uma construção de pedra. A partir do século 11, porém, sua função mudou significativamente, passando a servir principalmente como centro de exploração e processamento de recursos marinhos.

Para compreender o uso do sítio, os arqueólogos analisaram uma série de sedimentos, restos de animais e plantas, bem como ferramentas e estruturas de combustão pertencentes à fase mais recente de ocupação. No fim, descobriram que uma grande concentração de vestígios de frutos do mar, em especial moluscos e ouriços-do-mar, além de restos de peixes e crustáceos. Os pesquisadores observaram também a presença de milhares de escamas de peixe, o que indica que grandes quantidades de pescado eram limpas e preparadas diretamente no local.

Como destaca o portal Archaeology News, diversos artefatos reforçam a interpretação de que Playa Chica era um centro especializado de pesca. Chifres de cabra transformados em instrumentos para remoção de escamas, além das centenas de fragmentos resultantes da fabricação dessas ferramentas servem de evidência. Mas não para por aí: os pesquisadores também encontraram pequenos anzóis esculpidos em presas de porco, sugerindo que os habitantes utilizavam diferentes técnicas para capturar espécies marinhas.

O que análise revelou

A análise dos restos de peixes mostrou que a maioria pertencia a espécies costeiras, o que indica que a atividade pesqueira ocorria principalmente em águas próximas à costa. O grande volume de vestígios encontrados aponta para uma exploração contínua e organizada dos recursos marinhos, e não para capturas esporádicas.

Outras evidências vieram do estudo dos restos vegetais. Os arqueólogos identificaram vestígios de cevada, trigo duro e figos, além de materiais conhecidos por produzir grande quantidade de fumaça quando queimados, como partes de pinhas do pinheiro-canário, rizomas de junco e plantas do gênero Euphorbia. Esses elementos revelam aspectos importantes das práticas de conservação de alimentos adotadas pelas comunidades locais.

O sítio continha 29 lareiras. A análise do carvão vegetal mostrou que muitas delas operavam em temperaturas relativamente baixas, condição ideal para secar ou defumar peixes. A fumaça reduz a umidade e retarda a deterioração dos alimentos, permitindo que permaneçam consumíveis por períodos mais longos. Esse método de conservação também facilitaria o armazenamento e o transporte dos produtos para outras regiões da ilha.

A organização do espaço arqueológico reforça essa interpretação. Fragmentos de cerâmica aparecem em quantidades limitadas e parecem estar associados principalmente ao preparo de alimentos. Já as ferramentas de pedra são abundantes e foram produzidas, em sua maioria, com matérias-primas obtidas localmente. A combinação de instrumentos especializados, restos marinhos, lareiras e materiais produtores de fumaça distingue Playa Chica das áreas residenciais identificadas em outras partes de Gran Canaria.

O que concluíram os pesquisadores

Segundo os pesquisadores, o local provavelmente funcionava como um centro de processamento de frutos do mar destinados a comunidades vizinhas. Peixes, moluscos e outros produtos preservados teriam sido distribuídos para assentamentos do interior por meio de redes locais de troca. Esse sistema sugere uma produção organizada capaz de gerar excedentes alimentares.

Conforme o Archaeology News, a descoberta também possui relevância para o estudo das populações berberes do noroeste da África, responsáveis pelo povoamento das Ilhas Canárias durante o primeiro milênio d.C. Como as evidências arqueológicas relacionadas à exploração marítima ao longo da costa africana ainda são escassas, os vestígios encontrados nas ilhas oferecem informações importantes sobre a relação dessas comunidades com o ambiente marinho.

Além disso, o estudo desafia a visão tradicional de que os recursos costeiros tinham papel secundário na sociedade indígena canária. As evidências de Playa Chica indicam que o mar ocupava uma posição central na economia local e que atividades como pesca, processamento e conservação de alimentos faziam parte de sistemas produtivos e sociais bem estruturados.

Apesar dos avanços, os pesquisadores ressaltam que ainda existem muitas questões em aberto. Poucos sítios costeiros do arquipélago foram investigados com o mesmo nível de detalhe. Novas escavações poderão revelar se centros semelhantes de processamento de frutos do mar existiram em outras ilhas.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.