Notícias / Astronomia

Lua de Netuno pode ser única sobrevivente de antiga colisão, aponta estudo

A lua Nereida pode ser o único satélite original de Netuno a sobreviver intacto a uma antiga colisão que teria envolvido outras luas do planeta

O planeta Netuno - Crédito: Getty Images

O planeta Netuno conta com muitas luas. Para ser exato, são conhecidas 16. Destas, algumas são tidas como estranhas pelos cientistas. Agora, pesquisadores sugerem que uma delas, Nereida, pode ser o único satélite original de Netuno a sobreviver intacto a uma antiga colisão envolvendo outras luas do planeta. As conclusões foram publicadas em 20 de maio na revista Science Advances.

Entre os gigantes gasosos e gelados do Sistema Solar, Netuno possui um conjunto incomum de luas. Enquanto Júpiter, Saturno e Urano têm grandes satélites orbitando alinhados ao equador de seus planetas, além de pequenas luas mais distantes e inclinadas, Netuno apresenta uma configuração muito mais peculiar.

A principal anomalia é Tritão, responsável por mais de 99% da massa de todas as luas conhecidas do planeta. Além disso, Tritão orbita Netuno no sentido oposto ao movimento do planeta ao redor do Sol, característica que sugere que ele não se formou junto ao gigante gelado. Cientistas acreditam que Tritão seja originalmente um objeto do Cinturão de Kuiper (região repleta de corpos congelados além da órbita de Netuno) capturado posteriormente pela gravidade do planeta.

Até então, muitos pesquisadores também acreditavam que Nereida havia sido capturada de forma semelhante, principalmente por causa de sua órbita ampla e elíptica. Contudo, a lua apresenta diferenças importantes em relação aos demais objetos distantes do sistema neptuniano: ela é maior, mais brilhante e segue uma trajetória distinta.

Nereida sempre foi uma exceção”, afirmou o cientista planetário Matthew Belyakov, coautor do estudo, conforme informações do portal Smithsonian.

Investigando sua origem

Para investigar a origem da lua, os pesquisadores analisaram a luz infravermelha refletida por Nereida usando o Telescópio Espacial James Webb, que observou o satélite por cerca de dez minutos em novembro de 2024. A assinatura luminosa encontrada era diferente daquela típica dos objetos do Cinturão de Kuiper e se aproximava mais dos padrões vistos nas luas de Urano, sugerindo que Nereida provavelmente não veio da região gelada além de Netuno.

Em seguida, a equipe realizou simulações computacionais sobre a evolução das luas do planeta. Os resultados indicaram que, após ser capturado pela gravidade de Netuno, Tritão pode ter desestabilizado violentamente o sistema lunar original, lançando satélites antigos em órbitas excêntricas semelhantes à de Nereida.

“Nos casos em que o Tritão sobrevive, em vez de ser destruído ou expulso de Netuno, cerca de 25% das vezes uma ou mais luas podem sobreviver ao encontro com o Tritão em órbitas distantes”, explicou Belyakov. Segundo ele, essa hipótese parece mais provável do que a ideia de que Nereida também tenha sido capturada posteriormente.

De acordo com o estudo, nos primeiros 200 milhões de anos do Sistema Solar, a chegada de Tritão pode ter destruído quase todas as luas originais de Netuno, restando apenas Nereida, arremessada para sua órbita atual.

A cientista planetária Carolyn Porco, que participou das missões Cassini, Voyager e New Horizons da NASA, mas não integrou o estudo, afirmou que a captura de Tritão “causou estragos”, espalhando gravitacionalmente as luas originais do planeta.

Já o astrônomo Matija Ćuk sugeriu que as luas internas atuais de Netuno podem ser fragmentos remanescentes desses antigos satélites destruídos, reorganizados após o caos provocado pela chegada de Tritão.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.