Líder da Igreja da Inglaterra pede desculpas por prática histórica de adoção forçada
Igreja reconhece papel em práticas que separaram milhares de crianças de mães solteiras entre as décadas de 1940 e 1970

A Igreja da Inglaterra pediu desculpas pelo papel desempenhado nas práticas históricas de adoção forçada que afetaram milhares de famílias nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial. O pedido foi feito por Sarah Mullally, arcebispa de Canterbury, após a divulgação de uma pesquisa sobre o envolvimento da instituição em lares destinados a mães e bebês.
Segundo o levantamento, cerca de 185 mil crianças foram retiradas de mães solteiras na Inglaterra e no País de Gales durante esse período. A pesquisa analisou os anos entre 1949 e 1976 e destacou a participação da Igreja em um sistema que marcou profundamente a vida de inúmeras mulheres e famílias.
Em comunicado, Mullally afirmou que a instituição lamenta profundamente a dor, o trauma e o estigma vividos por muitas pessoas em decorrência dessas práticas.
“Lamentamos profundamente a dor, o trauma e o estigma vividos — e ainda carregados — por muitas pessoas devido às práticas históricas de adoção em lares afiliados à Igreja da Inglaterra”, declarou.
Pesquisa analisou lares ligados à Igreja
De acordo com a UOL, a investigação revelou que a Igreja da Inglaterra foi uma importante provedora de lares para mães e bebês ao longo do período analisado. De acordo com o relatório, a instituição pode ter administrado mais de 200 desses estabelecimentos ao longo do tempo.
O estudo publicado na Reuters, também concluiu que as estruturas sociais e os sistemas vigentes na época dificultavam significativamente que mulheres solteiras com filhos conseguissem viver de forma independente.
Segundo o relatório, o contexto social do pós-guerra exercia forte pressão sobre mães solteiras, contribuindo para que muitas delas fossem separadas de seus filhos por meio de processos de adoção.
Pedido de desculpas às mulheres afetadas
Em sua declaração, Sarah Mullally dirigiu uma mensagem direta às mulheres que passaram por essas experiências.
“Hoje, dizemos a cada uma de vocês: a vergonha que foram levadas a sentir foi errada. Vocês não têm nada do que se envergonhar. Pelo contrário, estamos profundamente envergonhados por isso ter acontecido a pessoas sob os cuidados de comunidades cristãs”, afirmou.
O pronunciamento representa um reconhecimento formal da responsabilidade da Igreja em um capítulo considerado doloroso da história social britânica.
Governo também deve se pronunciar
Além do pedido feito pela Igreja da Inglaterra, o governo britânico também deverá apresentar um pedido oficial de desculpas em nome do Estado pelas práticas de adoção forçada registradas no período.
Casos semelhantes já levaram outros países a reconhecer oficialmente episódios de separação de mães e filhos. Segundo a reportagem, Irlanda e Austrália emitiram pedidos de desculpas relacionados a situações parecidas nos últimos anos.
A divulgação da pesquisa e o posicionamento da Igreja reforçam o debate sobre os impactos duradouros dessas políticas para mães, filhos e famílias afetadas. Décadas depois dos acontecimentos, muitas pessoas ainda convivem com as consequências emocionais, sociais e psicológicas provocadas pelas separações ocorridas em instituições que deveriam oferecer acolhimento e assistência.
O pedido de desculpas busca reconhecer esse legado e dar visibilidade às experiências vividas por milhares de mulheres e crianças durante um período marcado por fortes restrições sociais e pelo estigma direcionado às mães solteiras.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes