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Implantes oculares e óculos de realidade aumentada ajudam pessoas cegas a voltar a ler

Em novo estudo revolucionário, pesquisadores conseguiram fazer pessoas cegas voltarem a ler graças a implante ocular e óculos de realidade aumentada

Sheila Irvine, participante do estudo, durante treinamento / Crédito: Divulgação/Moorfields Eye Hospital

Um novo avanço na restauração da visão tem proporcionado esperança a pessoas que perderam a visão, utilizando um chip implantado cirurgicamente em conjunto com óculos de realidade aumentada. Um estudo recente, publicado nesta segunda-feira, 20 de outubro, na revista The New England Journal of Medicine revelou que aproximadamente 80% dos participantes que sofreram perda de visão devido à degeneração macular relacionada à idade (DMRI) conseguiram ler letras e palavras após um ano do tratamento.

De acordo com Mahi Muqit, oftalmologista da University College London e coautor do estudo, este desenvolvimento marca um ponto crucial na história da visão artificial. “Pacientes cegos podem, de fato, ter uma restauração significativa da visão central, algo nunca antes feito”, afirmou Muqit em um comunicado.

A DMRI é a principal causa de cegueira em adultos acima de 65 anos e afeta a mácula, a parte central da retina, levando à perda da visão central. Na forma avançada da doença, um processo conhecido como atrofia geográfica danifica consideravelmente as células retinianas, podendo resultar em cegueira total no olho afetado. Este problema impacta cerca de 5 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com o Live Science.

Novo estudo

Sheila Irvine, uma das participantes do estudo diagnosticada com DMRI, descreveu sua experiência anterior ao implante: “Antes de receber o implante, era como ter dois discos pretos nos meus olhos, com a parte externa distorcida”.

No ensaio clínico realizado, 38 pacientes europeus com DMRI receberam um pequeno chip eletrônico implantado sob a retina central, abaixo das células que já estavam mortas. O chip se conecta sem fio a um par de óculos de realidade aumentada, que são ligados a um pequeno computador que cada paciente usa na cintura.

Esse sistema inovador, denominado microarranjo de implante de retina fotovoltaico (PRIMA, na sigla em inglês), utiliza uma câmera embutida nos óculos para capturar imagens de textos. Os óculos projetam então essas imagens como luz infravermelha sobre o chip implantado. O chip converte essa luz em sinais elétricos que o cérebro interpreta como visão.

É uma nova maneira de olhar através dos meus olhos, e foi muito emocionante quando comecei a ver uma letra”, declarou Irvine no comunicado. “Não é simples aprender a ler novamente, mas quanto mais horas eu dedico, mais eu aprendo”.

Os participantes do estudo passaram por meses de treinamento para aprender a utilizar o novo dispositivo. Os pesquisadores incentivaram os pacientes a praticarem de maneiras diversificadas. Irvine utilizou seu dispositivo para resolver palavras-cruzadas, por exemplo, enquanto outro participante navegou pelo sistema do metrô de Paris. Uma função de zoom na câmera também auxilia os usuários a lerem textos pequenos, como aqueles contidos em receitas médicas.

Ressalvas

Apesar das promissoras funcionalidades do sistema PRIMA, Dr. Demetrios Vavvas, diretor do serviço de retina do Mass Eye and Ear e que não esteve envolvido no estudo, apontou algumas limitações à NBC News. Atualmente, o dispositivo apenas restabelece a visão em preto e branco, sem permitir a percepção de cores ou tons de cinza, o que impossibilita o reconhecimento facial. Além disso, ainda não está claro se o dispositivo manterá sua eficácia após anos de uso.

Entretanto, Vavvas observa que “à medida que as iterações deste dispositivo se tornam cada vez melhores, ele pode se tornar uma solução real para um grupo de pacientes”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.