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Humanos primitivos caçaram elefantes e transformaram seus ossos em ferramenta

Primeiros humanos a habitar região próxima à atual Roma desenvolveram ferramentas a partir de ossos de elefantes

Depósito arqueológico e paleontológico de Casal Lumbroso (a) e o desenho dos ossos de grandes mamíferos expostos na superfície principal (b). Crédito: Divulgação/B. Mecozzi et al., PloS One (2025)

Um estudo publicado recentemente na revista científica PLOS ONE trouxe à luz evidências que sugerem que os primeiros humanos que habitavam a região próxima à atual Roma realizaram o abate de um elefante gigante há mais de 400 mil anos. Os vestígios, encontrados no sítio arqueológico de Casal Lumbroso, localizado no noroeste de Roma, proporcionam informações sobre a vida dos hominídeos que povoaram a Europa durante um período climaticamente quente do Meio Pleistoceno.

No local, pesquisadores da Universidade Sapienza de Roma descobriram mais de 300 fragmentos de esqueleto do elefante de presas retas (Palaeoloxodon antiquus) e mais de 500 ferramentas de pedra, em sua maioria feitas de sílex. Como destacou o portal Archaeology News, a presença de camadas de cinzas vulcânicas acima e abaixo dos restos permitiu uma datação precisa do local, situando-o aproximadamente em 404.000 anos atrás, durante um período interglacial entre duas eras glaciais.

Os sedimentos e fósseis vegetais encontrados indicam que o ambiente era uma região florestal e úmida no delta do rio Tibre, rica em biodiversidade. Além dos ossos do elefante, foram identificados vestígios de rinocerontes, cervos, bisões, canídeos, pequenos mamíferos, tartarugas, anfíbios e aves, sinalizando um ecossistema pré-histórico ativo.

O que a análise indicou

A análise detalhada sugere que o corpo do elefante foi processado logo após sua morte. Vários ossos apresentam fraturas e marcas de impacto que indicam golpes intencionais para quebrá-los e extrair o tutano. Curiosamente, poucos ossos apresentam marcas de corte — muito provavelmente porque foram utilizadas pequenas ferramentas de sílex, a maioria com menos de 30 milímetros, adequadas para cortar tecidos moles, mas não para trabalhos pesados. Os pesquisadores apontam que a escassez de pedras maiores na área pode ter forçado os humanos primitivos a utilizar ferramentas menores e a reutilizar os próprios ossos do elefante como instrumentos.

Alguns fragmentos ósseos mostram evidências claras de moldagem e uso intencionais, confirmando que esses restos foram reaproveitados como ferramentas. Essa combinação de pequenas ferramentas de pedra e tecnologia óssea demonstra a adaptabilidade e engenhosidade desses antigos humanos, que maximizaram o uso dos recursos limitados disponíveis em seu ambiente.

Causas naturais

Os pesquisadores estimam que o elefante em questão morreu por causas naturais, possivelmente preso em lama ou água, antes que os humanos o explorassem. No entanto, não descartam totalmente a hipótese de que o animal tenha sido intencionalmente levado a uma posição vulnerável. O esforço coordenado necessário para processar um cadáver tão grande indica cooperação social e compartilhamento de conhecimento entre os fabricantes das ferramentas.

Neste período, os humanos modernos ainda não haviam evoluído e os neandertais apareceriam apenas milhares de anos depois. Logo, os prováveis usuários das ferramentas encontradas em Casal Lumbroso pertenciam ao Homo heidelbergensis ou Homo erectus, ambos conhecidos em contextos europeus dessa época. O fato de terem conseguido explorar um recurso tão grande quanto um elefante sugere um elevado grau de conhecimento sobre processamento alimentar e fabricação de ferramentas — significativamente superior ao que se imaginava anteriormente para humanos deste período.

Casal Lumbroso integra a lista dos sítios significativos do Meio Pleistoceno na Itália central, como Castel di Guido e La Polledrara di Cecanibbio, onde também foram documentados restos de elefantes e ferramentas. As descobertas reafirmam a importância da região na investigação do comportamento humano primitivo durante fases climáticas quentes, quando humanos antigos e megafauna prosperaram por toda a península italiana.

+ Confira aqui o estudo completo publicado na revista PLOS ONE.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.