Grupo ultratradicionalista desafia papa e reabre risco de cisma na Igreja Católica
Fraternidade São Pio X marcou a ordenação de bispos sem autorização de Leão XIV e reacendeu tensões históricas entre o grupo e o Vaticano

A decisão da Fraternidade São Pio X de manter a ordenação de novos bispos sem autorização do papa Leão XIV reacendeu uma antiga crise entre o grupo ultratradicionalista e o Vaticano. A iniciativa levou o pontífice a fazer um último apelo para que a organização desistisse do plano, alertando que a medida representaria um cisma dentro da Igreja Católica.
A tensão ganhou novo capítulo após a fraternidade divulgar, em 14 de maio, uma “declaração de fé católica” dirigida ao papa. No documento, o grupo afirma estar há mais de meio século empenhado em denunciar o que considera “erros que estão destruindo a fé e a moral católicas”.
Origem do conflito
Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a Fraternidade São Pio 10º surgiu como reação às mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965. O encontro promoveu uma série de reformas na Igreja Católica, entre elas a celebração das missas no idioma local, a posição do sacerdote voltada para os fiéis durante as celebrações e a abertura ao diálogo com outras religiões.
O nome da fraternidade faz referência ao papa Pio X, que, no início do século 20, publicou uma encíclica condenando o modernismo dentro da Igreja. Inspirado nesse pensamento, o grupo defende a preservação das práticas anteriores ao Concílio Vaticano II e rejeita as reformas implementadas a partir dele.
O atual impasse surgiu porque a fraternidade marcou para esta quarta-feira, 1, a consagração de novos bispos sem o aval do papa. Segundo a própria estrutura hierárquica da Igreja Católica, esse tipo de ordenação depende obrigatoriamente de autorização papal. Caso seja realizada sem essa permissão, a punição prevista é a excomunhão.
Crise já provocou excomunhões
O embate entre a Fraternidade São Pio 10º e o Vaticano não é novo. O momento mais crítico ocorreu em 1988, quando Marcel Lefebvre, preocupado com o futuro da organização após sua morte, consagrou quatro bispos sem autorização do então papa João Paulo II.
Na ocasião, o Vaticano classificou o episódio como um “ato cismático” e excomungou os envolvidos. O cisma ocorre quando um grupo rompe com as regras internas da Igreja para seguir um caminho próprio.
Anos depois, em 2009, Bento XVI suspendeu as excomunhões dos quatro bispos na tentativa de restabelecer o diálogo com a fraternidade. A iniciativa, porém, acabou sendo marcada pela repercussão das declarações antissemitas de Richard Williamson, um dos bispos beneficiados pela medida, que questionou a existência das câmaras de gás nazistas e minimizou a dimensão do Holocausto.
Durante o pontificado de Francisco, também houve gestos de aproximação. O papa reconheceu a validade dos casamentos celebrados pelo grupo e autorizou que sacerdotes ligados à fraternidade pudessem ouvir confissões dos fiéis, apesar de a organização continuar em situação canônica considerada irregular.
Grupo pequeno, mas com influência
Apesar da repercussão do caso, especialistas ouvidos pela Folha de S. Paulo, afirmam que a Fraternidade São Pio 10º reúne menos de mil sacerdotes e ocupa uma posição marginal dentro do catolicismo institucional.
Ainda assim, a organização ganhou destaque por representar a face mais visível de uma corrente tradicionalista que tem conquistado espaço, especialmente entre jovens e convertidos nos Estados Unidos e na França. Segundo os pesquisadores citados, cresce entre esses grupos uma valorização de práticas religiosas consideradas mais solenes e tradicionais.
Para o antropólogo Rodrigo Toniol, a fraternidade se diferencia de organizações como Opus Dei e Legionários de Cristo por carregar, há décadas, uma relação marcada por controvérsias com a Santa Sé, enquanto esses outros grupos mantêm maior disciplina em relação ao papa.
Já Rodrigo Coppe Caldeira avalia que as restrições impostas por Francisco, em 2021, à celebração da missa tridentina em latim acabaram estimulando parte dos fiéis interessados nesse rito a se aproximarem da Fraternidade São Pio X.
Na terça-feira, 30, Leão XIV fez um novo apelo para que a organização desistisse das ordenações, afirmando que a iniciativa representaria um cisma dentro da Igreja Católica. Agora, o desfecho da crise depende da decisão da fraternidade ou de uma eventual negociação com o Vaticano. Caso as ordenações ocorram sem autorização papal, o caminho previsto pela disciplina da Igreja é a excomunhão.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes