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Gravuras revelam resistência psicológica de prisioneiros na Sicília

Projeto utiliza sensoriamento remoto e modelagem 3D para documentar jogos e grafites náuticos deixados por detentos de Noto Antica

Gravuras antigas de prisões na Sicília - Divulgação/Anthony, AW, & Hassam, S., Antiquity

Pesquisadores do Projeto de Patrimônio Penal do Mediterrâneo Central (CMPHP) revelaram novos detalhes da vida cotidiana dentro da antiga prisão do castelo de Noto Antica, no sudeste da Sicília. Utilizando técnicas avançadas de sensoriamento remoto, a equipe registrou tabuleiros de jogos esculpidos em pedra e gravuras detalhadas de galeras mediterrâneas, oferecendo um olhar inédito sobre o modo como prisioneiros enfrentavam as adversidades do confinamento no início da Idade Moderna.

Localizada em um planalto habitado desde o primeiro milênio a.C., Noto Antica foi destruída pelo terremoto de 1693 e hoje funciona como parque arqueológico. A fortaleza medieval que serviu como prisão conserva inscrições rupestres conhecidas há décadas, mas pela primeira vez o CMPHP produziu uma documentação digital sistemática. O projeto, iniciado em 2023, busca criar uma base comparativa de locais de aprisionamento do Mediterrâneo entre os séculos 15 e 20.

Para registrar o interior da prisão, os especialistas usaram fotogrametria digital. Foram capturadas 747 imagens de alta resolução, processadas no Agisoft Metashape e convertidas em um modelo 3D minucioso. Em seguida, o material foi transferido para o Blender, onde alterações de iluminação realçaram detalhes da superfície. Cada quadro foi exportado e vetorizado no GIMP, resultando nos primeiros desenhos técnicos completos dos grafites.

Análises

A análise inicial, publicada na revista Antiquity, identificou sete gravuras náuticas, cinco tabuleiros de jogos e uma cabeça esculpida. Os retângulos repetidos nas superfícies horizontais sugerem o uso do Jogo dos Nove Homens (Nine Men’s Morris), prática comum na Europa e no Mediterrâneo há séculos. Os pesquisadores defendem que a permissão para jogar funcionava como um alívio psicológico diante do ambiente desumanizante. O número de tabuleiros também indica que a pequena cela — com apenas quatro metros quadrados — provavelmente abrigava dez ou mais detentos ao mesmo tempo.

Segundo o ‘Archaeology News’, as representações de embarcações foram comparadas às do Projeto de Grafites Navais de Malta. Três desenhos apresentam elementos típicos das galeras mediterrâneas: cascos baixos, velas latinas e linhas que mostram as fileiras de remos. Em duas delas, aparecem bandeiras com a cruz da Ordem de São João. Os Cavaleiros de Malta, que governaram o arquipélago a partir de 1530, operavam frotas de galeras com cerca de 280 remadores cada.

Naquela época, esse trabalho era realizado por pessoas escravizadas, criminosos condenados e devedores. A região mantinha, mesmo em períodos de paz, uma população estimada de 20 mil homens forçados ao remo. A presença das galeras entre as gravuras da prisão pode refletir tanto o temor dos detentos de serem enviados a esse tipo de punição quanto seu conhecimento sobre o ambiente marítimo e o corso no Mediterrâneo central.