Falha de Cascadia pode gerar um dos maiores terremotos de todos os tempos, diz estudo
Pesquisa aponta que dinâmica entre placas tectônicas na região de Cascadia, entre EUA e Canadá, pode influenciar risco de terremoto acima de magnitude 9

A Zona de Subducção de Cascadia, que se estende por mais de 965 quilômetros do Canadá à Califórnia, tem sido alvo de novas investigações científicas que podem alterar a compreensão sobre o comportamento de grandes terremotos na região. O sistema geológico marca o encontro entre as placas tectônicas Juan de Fuca e Norte-Americana e, apesar de seu potencial destrutivo, apresenta pouca atividade sísmica aparente — o que há anos levanta a hipótese de que as placas estariam travadas pelo atrito.
Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade de Washington, publicado na revista Science Advances, sugere que essa dinâmica pode ser mais complexa do que se pensava. A análise foi baseada em 13 anos de dados de movimento do solo coletados por sensores distribuídos em diferentes pontos da região, revelando variações importantes ao longo da falha.
Segundo os resultados, a porção norte da zona de subducção parece permanecer travada e relativamente inativa, enquanto a região central apresenta sinais de maior dinamismo. Os cientistas identificaram evidências de um terremoto raso de movimento lento, além de pulsos de fluidos circulando por canais subterrâneos. Esses fluxos podem atuar como uma espécie de válvula natural, liberando pressão acumulada entre as placas.
“Ainda é preliminar, mas acreditamos que as trajetórias variáveis dos fluidos em Cascadia irão alterar o comportamento de grandes terremotos na falha”, afirmou a coautora Marine Denolle, professora associada de Ciências da Terra e do Espaço da Universidade de Washington, em comunicado.
Bomba-relógio sísmica?
A placa Juan de Fuca avança em direção à placa Norte-Americana a uma taxa de cerca de 4 centímetros por ano. Como ambas permanecem presas, essa movimentação gera acúmulo de tensão ao longo do tempo. Quando esse limite é ultrapassado, ocorre a liberação abrupta de energia na forma de terremotos, que podem se propagar por toda a extensão da falha.
Eventos desse tipo, conhecidos como terremotos de megadeslizamento, atingem o noroeste do Pacífico aproximadamente a cada 500 anos. O último grande episódio registrado ocorreu em 1700. Estimativas atuais indicam uma probabilidade entre 10% e 15% de que toda a falha se rompa novamente nos próximos 50 anos, potencialmente gerando um terremoto superior à magnitude 9.
Um levantamento recente do fundo do mar também apontou que a falha pode ser dividida em pelo menos quatro segmentos geologicamente distintos, o que pode limitar a propagação de rupturas ao longo de toda a sua extensão. No novo estudo, os pesquisadores focaram em duas dessas áreas, utilizando dados de três estações de monitoramento localizadas próximas à Ilha de Vancouver e à costa do Oregon.
“Queríamos entender as mudanças de tensão em diferentes regiões da costa”, explicou a autora principal Maleen Kidiwela, doutoranda em oceanografia da Universidade de Washington. “Usamos sismógrafos para medir como a velocidade sísmica varia abaixo de cada estação.”
A chamada velocidade sísmica indica a rapidez com que ondas sonoras se propagam através de materiais subterrâneos, fornecendo pistas sobre as condições geológicas locais. No setor norte, o aumento constante dessa velocidade sugere compressão das rochas, reforçando a ideia de que as placas permanecem travadas. Já na região central, reduções na velocidade sísmica foram registradas em diferentes períodos, associadas tanto a terremotos de movimento lento quanto à circulação de fluidos no subsolo, repercute a CNN.
“Durante uma ruptura de megadeslizamento, uma das formas de propagação de um terremoto é através da pressão de fluidos. Se houver uma maneira de liberar esses fluidos, isso pode ajudar a melhorar a estabilidade da falha e, potencialmente, impactar o comportamento da região durante um grande terremoto”, disse Kidiwela.
Os pesquisadores destacam que, apesar de os dados analisados abrangerem apenas três pontos de observação, já foi possível identificar dinâmicas complexas que podem influenciar diretamente a forma como terremotos se desenvolvem na região. As investigações continuam em andamento por meio de um observatório subaquático instalado na Zona de Subducção de Cascadia, com o objetivo de aprofundar o entendimento sobre um dos sistemas geológicos mais monitorados do planeta.