Estudo revela doença similar à sífilis em crianças há 4 mil anos no Vietnã
Restos de crianças no Vietnã indicam doença da família da sífilis há 4 mil anos, desafiando teorias sobre a origem nas Américas dessas infecções

Uma análise de restos mortais infantis encontrados no Vietnã está colocando em xeque hipóteses consolidadas sobre a origem da sífilis. O estudo, publicado em 13 de março no International Journal of Osteoarchaeology, identificou evidências de uma doença bacteriana da mesma família da sífilis em esqueletos de três crianças que viveram há cerca de 4.000 anos, durante o período neolítico.
Os achados foram feitos por arqueólogos que investigaram vestígios humanos em diferentes sítios do país. As crianças apresentavam sinais claros de uma infecção conhecida como treponematose congênita — um grupo de doenças causadas pela bactéria Treponema pallidum, que inclui sífilis, bejel e bouba. A presença dessas marcas em ossos e dentes pode indicar que a infecção foi transmitida da mãe para o filho durante a gestação.
Durante décadas, pesquisadores sustentaram que apenas a sífilis poderia ser transmitida dessa forma. Essa premissa ajudou a fortalecer a chamada “hipótese de Colombo”, segundo a qual a doença teria surgido nas Américas e sido levada à Europa após as viagens de Cristóvão Colombo. No entanto, os novos dados sugerem que essa interpretação pode ser mais complexa do que se imaginava.
“Nenhum desse DNA é realmente de sífilis”, destacou Melandrie Vlok, autora principal do estudo e professora de anatomia e fisiologia da Universidade Charles Sturt, em declaração enviada ao Live Science. Segundo ela, a associação entre transmissão congênita e sífilis pode ter sido superestimada ao longo do tempo.
Nicola Czaplinski, doutoranda em ciências da saúde na Universidade de Notre Dame Austrália, acrescenta: “nossa nova pesquisa muda completamente o panorama”. A cientista pontua que “a transmissão congênita não é exclusiva da sífilis”, indicando que outras doenças do mesmo grupo também podem ser transmitidas dessa forma.
Os casos analisados envolvem três crianças identificadas em dois sítios arqueológicos. Dois dos indivíduos, com idades estimadas de 18 meses e 5 anos, foram encontrados em Man Bac, no norte do Vietnã, um local datado entre 4.100 e 3.300 anos atrás. O terceiro caso, de uma criança de aproximadamente 2 anos e meio, foi localizado em An Son, no sul do país, com idade semelhante.
Os dentes dessas crianças apresentavam as evidências mais marcantes da doença. Em alguns casos, estavam deformados, atrofiados ou com aspecto descrito como se tivessem sido “comidos por vermes”. Esse tipo de alteração é considerado um indicador importante de infecção congênita por doenças treponêmicas, repercute o Live Science.
O estudo analisou 304 indivíduos provenientes de 16 sítios arqueológicos no Vietnã, com datações que variam entre 10.000 e 1.000 anos atrás. A concentração de casos entre crianças e adolescentes sugere que a transmissão da doença não ocorria principalmente por via sexual, como é comum na sífilis moderna.
Essa constatação enfraquece um dos pilares da hipótese de Colombo. “Essa descoberta desafia um dos pilares fundamentais da teoria de que ‘Colombo trouxe a sífilis [do Novo Mundo para a Europa]’ e mostra que […] ainda estamos longe de desvendar o mistério de onde a sífilis realmente começou”, afirmou Czaplinski.

Obstáculos
Apesar dos avanços, os pesquisadores reconhecem que ainda há obstáculos significativos para determinar a origem exata dessas doenças. Um dos principais desafios é a preservação do DNA em regiões tropicais, como o Sudeste Asiático, onde as condições ambientais dificultam a recuperação de material genético antigo.
“A recuperação desses restos mortais muitas vezes exige a remoção de grandes quantidades de ossos, o que levanta sérias questões éticas”, explicou Vlok. “Restos humanos não são apenas amostras científicas; são ancestrais de comunidades vivas e devem ser tratados com cuidado e respeito.”
Especialistas independentes também destacaram a relevância da pesquisa. Charlotte Roberts, professora emérita de bioarqueologia da Universidade de Durham, afirmou que o estudo amplia o conhecimento sobre doenças treponêmicas, historicamente marcadas por debates e controvérsias. “As doenças treponêmicas têm sido estudadas por paleopatologistas há décadas, frequentemente com resultados controversos”, disse. “Este é, portanto, um estudo bem-vindo de uma área do mundo que não apresentou muitas evidências até o momento.”
Além disso, os dados sugerem que movimentos populacionais antigos podem ter desempenhado um papel importante na disseminação dessas infecções. Os sítios analisados estão associados às primeiras migrações de agricultores da China para o sudeste asiático, que interagiram com populações locais de caçadores-coletores.
“De particular interesse”, observou Roberts, “é a sugestão de que a migração de pessoas na região possa estar diretamente ligada à ocorrência dessa infecção.”