Doggerland: DNA revela biodiversidade da “Atlântida do Norte”
Análise de DNA indica que região submersa era habitável, com florestas, animais de grande porte e, possivelmente, humanos

Uma vasta região hoje submersa sob o Mar do Norte — conhecida como Doggerland — pode ter sido muito mais habitável durante a última Era do Gelo do que os cientistas imaginavam. Um novo estudo baseado em DNA antigo sugere que o local abrigava florestas, fauna diversificada e condições favoráveis à vida humana muito antes do previsto.
Doggerland foi uma extensa faixa de terra que conectava o atual Reino Unido ao continente europeu. Durante o período glacial, o nível do mar era significativamente mais baixo, expondo essa região como uma ponte terrestre habitada por animais e possivelmente por grupos humanos. Com o fim da Era do Gelo e o derretimento das calotas polares, a área acabou sendo gradualmente inundada até desaparecer completamente sob o oceano há cerca de 7 mil anos.
A nova pesquisa utilizou uma técnica chamada DNA ambiental sedimentar (sedaDNA), que permite identificar vestígios genéticos preservados em sedimentos marinhos. A partir da análise de centenas de amostras coletadas no fundo do mar, os cientistas conseguiram reconstruir o ecossistema da região ao longo de milhares de anos.
DNA revelador
Os resultados surpreenderam. Em vez de uma paisagem árida e congelada — como se imaginava para aquele período —, partes de Doggerland já abrigavam florestas temperadas há cerca de 16 mil anos. Espécies de árvores como carvalho, olmo e aveleira foram identificadas, indicando um ambiente relativamente ameno mesmo em um contexto climático globalmente frio.
Além da vegetação, o DNA revelou a presença de diversos animais de grande porte, incluindo javalis, cervos, ursos e auroques (um tipo extinto de boi selvagem). A diversidade de fauna reforça a ideia de que o local não apenas era habitável, mas sustentava ecossistemas complexos e ricos em recursos.
Para os pesquisadores, esse cenário transforma a forma como entendemos a ocupação humana na Europa pré-histórica. Ambientes como Doggerland podem ter funcionado como “refúgios” ecológicos durante períodos mais rigorosos da Era do Gelo, permitindo a sobrevivência de plantas, animais e possivelmente comunidades humanas em condições mais favoráveis.
Outro ponto importante é que a descoberta ajuda a explicar um antigo enigma científico: como as florestas se espalharam tão rapidamente pelo norte da Europa após o fim da glaciação. Se essas áreas já abrigavam vegetação antes do aquecimento global natural, elas podem ter servido como núcleos de expansão para os ecossistemas posteriores.